quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Grampo azougado pra mulher que tem piolho

Ernane Santana

Francisco Santana e Silva, meu avô, era um dos grandes comerciantes de Colônia Leopoldina, terra que me serviu de berço. Em suas várias propriedades cultivava o café, o cacau, a banana, a mandioca e ainda criava umas cem cabeças de gado bovino. Em Caruaru, também possuía uma propriedade chamada Fazenda Salgado, ali criava gado leiteiro de raça holandesa, vendia o leite, fazia o queijo e também alugava o pasto aos boiadeiros viajantes que vinham para a famosa feira da cidade.

Fez parte do velho PSD (Partido Social Democrata) no final dos anos 30. Seu Chiquito, como era conhecido, vivia sempre cercado de amigos e familiares. Era um cidadão exemplar. Católico convicto e pertencente à Liga Católica Apostólica Romana. Enviuvou quando suas cinco filhas ainda eram crianças, mas tempos depois conheceu Celeste de Lima, a diretora do Grupo Escolar Aristheu de Andrade, com quem casou para dar uma segunda mãe às filhas.
Ernande Santana

Seu Chiquito mantinha, em Colônia Leopoldina, uma loja na antiga Rua do Comércio, hoje 15 de Novembro. Seu estabelecimento comercial negociava quase tudo: tecidos de chita, brim paulista, organdí, madapolão, algodão e seda; chapéus Panamá, Cury luxo, Ramezzoni, pratos de ágate, xícaras, garfos, colheres, gillete para barbear, pentes flamengo, pentes finos, carretéis de linha urso 40, brilhantina, perfumes, tabuada de Teobaldo Miranda, a “Cartilha do Povo”, cadernos “Avante Brasil”, fitas de cetim, grampos para cabelos de mulher, marrafas e outras bijuterias do adorno feminino.

Nessa época, também vivia em Colônia um cidadão chamado Pedro José de Souza. Era oficial de justiça e orgulhoso coveiro da cidade. Ele se gabava de saber em qual cova cada pessoa do lugar estava enterrada. Os gozadores da cidade diziam que os presos pelo juiz podiam ser soltos com um bom advogado, mas aquele que fosse preso na sepultura pelo Pedro, não havia nenhum habeas corpus que o soltasse. Casou com d. Maria, com quem teve dois filhos: Antônia e Luiz. Convivi com o Luiz quando criança e perambulávamos pelas ruas de nossa querida Colônia Leopoldina, fazendo estripulias, organizando brincadeiras e peraltices de meninos do interior.  

Mas Pedro, além de oficial de justiça e coveiro, era também vendedor ambulante. Aos domingos, trabalhava na feira local negociando mangaio em uma pequena barraca de madeira, coberta por um pedaço de lona de caminhão e montada sobre rodas de pau. Durante a semana, ele percorria a cidade vendendo guloseimas. Produzia alfenins, uma deliciosa massa branca de clara de ovo e açúcar cristal que tomava a forma de patinhas, cavalos, revólveres e bonecos. Na hora do recreio do Grupo Escolar Aristheu de Andrade, lá estava ele à porta oferecendo os seus bonecos de açúcar.

- Olha o alfenim do Pedro. É doce, alimenta e serve para o lanche da garotada.

Foi por causa desse pregão que ele ficou mais conhecido pelo apelido de Pedro Alfenim.

Nas festas de Natal, Ano Novo e do mártir São Sebastião, o santo mais festejado da cidade, o polivalente Pedro Alfenim se revelava também como o empresário dono do carrossel. Estrutura simples no qual estavam fixados alguns pares de cavalinhos de madeira com tiras de couro simulando rédeas. As cadeiras ficavam para os casais se inebriarem dando voltas no inocente brinquedo. Com tantas profissões, Pedro aprendeu a ser esperto sem deixar de ser brincalhão. Sempre estava disposto a dizer chistes e contar piadas engraçadas.

Certo dia, o velho Chiquito e Pedro Alfenim conversavam animadamente quando meu avô contou que possuia cinco ou seis grosas de grampos para prender cabelos de mulher, que de tanto tempo encalhados já estavam enferrujados. Pedro Alfenim, sentindo a possibilidade de ganhar alguns trocados com os grampos, se propôs a tentar vendê-los na feira. Chiquito, que já estava mesmo decidido a jogar os grampos no lixo, concordou e lhe disse:

- Olha Pedro, fique com os grampos e deles faça o uso que melhor lhe aprouver, sem compromisso algum.

Com sua visão “empreendedora’, capaz até de vender algodão por veludo, Pedro Alfenim imediatamente pôs-se a imaginar uma estratégia para negociar os grampos.

