sexta-feira, 30 de setembro de 2011

PT: sucesso eleitoral e transformações

Historiador discute sucesso eleitoral e transformações ideológicas do PT

Por Renato Godoy de Toledo, do Brasil de Fato

Livro traz a história do partido e debate mudanças internas na estrutura da legenda que pavimentaram as eleições de Lula e Dilma.


O historiador Lincoln Secco, da Universidade de São Paulo (USP), registra em estilo ensaístico a história do Partido dos Trabalhadores. Ele é o primeiro intelectual brasileiro a se deparar com o desafio de contar a história da maior agremiação de esquerda do Brasil.

Em História do PT (Ateliê Editorial, 320 pág.), o autor aponta que o partido tem uma trajetória de sucesso eleitoral em comparação com partidos de esquerda europeus, que demoraram mais de 40 anos para chegar ao governo.  No entanto, esse êxito eleitoral não foi alcançado sem profundas mudanças na estrutura partidária e no posicionamento ideológico da legenda. A composição do partido, aliás, organizado em tendências, é uma das novidades que o partido trouxe para a política brasileira e para a esquerda mundial.

Tal como o formato estatutário diferente, também é peculiar a origem dos militantes que compuseram o partido naquele momento em que o regime militar demonstrava sinais de esgotamento. Secco aponta seis principais grupos que formaram o partido: o Novo Sindicalismo, forjado nas greves do ABC; os movimentos sociais organizados junto à Igreja Católica; políticos já estabelecidos no MDB que viriam a aderir à legenda; intelectuais de esquerda; organizações trotskistas diversas; e, por fim, militantes oriundos da luta armada contra a ditadura.

Essa configuração de um modelo plural é fundamental, para Secco, na análise dos rumos que o partido trilhou. Confira abaixo entrevista com o historiador:

Brasil de Fato – A configuração atual do PT pode ser compreendida pela vitória da realpolitik implementada pelo Novo Sindicalismo sobre agrupamentos trotskistas e os intelectuais (que aos poucos até deixaram a legenda)?

Lincoln Secco – Alguns intelectuais e militantes históricos, mais “ideológicos”, deixaram o PT. Mas, curiosamente, muitos o fizeram por causa de uma exigência ética. Eu não afirmaria que o Novo Sindicalismo derrotou as correntes marxistas simplesmente. Houve o que os italianos chamavam de transformismo. Vários quadros das correntes pragmáticas vieram do marxismo e assumiram ministérios e governos estaduais enquanto a maioria das lideranças sindicais se apagou no passado ou se contentou com cargos de segundo escalão no governo Lula. Como explico no livro, muitos trabalhadores manuais deixaram de ascender por causa de sua origem social, embora tal explicação nos incomode. Lula, na verdade, é uma das exceções. Afinal, até onde foram os líderes metalúrgicos do ABC? O pragmatismo do sindicato pode ter vencido, mas ao custo de largar os sindicalistas pelo caminho e encontrar porta-vozes mais aceitáveis em intelectuais e sindicalistas de classe média.

Como se deu esse processo de “aggiornamento total” do partido que, em sua opinião, ocorreu em 2002? De que maneira este processo foi fundamental para o PT deixar de ser uma mera possibilidade para tornar-se uma alternativa concreta para governar o país?

Desde a derrota do Lula em 1989, começou uma operação delicada: por um lado, a moderação do discurso, as alianças e o programa. Mas isso tinha forte oposição interna no PT. A partir de 1995, começou uma centralização maior da vida interna. Eu acredito que algumas correntes foram se distanciando do PT já antes de 2002, porque se tornou difícil para a esquerda partidária sobreviver desde que o partido implantou o PED (Processo de Eleições Diretas). O PT trouxe para dentro de si um mecanismo eleitoral em que os mandatos dotados de mais recursos passaram a arregimentar eleitores na base. Por outro lado, um partido mais unificado se tornou confiável para chegar ao poder e era disso que Lula precisava. Mudanças no partido foram fundamentais para conduzir Lula à presidência.

Você aponta que o PT, desde os primórdios, apresentava uma dependência, sobretudo financeira, dos poucos mandatos que tinha. Na sua opinião, quando – se de fato houve isso – o partido passou a se organizar mais em torno de mandatos do que de tendências?

Os parlamentares mais votados logo tentavam se impor. Tanto é assim que em 1993 a Direção Nacional tentou disciplinar os mandatos de deputados federais. Mas há um momento em que o PT se torna um partido de mandatos, embora as tendências continuem existindo. Esse processo acontece ao longo dos anos 1990. O caso de São Paulo é interessante. Na capital, a corrente majoritária rachou em vários pedaços. Cada um dominado por um “capa preta”, como se diz no jargão. Veja que na cidade de São Paulo a CNB (Construindo um Novo Brasil) não é majoritária hoje.

Desde o mote “partido sem patrão”, nos primórdios da legenda, o PT veio notabilizando-se mais, a partir dos anos 1990, por mandatos que combatiam exemplarmente a corrupção e prefeituras com “o modo petista de governar”. Em 2005, há a crise, que acarreta no que você chama de “fim de parte do simbolismo do partido”. Hoje, o que o diferencia dos demais?

Sem dúvida nenhuma, a sua história. O PT está totalmente integrado à ordem, mas por muito tempo ainda será um partido diferente. Olhe a composição social das bancadas do PT e dos demais partidos. O PT tem mais sindicalistas, mais gente de origem nas classes baixas. Olhe para o mapa eleitoral do Brasil em 2006 e 2010 e, se preferir, analise o mapa eleitoral da cidade de São Paulo desde 1988.

O PT nunca teve um único princípio como seu motivo de existência. Ele é simplesmente o partido que tem o apoio da classe trabalhadora, o que não significa dizer que sua política represente os interesses últimos dela. Aí é uma outra discussão, de natureza programática.

O direito a conformar tendências, presente já na fundação do partido, é apontado como uma das principais novidades da legenda e da esquerda mundial. Com o status de maior partido do Brasil, a configuração de um partido de tendências internas passou a ser apenas simbólica? Um exemplo atual disso seria a articulação que Lula (teoricamente membro do campo Construindo um Novo Brasil) faz para emplacar Fernando Haddad (do grupo Mensagem ao Partido) como candidato a prefeito de São Paulo…

As tendências continuam por aí. Mas hoje o PT é dominado por “campos”, em que a relação entre militantes é menos disciplinada, menos orgânica. Na verdade, o campo é uma frente de tendências. Mas é cedo para analisar o exemplo que você cita. Lula impôs o nome da Dilma porque os quadros dirigentes históricos do PT foram destruídos pelo escândalo do mensalão. Recentemente, ele tentou impor um presidente para o PT em substituição ao José Eduardo Dutra. Mas o PT preferiu Rui Falcão. Em São Paulo, pode ser que haja prévias, o que Lula nunca quis.

O cientista político André Singer afirma que a preferência da população pelo PT, conquistada ao longo dos anos, não foi revertida em apoio às causas de esquerda. E também aponta que cabe ao PT, como agremiação de esquerda, politizar a chamada nova classe média, que apresenta posições conservadoras. O senhor partilha dessa opinião?

A ampliação de uma nova classe trabalhadora remediada não se fez necessariamente acompanhar de valores políticos de esquerda. Eu concordo com isso. O governo Lula promoveu a integração de milhões de pessoas ao mercado de consumo. Além disso, a integração ao mercado de trabalho se deu em empregos de baixo salário e alta rotatividade. É inegável que o governo petista não representou uma mudança qualitativa no Estado Brasileiro, mas também é verdade que deu um salto quantitativo no atendimento às carências da população.

Como organizar uma base social não integrada à produção? Como criar formas organizadas para o lulismo? Tudo isso é difícil. Mas cabe lembrar que a relação do povo com Lula não é passiva. Os mais pobres conduziram Lula e não o contrário. Lula simplesmente lhes devolveu o apoio com conquistas sociais limitadas pelo horizonte da conciliação de classes porque no Brasil ninguém quer um confronto. É a nossa história desde a independência política, que foi uma negociação. Mas a história continua e pode chegar o momento em que o lulismo será um leito muito estreito para acomodar interesses tão contraditórios.

O papel da militância, inicialmente primordial para a formação do partido, foi perdendo espaço. A quais fatores você atribui essa constatação?

O PT não é mais um partido de militantes voluntários como era antes por várias razões que eu discuto no meu livro. Mas compare qualquer partido de esquerda hoje com o PT! O PT coloca em movimento milhares de filiados. O último processo preparatório de encontros de macrorregiões do estado de São Paulo mobilizou 10 mil militantes. E os delegados eleitos contrariaram a direção estadual no encontro realizado em Sumaré (SP). Claro que isso não é mais comum. O que eu quero dizer é que o problema não está só no PT, embora nele seja mais visível porque é um partido de massas. A pergunta que deve orientar a esquerda é: quem quer militar num partido hoje? Será que as mudanças oriundas da Terceira Revolução Industrial, que afetaram o cotidiano, não transformaram também a militância? Eu não tenho a resposta. Mas, ao mesmo tempo, as ruas e praças estão cheias na Espanha, Grécia e no Chile. E onde estão os partidos revolucionários?

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Agora falando sério (Jô Soares batendo na Globo)

Jô Soares – publicado no Jornal do Brasil em 1987

Em 1947, os grandes produtores de Hollywood se reuniram no Hotel Waldorf-Astoria, em Nova Iorque, e resolveram que artistas com tendências políticas em desacordo com o seu ideário não trabalhariam mais em filmes. Surgia a lista negra e a consequente caça às bruxas. Em pouco tempo, não somente radicais ou liberais eram perseguidos, qualquer artista que desagradasse aos chefes de estúdio era listado e não conseguia mais trabalho.

Com impecável senso de oportunidade, a TV Globo escolheu exatamente o momento da Constituinte no Brasil para inaugurar sua lista negra. Quem sair da emissora, sem ter sido mandado embora, corre o risco de não poder mais trabalhar em comerciais, sob a ameaça de que estes não serão lá veiculados. Como a Rede detém quase que o monopólio do mercado, os anunciantes não ousam nem pensar em artistas que possam desagradá-la.

Nesse ponto, alguém pode achar que estou falando por interesse pessoal. Garanto que não. Não falo pelo fato dos meus comerciais não poderem ser exibidos, nem pelo fato mais recente das chamadas pagas do meu novo espetáculo no Escala 2, O Gordo ao Vivo, terem sido proibidas. Sou um artista muito bem remunerado e meu espetáculo tem outros meios de divulgação. Graças a Deus, meus shows de humor já lotavam teatros antes que eu fosse para a Globo.

Que as chamadas de Gordo ao Vivo não passariam na emissora, eu já sabia desde outubro pelo próprio Boni, que me disse em sua sala quando fui me despedir: “Já mandei tirar todos os teus comerciais do ar. Chamadas do teu novo show no Escala 2, também esquece. Estou vendo como te proibir de usar a palavra Globo”. Claro que esta última ameaça ficou meio difícil de cumprir. A megalomania ainda não é lei fora da Globo. Logo não é por isso que escrevo pela primeira vez sobre esse assunto.

Sai da Globo, onde conservo grandes amigos com a maior lisura, e nunca me aproveitei desse espaço, ou de nenhum espaço, em causa própria. Escrevo, isto sim, porque atores que trabalham no meu programa, como Eliéser Mota, como Nina de Pádua, foram vetados em comerciais. As agências foram informadas, não oficialmente, é claro, como aliás acontece em todas as listas negras, que suas participações não seriam aceitas.

É triste, nesse momento em que se escreve diariamente a democracia diariamente no Congresso, uma empresa que é concessão do estado, cerceie impunemente o trabalho do artista brasileiro, de um modo geral já tão mal remunerado. Finalmente eu gostaria de dizer que Silvio Santos foi tremendamente injusto quando chamou Boni, em uma entrevista, de office boy de luxo: nenhum Office boy consegue guardar tanto rancor no coração.     

Cultura e Contestação: do underground ao playground e volta

Os jovens desse início de século XXI acreditam na política, mas não creem em partidos; reconhecem a importância da coletividade, mas almejam crescer individualmente; buscam transformações, mas são pouco afeitos a rupturas; anseiam por novas ideias, mas são também pragmáticos.

Desbunde. Vivendo suposta a “era do fim das ideologias”, a juventude dos anos 80 travou uma guerra nada fria. Imersa num senso de urgência, essa geração experimentou certa paixão estético-política pela ruptura, niilismo ativo apaixonado pela transgressão, pela radicalidade da violência. Essa foi, provavelmente, a última geração capaz de discernir algo politicamente fundamental, como nos lembrou Slavoj Zizek: “a verdadeira escolha não é aquela feita entre duas ou mais opções num conjunto dado de coordenadas, mas aquela em que escolho mudar o próprio conjunto de coordenadas”. E, por se saber freada na possibilidade desse “livre-arbítrio”, tal geração lançou-se nas teias do Real; seu vigor confundia-se, e anunciava, sua auto-aniquilação expressa na radicalidade com que executou o mote “Sexo, Drogas e Rock’n Roll”.

Contra a insuportável angústia do sentir-se inexistente, sem possibilidades de mudança, essa geração levou a cabo a única mudança possível: sua própria extinção. Esvaziar-se de si mesmo, eis a saída. Ao proceder de tal maneira, do ponto de vista da cultura, os anos 80 encerraram o fim de um século e marcaram o início de outro, afinal, o nexo das relações sociais na década de 90 foi caracterizado pelo hedonismo e pelo o esvaziamento de si mesmo. No entanto, se antes tal linguagem era realizada em nome de uma certa transformação, nos anos 90 ela se fez velada por certa desfaçatez, realizada pela gramática do “politicamente correto”: a euforia degenerada cedeu lugar ao silêncio do abaixo-assinado, a forma universal de reclamação daquele período. A lógica do “bom-mocismo”, hegemônica naquela última década do século XX, instaurou a ilusão de um mundo dócil, plástico, simulado.