Nos anos 40, o piolho grassava epidemicamente em nossa região. A falta de água e o desconhecimento das noções básicas de higiene facilitavam a multiplicação da praga. Na época, para tratar dos piolhos eram utilizados pentes finos - que só arrastavam os “bichos” maiores - ou se empregava a catação à unha. Mulheres e crianças interioranas perdiam horas nesse processo de arrepiar cabelos para matar piolho um a um. Foi esse enorme ‘mercado consumidor’ que Pedro Alfenim escolheu para vender seu produto, mesmo com validade vencida. Para compensar, atribuiria uma nova função aos grampos, já que estariam supostamente imantados. 

No domingo seguinte, lá estava Pedro na feira anunciando em voz alta:

- Meus senhores e minhas senhoras, estamos vendendo grampo azougado pra mulher que tem piolho e, eu garanto: com sete dias - e repetia com mais ênfase - com sete dias, a mulher que usar os grampos ficará completamente curada desse mal, dessa peste do piolho.

Os matutos ouviam desconfiados. Mas Pedro falava com tanta convicção sobre o poder de cura dos seus grampos, que as pessoas foram se aproximando devagarinho e logo surgiram as primeiras perguntas:

- Mulher de resguardo pode usar os grampos azougados?

O esperto camelô respondia seguro:

- Bota-se sete grampos nos cabelos da mulher no primeiro dia. Tranca-se a mulher num quarto escuro por sete dias. No terceiro dia bota-se mais sete grampos e no sexto dia também. A mulher não pode ver a luz do sol e a comida entra por debaixo da porta. Pronto, com exatos sete dias os piolhos vão caindo e morrendo, todos feito piaba na rede.

Entre um toque de gaita de boca e um palavreado convincente, os grampos azougados foram sendo vendidos, domingo após domingo. Pedro estava alegre com o ganho, mas preocupado com os possíveis desdobramentos daquela sua propaganda enganosa. Ele fez as contas e concluiu que passadas quatro semanas, logo alguém apareceria para reclamar da ineficácia dos seus produtos antipiolho.

Num belo domingo, Pedro Alfenim estava sentado no meio fio da rua, por trás de sua barraca, quando avistou de longe um sujeito acafuzado, zarolho, com o paletó entreaberto, mostrando uma pistola garrucha presa na cinta.  Ele arrastava pelo braço uma mulher banguela, que não parava de coçar a desalinhada e arrepiada cabeleira negra. Pedro Alfenim pensou: “É agora. Dessa eu não escapo” e agachou-se pensando na humilhação e no vexame que decerto passaria. O sujeito foi chegando e falando bem alto:

- Quem é Pedro Alfenim, o homem que vende grampo azougado pra mulher que tem piolho?

Repetiu a pergunta mais umas três vezes e todos permaneciam em silêncio. Pedro continuava acocorado e calado. Passando pelo local, um molecote tentou ajudar e indicou:

-Seu moço, o Pedro é aquele homem ali agachado.

Não tendo mais como se esconder, o camelô levantou-se de pernas trêmulas e olhos arregalados.  O homem perguntou outra vez:

- É você que vende grampo azougado pra mulher que tem piolho?

A resposta veio baixinha, quase inaudível:

- Sim senhor, sou eu mesmo.

Para sua surpresa e da plateia que já se formara para assistir aquela cena, o caboclo perguntou-lhe:
- Quantos grampos azougados ainda lhe restam pra vender?
Pedro criou alma nova e, percebendo que poderia se desfazer da “ponta de estoque”, respondeu:

- Restam ainda 140 grampos.

O matuto abusado ordenou:

- Ajunte tudo num pacote, diga quanto custa os danados dos grampos, que eu quero ver se agora essa condenada num acaba com essa praga de piolhos que está empestando todo mundo lá de casa.

Pedro fez o pacote, recebeu o pagamento, deixou o sujeito se afastar um pouco e deu dois pulos de alegria. Ato contínuo, ele desarmou a barraca e partiu rapidamente carregando todas as miudezas.

Por segurança e com medo de que o episódio se repetisse sem um final feliz para ele, o multiempreendedor resolveu passar uns 30 dias sem armar a barraca na feira. Afinal, seguro morreu de velho.

Pedro Alfenim continuou negociando ainda por muito tempo, alegrando a garotada com seus doces e entretendo a todos com seu famoso carrossel de cavalinhos. Faleceu com mais de 92 anos de idade, deixando marcada sua presença na história da pequenina Colônia Leopoldina.

Extraído do livro "Incruzando Espadas", de Ernane Santana.

Um comentário:

josé joel vieira disse...

Pô que história, adorei. conheço colonia leopoldina meu pai (Antonio Piu) de sertãozinho de cima era comerciante nessa feira, me lenbro que nos anos 60 nós (eu e meus irmão) iamos com eles.(meu pai e minha mãe Dina), e eu particularmente adorava ir, somente para comer os bolos de mandioca da banca de uma senhora chamada Adalgiza. Era tudo muito bom... que saudade.Adorei parabéns... joel são paulo/sp