Playground
No final do século XX, o imperativo do “Não Transgrida!” coordenou o nexo de uma sociedade substantivamente sem substância, a outra face daquele esvaziamente de si mesmo. Alguém já notou: tempos estranhos esses em que nos são oferecidos café sem cafeína, creme de leite sem gordura, cerveja sem álcool. A lista pode ainda ser prolongada revelando o caráter absolutamente nocivo dessa lógica: a homeopatia resume-se ao fármaco sem fármaco, o sexo virtual não é outra coisa senão o sexo sem sexo; a política enquanto técnica de gestão e administração não é algo diferente de uma política sem política. Tudo é permitido, desde que sem o conteúdo perigoso, trata-se de uma coincidência imediata entre prazer e constrangimento, a difusão do artificial, trazida com a necessidade do sexo seguro ou da felicidade em cápsulas de Prozac foram generalizadas. Há nisso tudo, entretanto, certa carga de cinismo, não é trivial que o consumo exagerado de fast-foods e frituras seja acompanhado da difusão de emagrecedores e anabolizantes.

Ao contrário do que se imagina, ser politicamente correto sempre, pode ser algo moralmente nocivo, pois abre as sendas para o conluio com o existente e esgota as possibilidades de se enunciar possibilidades futuras, de modo que todo “dever ser” converte-se, imediatamente em um “é dever...”, apenas à espera de predicado. Prova disso é que as próprias alternativas de contestação encontraram-se colonizadas pela lógica imperante; elas oscilaram entre a busca por um reencontro com a natureza (sintetizado nas figuras das práticas orientais, neo-xamânicas) e a militância domesticada em ONG’s e instituições de ajuda humanitária. Nada contra tais práticas, entretanto há que se considerar que elas abrem sendas para uma certa cumplicidade ingênua, faceira, ao enunciarem ora uma fuga do mundo, ora uma concertação sem alarde.

Volta
Entretanto, no início desse século XXI, algumas formas de contestação vieram à tona, animadas pelas novas tecnologias e pelas novas redes de interconexões. A ampla difusão dos programas que permitem realizar downloads de músicas e filmes promoveu um choque entre a indústria cultural e a propriedade intelectual; mais adiante, a ampliação de canais e meios para a produção virtual criou uma ruptura entre a telespectador passivo e o cyberprodutor ativo. Ainda que se saiba, como afirmam os mais cautelosos, que a revolução não será tuitada e que a produção/circulação pela internet tem feito surgir uma constelação de pseudo-talentos em busca de fama-rápida, há que se admitir que esses novos instrumentos reascenderam as discussões sobre a propriedade privada e sobre o papel dos sujeitos na sociedade, questões fundamentais para a contestação da ordem estabelecida.

Ao que tudo indica, e como apontou pesquisa recente sobre o sonho brasileiro, uma nova etapa de transformações está tomando forma. Mas essa disposição para a mudança passa por marcos ambivalentes: os jovens desse início de século XXI acreditam na política, mas não creem em partidos; reconhecem a importância da coletividade, mas almejam crescer individualmente; buscam transformações, mas são pouco afeitos a rupturas; anseiam por novas ideias, mas são também pragmáticos. Em suma, esse novo caldo cultural exigirá um novo esforço de compreensão. Resta descobrir se o novo espírito anti-acomodação é apenas um velho rearranjo das tradicionais coordenadas ou a criação de novas rotas de mudança.

(*) Doutorando e mestre em Desenvolvimento Econômico (IE/UNICAMP), bacharel em Ciências Sociais (FFLCH/USP).

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Um sistema anti-social


Emir Sader



“Se os 44 milhões de pessoas que estão desempregadas nos principais países ricos da OCDE fossem agrupados em um único pais, sua população seria similar à da Espanha. Na própria Espanha, que tem a mais alta taxa de desemprego (21%), o número de pessoas sem trabalho soma a população de Madri e de Barcelona juntas. Nos EUA, os 14 milhões de pessoas oficialmente desempregadas formariam a quinta cidade mais populosa do país. Acrescente-se 11 milhões de “subempregados”, que estão trabalhando menos do que queriam, e se chega à população do Texas.”

As afirmações estão em editorial da revista conservadora britânica The Economist, em um dossiê sobre o desemprego. Uma das lúcidas conclusões da revista: “E o custo humano da crise é pago amplamente pelos que não têm trabalho, porque o desemprego incrementa a depressão, os divórcios, o abuso de drogas e tudo o há de ruim na vida.”

Uma proporção grande das vítimas do desemprego são jovens, em um processo de desemprego que vai se tornando crônico. Nos EUA, a média de tempo no desemprego, que era de 17 semanas em 2007, agora subiu para 40 semanas, aproximando-se de um ano. O nível de expansão da economia nos países mais ricos do sistema não é suficiente nem para absorver os que chegam ao mercado de trabalho, quanto mais para absorver os que já estão desempregados. Calcula-se em 220 milhões os desempregados no mundo inteiro, sob a égide da globalização e das políticas neoliberais. Outros 20 milhões devem perder o emprego só no centro do capitalismo no ano que vem, se a crise se prolongar. O desemprego só não é maior porque a China cria 40 milhões de empregos por ano, nos países progressistas da América Latina – incluindo a Argentina e o Brasil -, onde o desemprego tem sistematicamente diminuído, justamente pela substituição de políticas neoliberais por políticas que priorizam o emprego e o mercado interno de consumo popular.

Os empregos têm sido sacrificados em nome da austeridade, especialmente no setor público, o que não só aumenta o desemprego, como piora a qualidade dos serviços públicos, que atendem à maioria pobre da população – que assim sofre duplamente, com a perda do emprego e a deterioração dos serviços sociais que os atendem.

Os maiores empregadores do mundo são serviços e empresas estatais. Entre os 10 maiores estão o Departamento de Defesa dos EUA, o Exército chinês, seguidas por duas empresas privadas: Walmart e McDonald’s, pela empresa chinesa estatal de petróleo, por outra estatal chinesa – State Grid Corporation of China, pela instituição de serviços de saúde da Inglaterra, pelas empresa de estradas de ferro da India, pelos Correios da China e por uma outra empresa chinesa – Hon Hai Precision Industry.

O desemprego entre os jovens chega a 41,7% na Espanha, 50,5% na Africa do Sul, a 27,8% na Itália, a 23,3% na França. A taxa de desemprego na América Latina está entre as menores do mundo, bem menos do que nos EUA e na Europa, refletindo políticas de manutenção do crescimento e da distribuição de renda por aqui, de ajuste e recessão por lá.

Um sistema que não garante sequer a quantidade de empregos para dar uma fonte mínima de renda a milhões de pessoas, que não projeta perspectiva de empregos garantidos para a maioria dos seus jovens, que tem empregos instáveis, vulneráveis e de péssima qualidade para a maioria dos que conseguem trabalhar – é um sistema anti-social. Porque funciona não conforme a necessidade das pessoas, mas conforme os critérios de rentabilidade fornecidos pelo mercado. Um sistema que leva no seu nome o seu sujeito central – capital – e não os que produzem riqueza por meio do seu trabalho. 

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

O Financiamento

Do livro Missão Secreta em Igaci (1984), de Cleto Falcão.

1979. Eduardo Calheiros, o dono da noite em Maceió, (o Ricardo Amaral da terrinha) inaugurou a sua boate Middô com o luxo e a sofisticação das melhores casas noturnas do país. O maceioense, que não estava habituado com um lugar tão sofisticado, ficou chocado com o preço das bebidas na boate.

Arlindo Chagas, uma espécie de secretário particular de Divaldo Suruagy e seu amigo fiel, foi conhecer a  nova casa noturna da cidade. Espanta-se com os preços. Duas semanas depois encontra-se com Eduardo Calheiros. Eduardo cumprimenta:

- Arlido, aonde é que você anda que nunca mais apareceu?

- Fui  a Recife.

- Fazer o quê?

- Fui até a  SUDENE levar um projeto para financiar uma conta minha na Middô.

sábado, 24 de setembro de 2011

O PUS - Partido dos Usineiros Socialistas

Soube pelo Twitter, agora pela manhã (sábado), que o Cleto Falcão faleceu na Santa Casa de Maceió. Ele vinha, há algum tempo,enfrentando uma doença grave.

Convivi com o Cleto em várias jornadas políticas e guardo boas recordações das conversas com ele: um dos melhores papos de Alagoas. Guardo também dois dos seus livros, Política é isso mesmo e Missão secreta em Igaci.

É deste último livro, lançado em 1984, que reproduzo uma das suas boas histórias. Fica como minha homenagem.


O P.U.S.


Miguel Arraes ia voltar para o Brasil. A direita e os conservadores estavam em polvorosa. Estava eu em casa acordado às seis horas da manhã. Num carro me esperavam lá fora Sérgio Moreira, da Usina João de Deus, Carlinhos e Fernando Fiúza, filhos do industrial  José Otávio Moreira Filho, também  da Usina João de Deus,  e Joãozinho Lyra, filho do industrial João Lyra. Era realmente engraçada a cena. Quatro usineiros indo para Recife esperar Miguel  Arraes, o inimigo número um dos latifundiários brasileiros. Eu não me contive.


- Pelo  que vejo vocês acabaram de criar o PUS.


Todos ficaram curiosos para saber o que era o PUS.


- Partido dos Usineiros Socialistas.


Dizem que o Teozinho é a nova aquisição do PUS.
O Senador Teotonio  Vilela era o imperador e Presidente de Honra do PUS.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Jovens jornalistas: criados com os lobos

Luis Nassif

Tinha menos de dois anos de formado o jovem repórter que tentou invadir o apartamento de José Dirceu no Hotel Nahoum. Pelo que soube em Brasília, voltou para a casa da mãe.

Não sei a idade do repórter da Folha que iludiu a confiança do tio, no caso Battisti. Mas foi exposto de forma fatal pelo próprio tio, em um artigo demolidor. E inspirou um artigo da ombudsman do jornal, no qual afirmava que era ingenuidade confiar em jornalistas. Tornou-se exemplo de como não se deve confiar em jornalistas. Dificilmente conseguirá fontes dispostas a lhe passar informações relevantes.

A campanha eleitoral do ano passado expôs outros jovens jornalistas, alguns com belo potencial, mas que tiveram a imagem afetada no alvorecer de suas carreiras, por conta de métodos inescrupulosos empregados em suas reportagens.

Culpa deles? Apenas em parte. Esse clima irracional foi fomentado por chefias que não se pejaram em jogar os repórteres aos lobos.

Processo semelhante ocorreu na campanha do impeachment, mas com resultados inversos. Uma enorme quantidade de mentiras divulgada, aceita pelos editores e pelos leitores sob o álibi de que valia qualquer coisa contra Collor. Foi um período vergonhoso para a mídia, no qual os escândalos reais não eram apurados, mas divulgava-se uma enxurrada de mentiras que não resistiam a um mero teste de verossimilhança. Dizia-se que Collor injetava cocaína por supositório, que ficava em estado catatônico e precisava ser penetrado por trás por um assessor, que fazia macumba nos porões do Alvorada.

Os que mais mentiram se consagraram, ganharam posições de destaque em seus veículos. Premiou-se a mentira e a falta de jornalismo, porque os escândalos reais demoravam mais para serem apurados e nem de longe de aproximavam do glamour da notícia inventada.

Processo similar ocorreu durante e após a campanha do mensalão. Surgiu uma nova geração de repórteres sem limites, hoje em dia utilizados pelas chefias para atingir adversários através da escandalização de fatos normais.

Agora, em plena era da Internet, ocorre o inverso. Esses jovens ambicionam a manchete, a aprovação das chefias, o curto prazo. Mas o registro de seus malfeitos estará indelevelmente registrado na Internet. A médio prazo, será veneno na veia para suas carreiras.

Pior, está-se criando uma geração de jornalistas para quem o jornalismo virou um vale-tudo: vale mentir, inventar, enganar, espionar, supor sem comprovar.

A reação de Caco Barcelos na Globonews nada teve de política ou ideológica - no programa sobre a tal Marcha Contra a Corrupção, depois editado para tirar suas afirmações mais impactantes contra o mau jornalismo. Ao denunciar esse jornalismo declaratório, simplesmente fazia uma defesa do jornalismo que aprendeu a praticar, de respeito aos fatos, de apuração das denúncias, de cautela nas acusações.

Em muitos outros jornais há uma geração de jornalistas mais velhos formados sob esses princípios, mas que a falta de opções obriga a se calar ante tais abusos. Há igualmente uma jovem geração saindo do forno das faculdades que entendeu a diferença entre os princípios jornalísticos e esse arremedo que a era Murdoch lançou sobre a mídia mundial - especialmente sobre a brasileira.

No final dos anos 80, quando a mídia brasileira abraçou o jornalismo sensacionalista, considerava-se ter entrado em linha com os grandes veículos globais - para quem a notícia é espetáculo, não serviço público.

Nos últimos anos, Roberto Civita importou de forma chocante o padrão Murdoch para a mídia brasileira - rapidamente imitada por outros jornais carentes de personalidade jornalística própria. A cada dia que passa, esse estilo - ainda que influenciando setores mais desinformados - parece cada vez mais velho e anacrônico.

Muitos dizem que o problema da velha mídia é não saber como se colocar nas novas tecnologias. Penso que é outro: é ter desaprendido as lições do velho jornalismo legitimador.

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

América Latina, mundo de droga


Estudo da Comissão Mundial para Políticas Antidrogas mostra que "guerra às drogas" iniciada há quatro décadas pelo então presidente dos EUA, Richard Nixon, é um fracasso rotundo, contundente e irremediável. Bilhões de dólares e milhares de vidas mais tarde, a produção, o comércio e o uso das drogas ilegais continua crescendo a todo vapor. O maior mercado consumidor é os Estados Unidos, que consome anualmente cerca de 165 toneladas de cocaína. A América Latina entra com a produção e os mortos. O artigo é de Eric Nepomuceno.


Um estudo recente realizado pela Comissão Mundial para Políticas Antidrogas, que conta com o aval da ONU, chegou a uma conclusão óbvia, mas nem por isso menos eloqüente: o que o mundo anda fazendo para combater o uso de drogas ilegais, a tal "guerra às drogas" iniciada há quatro décadas pelo presidente norte-americano Richard Nixon, é um fracasso rotundo, contundente e irremediável. E a razão de terem chegado a essa conclusão é simples: bilhões de dólares e milhares de vidas mais tarde, a produção, o comércio e o uso das drogas ilegais continua crescendo a todo vapor. Aliás, cresce tanto que hoje em dia cocaína e heroína custam muito menos do que custavam há vinte anos.

Calcula-se que existam no mundo 270 milhões de usuários de drogas. Um Brasil e meio. Uma população 27 vezes maior que a de Portugal, quatro vezes e meia maior que a da França, seis vezes maior que a colombiana. Enfim, um número de pessoas que, reunidas, formaria o quarto país mais populoso do mundo.

O maior mercado consumidor é os Estados Unidos, que consome anualmente, segundo os cálculos mais fiáveis, cerca de 165 toneladas de cocaína. Em segundo lugar, mas avançando rapidamente, vem a Europa, que consome cerca de 124 toneladas anuais. Esses dois mercados são abastecidos basicamente pela produção latino-americana de cocaína, mais especificamente da região andina, ou seja, Bolívia, Peru, Colômbia e, em medida quase insignificante, Equador. A maior parte do que chega aos Estados Unidos passa pelo México, onde, aliás, se consome 17 toneladas anuais, deixando o Canadá, com suas 14 toneladas, para trás. 

Para a Europa, outras rotas são mais utilizadas, levando a cocaína latino-americana via África do Sul e, em muito menor medida, através do Brasil.
Para a América Latina, esse mundo de droga produzida e negociada tornou-se um problema que em alguns países ameaça escapar de controle. Sabe-se bem da convulsão enfrentada pelo México, fala-se de como a Colômbia pouco a pouco procura voltar aos eixos, mas pouco ou nada se fala do que acontece nos países da América Central. Lá, pelo menos três países – El Salvador, Honduras e Guatemala – que mal se recompõem do flagelo de prolongadas guerras civis correm o gravíssimo risco de se tornarem vítimas terminais do crime organizado pelo narcotráfico. 

Se economias aparentemente prósperas, se países que vivem tempos de bonança, enfrentam a ameaça de poderes paralelos formados pelos grandes cartéis de drogas, o que dizer de países pequenos, que mal cicatrizam as chagas de um passado recente? Vale recordar um estudo do Banco Mundial, indicando que, na América Central, o custo do crime e da violência corresponde a 8% do PIB da região. 

Muito se menciona a Colômbia como exemplo bem sucedido da luta contra o tráfico de drogas. Um exame mais sereno e meticuloso mostra que a realidade não é bem essa. Diminuiu, e muito, a violência, é verdade. Mata-se e morre-se hoje menos do que há dez ou quinze anos. O volume de drogas exportadas, porém, permaneceu praticamente inalterado. Uma série de fatores que são impossíveis de se reproduzir em outros países funcionou na Colômbia, que, além de drogas, exportou o caos – basta ver o que acontecia há dez ou quinze anos no México e na América Central, e o que acontece agora. Ou seja, cura-se aqui enquanto feridas são abertas ali e acolá. 

Resta ver, além do mais, que medidas os Estados Unidos pretendem tomar para impedir o fluxo de armas para os países exportadores de drogas. De cada dez armas aprendidas no México, sete saíram dos Estados Unidos. O governo colombiano detectou e apreendeu vários carregamentos de armas de pequeno calibre – revólveres, pistolas – despachados dos Estados Unidos pelo correio. 

A questão é vasta e profunda, mas até agora não conseguiu levar a trilha alguma que seja capaz de encaminhar, se não para uma solução, ao menos para um paliativo eficaz. E nesse mercado em franca expansão, nessa festança macabra, enquanto norte-americanos e europeus continuam pondo os usuários, os latino-americanos continuam pondo as drogas e os mortos. Na Colômbia, perdeu-se a conta. No México, pelo menos 42 mil nos últimos cinco anos, e caminha-se rápido para a marca dos 50 mil.

Na América Latina, os produtores e exportadores de drogas são empresários bem sucedidos, sem dúvida. Lucram cada vez mais, e mostram que sabem defender seus interesses, não importa ao custo de quantas vidas. 

Pena que esses latino-americanos, empreendedores bem sucedidos, tenham preferido manter seus negócios em nossas comarcas. Bem que poderiam seguir o exemplo dos plantadores de maconha na Califórnia. Lá, os empreendedores locais conseguiram um feito notável: hoje em dia, a maconha é o mais bem sucedido cultivo em todo o estado. Rende cerca de 14 bilhões de dólares por ano. Plantam, processam, comercializam – e nenhum latino-americano morre por causa deles.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Só no Brasil há saúde grátis e universal mas gasto privado maior


Aos 21 anos, Sistema Único de Saúde (SUS) vive 'paradoxo'. É gratuito e aberto a todos mas tem menos dinheiro do que iniciativa privada gasta para atender menos gente. Em nenhum outro país é assim, segundo a OMS. Despesa estatal brasileira é um terço menor do que a média mundial. Para especialistas, SUS exige mais verba. 'Orçamento precisa dobrar', diz Adib Jatene.

BRASÍLIA – O Sistema Único de Saúde (SUS) completa nesta segunda-feira (19) 21 anos exibindo um paradoxo. O Brasil é o único país do mundo que tem uma rede de saúde gratuita e aberta a toda a população e, ao mesmo tempo, vê o mercado (convênios e consultas particulares) gastar mais dinheiro do que o Estado. 

O motivo da contradição, dizem especialistas, é a falta de recursos públicos para fazer com que o SUS se realize plenamente, tal qual previsto na Constituição, o que exigiria pelo menos dobrar seu caixa.

As despesas com saúde no Brasil são de 8,4% do chamado produto interno bruto (PIB), a soma das riquezas produzidas pelo país durante um ano. Deste ponto de vista, o investimento está em linha com a média global, de 8,5% anuais, segundo relatório da Organização Mundial da Saúde (OMS). 

A distinção está em quem puxa os gastos. No Brasil, 55% são privados (e beneficiam cerca de 46 milhões de conveniados) e 45%, públicos - favorecem todos os 190 milhões de brasileiros. 

A fatia estatal representa 3,7% do PIB, um terço mais baixo do que a média internacional, de 5,5% do PIB, de acordo com a OMS. No resto do mundo, o gasto público equivale a 60% do total investido em saúde.

Quando se faz comparação com países com sistemas similares ao SUS – universais e gratuitos -, a disparidade é maior. 

No Reino Unido, cujo modelo montado depois da Segunda Guerra Mundial é considerado clássico e inspirou o brasileiro, a despesa pública com saúde gira em torno de 7% do PIB. O Estado britânico responde por 82% dos gastos totais, os quais são de patamar semelhante aos do Brasil (8,7% do PIB). 

No Canadá, que também conta com sistema público, o governo gasta cerca de 7% do PIB em saúde e o setor privado, 2,8%. 

Em dois países escandinavos que são exemplo na área, Noruega e Suécia, o Estado gasta mais de 6% do PIB e responde por 72% do investimento em saúde. 

“Se comparado com outros países do mundo que adotaram o sistema universal de saúde, o Brasil gasta muito pouco”, diz o médico e ex-ministro da Saúde Humberto Costa, atual líder do PT no Senado.

“O SUS tem um saldo positivo inegável nesses anos todos, mas tem esse paradoxo: é um sistema público e universal que gasta menos do que o setor privado”, diz Solon Magalhães Vianna, um dos relatores da Conferência Nacional de Saúde que, em 1986, esboçou o SUS.

Novas fontes
Para Vianna, o gasto público em saúde deveria duplicar, o que requer novas fontes de recursos para o setor. É a mesma posição do ex-ministro da Saúde Adib Jatene.

“Quando o SUS foi criado, diziam que era inviável, que os contituintes tinham sido irresponsáveis ao não apontar fontes de financiamento. Mas a Constituição apontou as fontes, nas disposições transitórias, só que elas nunca foram regulamentadas”, diz Jatene. “Eu estimo que o orçamento do SUS precise dobrar, mas não há nenhuma possibilidade de dobrar.” 

Na avaliação de outro ex-ministro, José Gomes Temporão, é “significativo” o dado da OMS sobre o gasto privado superar o público no Brasil. Especialmente porque, enquanto o investimento estatal obedece a uma política nacional, o privado às vezes termina em plásticas. 

“Na Argentina, 70% dos gastos com saúde são públicos. Aqui no Brasil, quem está arcando com o acesso à saúde são as famílias”, disse. “É importante a sociedade ter clareza que, ao investir no SUS, está investindo num patrimônmio que a sociedade construiu nos últimos 22 anos”.

O secretário de Saúde da prefeitura de São Paulo, Januário Montone, tem a mesma visão orgulhosa do sistema que faz aniversário. “O SUS foi uma vitória fantástica. É um sucesso, não existe nenhum sistema de saúde desse tamanho em nenhum lugar do mundo”, disse.

Ele é defensor da ampliação dos recursos para a saúde. Mas acredita que, depois de 23 anos da Constituição, o país precisa rediscutir o sistema de saúde e decidir se a iniciativa deve ou não participar dele. E, na opinião dele, deve. Até porque o próprio Estado precisa contratar serviços privados. 

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Judson Cabral ainda precisa de inimigo?

Reproduzo nota publicada no Blog do Ricardo Mota - Tudo na Hora - a respeito da entrevista desastrosa do deputado Ronaldo Medeiros.



Foi surpreendente.
Nem mesmo o ex-deputado Paulão, acusado de fazer empréstimos ilegais no Banco Rural – no esquema da Taturana – foi capaz de ir tão longe quanto o líder do partido na Assembleia, Ronaldo Medeiros.
Ele afirmou que o dinheiro dos tais empréstimos foi destinado a cobrir as dívidas da campanha a governador de Judson Cabral, em 2002.
Medeiros falou sem nem ao menos consultar Cabral, segundo o próprio me disse com todas as letras, o que é ainda mais surpreendente.
Pude constatar, lendo a extensa denúncia do MP, que os empréstimos são todos de 2003 a 2005. Se eles foram pagos legalmente e a Mesa da Assembleia fez a trambicagem, caberá a Justiça decidir – é esta a afirmação dos petistas.
Quanto à “acusação” ao Judson Cabral, confesso que nunca vi nada semelhante em mais de 35 anos que acompanho a política local.
A história lembra bem um episódio com o britânico Winston Churchill, um dos maiores estadistas do século XX. Indagado por jornalista sobre as críticas feitas pelos seus “inimigos” no parlamento, afirmou:
- Eles não são os meus inimigos; são meus adversários. Os meus inimigos estão aqui, ao meu lado.

A outra jabuticaba que o Brasil inventou

Mauricio Machado*

O conteúdo do modelo brasileiro de televisão aberta (ainda) é baseado na ‘grade’ dos programas de rádio da década de 40 e 50. Fez muito sucesso pois o contexto era diferente (país rural a caminho da industrialização) mas foi mantido por conta dos hábitos das famílias brasileiras daquela época.

Em 1965, já com a crescente popularidade da televisão e coincidentemente com a criação da TV Globo, foi criada a Lei n° 4.680/65 para normatizar a relação entre anunciantes, agências e veículos de comunicação (vários meios). Um regulamento é particularmente pernicioso (art. 11 do Regulamento da citada Lei aprovado pelo Decreto n° 57.690/66) pois estabelece que os veículos ‘darão’ 20% de desconto às Agências sobre aqueles investimentos para publicidade dos anunciantes mas administrados por elas. Que fique claro que são verbas de empresas públicas, privadas ou de economia mista destinadas a ações de comunicação de marketing.

Além daqueles 20% (da chamada comissão) há um adiantamento para as Agências por conta do volume de investimento delas com o dinheiro dos clientes. Assim são ainda mais ‘estimuladas’ a manter sua programação nos grandes veículos. Verba milionária que deturpa o negócio e as relações comerciais.

Os grandes veículos deram o nome a isso de ‘estímulo comercial’ mas no mercado publicitário isso se chama ‘BV’ (‘bonificação por volume de investimento). Ou seja: os valores são aplicados mas voltam para as Agências que reforçam seus caixas. E elas são ‘estimuladas’ a usar mais verba naqueles mesmos e determinados veículos que ‘oferecem’ o tal ‘estímulo’. Lógico que acabam preferindo aqueles que usam dessa prática (os grandes) em detrimento daqueles que não o fazem (os pequenos). E quem paga a conta? O anunciante. E quem é o maior anunciante do país hoje em dia? O Governo Federal através de seus Ministérios (que tem obrigação de fazer campanhas de esclarecimento) e as empresas estatais ou de economia mista (que fazem o mesmo e tem que competir com companhias globais) para divulgar seus produtos e serviços.

Pois bem. Num país de dimensões continentais, com o poder de cobertura do rádio e com a expansão da internet, não se justifica este tipo de ‘incentivo’ e a preferência por poucos veículos. E menos ainda, a grande concentração de verbas na mídia televisão aberta – majoritariamente na Rede Globo – em prejuízo dos veículos menores e mesmo aqueles com capacidade de grande penetração como o rádio, incluindo as comunitárias. E a Rede Globo por exemplo, apesar de hoje em dia, ter entre 35 e 40% de participação no mercado, fica com aproximadamente 70% do bolo publicitário das TVs!

Vejam o que diz Fernando Tassinari, gerente geral da empresa de comunicação digital ‘Razorfish Brasil’ durante participação no Workshop ANER – Redes Sociais, promovido pela Associação Nacional dos Editores de Revistas: “Mesmo com o grande crescimento da internet no País, com mais de 40 milhões de usuários, segundo pesquisa divulgada em fevereiro pela ComScore, a fatia publicitária destinada a este meio de comunicação ainda é pequeno e não chega a 5%”.

Segundo o Projeto Intermeios do Grupo M&M os investimentos em 2010 ficaram divididos assim: TV Aberta (64%), Internet (4,46%), TV fechada (3,28%). Na mídia impressa, a fatia dos jornais no bolo ficou em 12,36%contra 7,5% das revistas. Os investimentos em rádio somaram apenas 4,18%.

Este sistema de privilégios, que não existe no mundo, impede por exemplo que empresas e companhias donas de várias linhas de produto (sejam elas nacionais, globais ou estatais) deixem de investir aqueles 20% no desenvolvimento de campanhas para outros de sua linha. Por exemplo: um grande fábrica que tem 20 produtos, acaba fazendo comunicação de apenas 10 deles. Não fazendo de outros, não os vende como gostaria, não estimula a concorrência, a empresa não cresce, não gera mais empregos, não paga mais impostos, etc. Um volume brutal de verbas mantém um ciclo vicioso que só mantém benefícios para alguns poucos.

Durante o governo Lula, nas gestões dos Ministros Luis Gushiguen e depois Franklin Martins à frente da SECOM, foram feitos estudos que apontavam distorções e desperdício de dinheiro na programação de mídia. Decidiu-se então pela pulverização das verbas de publicidade governamental (ministérios e estatais) pelo país todo fazendo a distribuição entre tevês regionais, jornais locais e rádios principalmente. Mesmo assim, manteve-se ainda grande concentração na televisão.

Por conta disso, tanto os veículos da grande mídia, quanto o mercado publicitário em geral, vociferaram contra os critérios e dispararam críticas contra a nova política (cuja análise foi técnica) pois entenderam que perderiam as verbas consideradas ‘sagradas’. E afinal, para falar nos rincões da Amazônia é melhor o rádio, para um comunicado local é melhor o jornal da cidade e assim foi feito um esforço tremendo numa mistura de análise criteriosa e ação social. Mas ficou a mágoa da grande indústria da mídia traduzida em críticas descabidas até hoje.

Outro ponto que sempre provoca a grita da grande mídia contra o novo marco regulatório é que ele impeça um mesmo Grupo, de deter várias plataformas de geração de conteúdo como ocorre hoje. E nisso também o Brasil é exemplo no mundo (negativo) pois só aqui, um conglomerado tem e mantém TV aberta, TV fechada, distribuição do conteúdo via cabo e satélite, rádio, jornais, revistas e portal de web! Isso é deletério para o Estado de Direito pois configura monopólio da informação, possível manipulação da notícia para defender interesses e desrespeito ao contraditório entre outros aspectos.

Além disso, os Grupos encastelados (são 12 famílias que dominam os principais meios no país) temem a abertura para novos players de capital internacional que trariam know-how e novos modelos de negócios para fazer frente aos tradicionais que muitas vezes não se sustentam com pernas próprias e dependem do Governo (e suas verbas robustas). Querem manter seus privilégios, grandes negócios e domínio da opinião pública. Isso vale para os donos das concessões de TV e Rádio (que pela Constituição exploram os canais com função social) e também para os conglomerados de mídia impressa (jornais e revistas) que apesar de privados vivem em eterna crise em seu modelo de negócio por conta das rápidas transformações dos meios e plataformas em desenvolvimento. Sem contar a mudança do perfil da população brasileira mais madura, esclarecida e inteligente.

Como se vê, a mentalidade ‘grade de rádio anos 50’ ainda quer prevalecer. Falta combinar com os russos…

(*)  Mauricio Machado é designer, consultor de marketing e publicitário.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Agressão ao PC do Chile mostra que terrorismo de direita está vivo

Ainda tem gente em dúvida sobre a instituição da Comissão da Verdade para apurar os crimes cometidos pela ditadura militar no Brasil. A agressão ao Partido Comunista do Chile, que aconteceu no dia 12 de setembro, mostra o quanto é importante a punição exemplar aos que não abandonam o terror como forma de calar a esquerda e os democratas. Reproduzo a nota do PC do Chile.



COMUNICADO PUBLICO
Un grupo de provocadores, con extrema violencia, atacó hoy la sede del Comité Central del Partido Comunista, dejando a cuatro militantes seriamente heridos; daños considerables al local y el robo de celulares y equipos audiovisuales.

Ante esta provocación, de dudoso origen, militantes comunistas que se encontraban en el local, resistieron.

El grupo que atacó la sede y a las personas que allí se encontraban, usó palos y gritaron consignas en contra del Partido Comunista. Destruyeron ventanales con piedras y trataron de ingresar violentamente. Un grupo mayor que esperaba en las cercanías actuó para romper la puerta de acceso y vidrios de la puerta interior además de apedrear otros vidrios del local.

Ante la violencia de los asaltantes, debemos hacer presente que comunicamos los hechos desde el inicio a la central de Carabineros y al Ministerio del Interior. Siempre buscamos evitar situaciones que atentaran en contra de la integridad de las personas. Una militante debió ser enyesada y otro militante sufrió la quebradura de nariz.

No obstante, durante la más de una hora que duró la agresión, la fuerza pública no se hizo presente.

Este ataque no es aislado. Hace dos días la sede del Partido Comunista en Iquique fue atacada, con extrema violencia, y hace dos semanas ocurrió algo similar en Temuco.

Estos ataques son maniobras para dividir al movimiento social que lucha por Educación digna y tratan de amedrentar al Partido Comunista en su acción por abrirle paso a las demandas populares.

Es claro que nuestro Partido y nuestras Juventudes Comunistas no se amedrentarán ante estas agresiones y continuaremos cumpliendo nuestro rol como fuerza política que junto a millones de chilenos abrirán camino a los cambios de fondo que el pueblo exige.
Comité Central del
Partido Comunista de Chile.
Santiago de Chile, 12 de septiembre de 2011

Revolução na música

Por ETHAN SMITH

Enquanto a indústria da música tenta encontrar um lugar ao sol na era digital, pioneiros inusitados estão atendendo à demanda dos fãs de Beethoven, Mozart e Bach.

No ano passado, as paradas de sucesso de música clássica foram dominadas por duas distribuidoras: pela maior gravadora do mundo e por uma empresa digital sueca aberta há apenas cinco anos, com 43 empregados, sem contrato com nenhum artista e virtualmente nenhum perfil no amplo mercado de música.

O contraste entre a gigante Universal Music Group e a minúscula X5 Music Group AB dá uma ideia sobre o futuro da distribuição de música.

Gravadoras tradicionais como a Universal, uma unidade da Vivendi SA, tendem a se focar em lançamentos e CDs, que no ano passado representaram 73% das vendas totais de álbuns nos EUA. Os CDs responderam por quase 54% de todas as vendas de músicas gravadas, quando também são levadas em conta as compras de faixas digitais individuais.

A X5 não faz lançamentos de músicas e não vende nenhum CD. Em vez disso, a empresa licencia catálogos de cerca de outras 50 companhias — a maioria delas pequenas gravadoras de música clássica com sede na Europa — e empacota as músicas em novas compilações, algo parecido com as coleções de clássicos gravados numa fita cassete. A X5 apenas vende músicas através de lojas on-line como o iTunes Store da Apple Inc. e a divisão de MP3 da Amazon Inc., com a arte das capas elaborada para se destacar mesmo entre as imagens minúsculas dos serviços da web. E maioria das coleções da X5, mesmo aquelas com 50 e 100 músicas, custa menos de US$ 8.

Vários títulos compilados pela X5 incluem a palavra "clássica" para que eles apareçam constantemente nos resultados de busca. Entre os maiores sucessos da distribuidora estão "The 99 Darkest Pieces of Classical Music" e "Classical Music for Meditation and Yoga."

A X5 e executivos da música que acompanharam a ascensão da empresa dizem que a abordagem pode ser um modelo a ser seguido por outras gravadoras: empacotar músicas especificamente para a distribuição on-line; mesmo foco em músicas antigas como em novas; e a certeza de que os clientes potenciais consigam encontrar o material.

"Cada passo, desde os contratos para distribuição até o marketing para a visualização e composição dos produtos — tudo será provavelmente diferente" na indústria, diz o fundador e diretor-presidente da X5, Johan Lagerlof.

As compras de cópias digitais representaram menos de 25% dos álbuns de música clássica vendidos em 2010, de acordo com a Nielsen SoundScan. Ainda assim, 13 títulos do total de álbuns digitais da X5 estavam entre os 50 mais vendidos do gênero no ano passado. É o mesmo número registrado pela Universal Music, e o mesmo volume de outras três grandes gravadoras combinadas.

No começo do mês, a gravadora de música clássica Naxos of America Inc. se tornou a primeira a licenciar o catálogo da X5 nos EUA. O diretor-presidente da Naxos, Jim Selby, diz que a decisão de fazer negócio com a X5 foi motivada em parte pelo desejo de aprender com a novata. "É possível lucrar vendendo apenas um produto digital? Bem, na verdade sim, porque a X5 está fazendo isso", disse Selby.

A X5 está em negociações avançadas para licenciar o catálogo de música clássica da Universal Music, de acordo com pessoas a par da situação.

Empresas que fazem compilações de CD também vendem essas versões on-line, incluindo as gravadoras Savoy Label Group LLC e Putumayo World Music, que iniciaram as vendas recentemente. Mas poucas, ou quase nenhuma, montaram seus modelos de negócio baseados em vendas digitais da mesma forma que a X5. Os executivos da X5 dizem que as despesas menores, a atenção aos detalhes e o marketing estratégico permitiram que a empresa desse lucro todos os anos desde o começo das operações. Apesar das vendas ainda modestas de US$ 10 milhões em 2010, a estimativa da X5 é de um crescimento de 50% este ano.

Essa expansão contrasta com um cenário de quedas das vendas do gênero clássico ainda mais fortes do que na indústria de música em geral. As vendas de CDs de música clássica caíram 33% em 2010 em relação a 2009, para 6,9 milhões. Mesmo o comércio de álbuns digitais teve uma ligeira queda, para pouco mais de 2 milhões. No total, as vendas de álbuns diminuíram 12,8% no mesmo período, para 326,2 milhões. Desde janeiro, a receita com álbuns mostra uma leve alta.

Entre as fontes de financiamento da X5 está a Northzone, um grupo de capital de investimento da Escandinávia que também é um grande investidor no serviço popular de música on-line Spotify AB.

A X-5 está se expandindo, com um novo escritório em Nova York e com planos de ramificar os negócios para além do gênero clássico, como folk, bluegrass e outros nichos. O principal objetivo do escritório em Nova York é fechar acordos de licenças com gravadoras americanas especializadas em outras categorias. Scott Ambrose Reilly, diretor de operações da X5 nos EUA, diz que ao pesquisar o termo "folk" no iTunes o principal resultado não tem nada a ver com música folk: o que aparece é um álbum do grupo de rock alternativo chamado Monsters of Folk. "Pesquise por 'world music' ou 'folk music' e você terá a oportunidade de ver" o que está disponível para compilações, diz Reilly.

A equipe de 10 produtores da X5 sediada em Estocolmo já criou mais de 5.000 compilações de música clássica, chegando a criar até 400 em uma semana. Os produtores normalmente se apoiam em dados de vendas para determinar, por exemplo, o que deve entrar nas compilações como "The 99 Most Essential Chopin Masterpieces", que ocupava o primeiro lugar no ranking de música clássica em MP3 da Amazon em fins de agosto. A um custo de US$ 1,29, a coleção estava entre os 100 álbuns clássicos e vendidos há 20 meses.

É preciso deixar claro que nem todas as táticas da X5 são aplicadas universalmente. A maioria das gravadoras não tem como dar lucro vendendo música por pouco mais de um centavo por canção.

A X5 não é a primeira gravadora a montar seu negócio com base em compilações baratas — a prática é tão antiga como a indústria da música. Mas a empresa se adaptou à era digital de uma forma que cria oportunidades de crescimento significativas.

Enquanto as gravadoras tradicionais se concentram em lançar sucessos através de campanhas de marketing caras, Lagerlof diz que o material antigo pode ser reempacotado a um custo baixo quase que indefinidamente on-line.

Um espaço digital ilimitado na estante cria seus próprios desafios, diz Lagerlof. Numa loja on-line com 10 milhões a 20 milhões de músicas disponíveis, mesmo as canções antigas precisam de promoção para não serem esquecidas. "É preciso trabalhar o catálogo constantemente", diz.

Lagerlof, de 40 anos, está bem familiarizado com a abordagem tradicional da indústria da música. Como compositor, produtor musical e de dança na década de 90, ele foi responsável por vários hits escandinavos lançados pelo rapper-comediante Markoolio, de origem sueca-finlandesa.

Na opinião de Lagerlof, seus clientes mais importantes podem ser aqueles que têm muito o que aprender sobre o gênero em que a gravadora se especializa.

"É muito difícil para os mais jovens acharem as músicas antigas", diz. "Eles não conhecem os artistas, os compositores, as gravadoras."

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Um outro 11 de setembro

Victor Jara

Antes do 11 de setembro de 2001, quando as torres gêmeas foram atingidas, já havia um 11 de setembro muito famoso, o de 1973. É a data do golpe militar no Chile,comandado pelo general Augusto Pinochet, que atacou o Palácio da Moneda e derrubou Salvador Allende, presidente eleito democraticamente pelo povo chileno. Caiu um governo de esquerda e assumiu uma das mais violentas ditaduras da história da humanidade.

Quem ainda não viu, vale a pena procurar o curta metragem 11 de setembro, do inglês Ken Loach. Seu personagem, um exilado chileno, ao escrever uma carta de solidariedade ao povo norte-americano, revela que também sofre com o 11 de setembro do seu país, ocorrido coincidentemente numa terça-feira, 11 de setembro de 1973.

Cenas do presidente Bush, clamando por vingança e se declarando o defensor das liberdades, são caladas pela contundente denúncia das imagens do envolvimento de Nixon e seu secretário Henry Kissinger no massacre de mais de 30 mil chilenos. Ken Loach não tergiversa e alerta aos norte-americanos para as violências que eles já cometeram mundo afora, quase que como dizendo: vocês estão colhendo o que plantaram.

Ao final, o personagem expõe o dilema do exilado, que sonha em voltar com sua família para o Chile, sabendo que isso transformaria seus filhos em exilados, já que nasceram em Londres. O filme tem um discurso triste das lembranças da democracia chilena usurpada pela violência, que nos remete ao canto Vientos del pueblo, do chileno Victor Jara, que teve os pulsos amputados e morreu no Estádio do Chile.

De nuevo quieren manchar
mi tierra con sangre obrera,
los que hablan de libertad
y tienen las manos negras,
los que quieren dividir
a la madre du sus hijos
y quieren reconstruir
la cruz que arrastrara Cristo.

Quieren ocultar la infamia
que legaron desde siglos
pero el color de asesinos
no borrarán de su cara.
Ya fueron miles y miles
los que entregaron su sangre
y en caudales generosos
multiplicaron los panes.

Ahora quiero vivir,
junto a mi hijo y mi hermano,
la primavera que todos
vamos construyendo a diario.
No me asusta la amenaza,
patrones de la miseria.
La estrella de la esperanza
continuará siendo nuestra.

Vientos del pueblo me llaman,
vientos del pueblo me llevan.
Me esparcen el corazón
y me avientan la garganta.
Así cantará el poeta
mientras el alma me suene
por los caminos del pueblo
desde ahora y para siempre.