quarta-feira, 31 de agosto de 2011

O pregador e o “demônio” comunista


No início dos anos 70, a Ponta Grossa ainda guardava costumes antigos, como o de manter as portas destrancadas. Em nossa casa, a porta só era fechada à chave para a família dormir. O velho casarão de esquina entre a Rua Santo Antônio e a Guaicurus era muito frequentado e as portas estavam sempre abertas.


Chegando em casa, num final de tarde, cansado e suado da caminhada desde o Colégio Estadual de Alagoas, rodei apressadamente a maçaneta para abrir a porta. Estranhamente estava trancada. Percebi que havia movimento na sala, olhei para dentro por uma das janelinhas e vi um senhor sentado em frente ao meu pai. Quando pensei em perguntar o que estava acontecendo, o cidadão, percebendo a minha presença, levantou-se e veio desesperadamente na direção da porta implorando:

– Moço, pelo amor de Deus, me deixe sair daqui!

Olhei para meu pai e coloquei uma expressão interrogativa no rosto, querendo saber o que estava acontecendo. Ele abriu a porta, tomando o cuidado de não deixar brecha para o escape do indivíduo; fez-me entrar e passou a chave de novo, guardando-a no bolso.

– Eu quero ir embora, moço! Seu pai é o cão em pessoa – implorava, aflito e suado o senhor que segurava alguns livros sob o braço.

Gilberto Soares Pinto, comunista de fortes convicções e ansioso por um debate,  calmamente pediu ao cidadão que sentasse enquanto ele iria me explicar a situação.

– Veja bem, meu filho, se não estou com razão. Esse cidadão bateu a porta, começou a falar e foi entrando. Não me perguntou se eu queria ouvir a pregação dele. Falou durante uma hora e meia sobre a sua fé em Jesus e sobre as Testemunhas de Jeová. Fiquei calado. Quando ele terminou, eu disse que era a minha vez de pregar. Fechei a porta com chave e estou provando a ele que o comunismo é que é o paraíso. Só gastei até agora 40 minutos e ele já está me chamando de satanás, demônio e outras besteiras.

– Deixe o homem ir embora! Ele está quase chorando por causa da sua pregação – pedi com calma e com vontade de rir da situação.

– Isso mesmo moço, abra essa porta pelo amor de Deus, que eu juro que jamais volto aqui – voltou a implorar o crente.

Ponderei junto ao meu pai que dificilmente converteria o dedicado pregador à causa do socialismo. Ele ainda tentou explicar que tinha o direito de falar o mesmo tempo que o pregador, e que isso era uma lição para ele aprender a antes de começar a pregar procurar saber se outros querem ouvir. Convenci a ele que a lição já tinha sido aprendida e que já era hora de deixar o cidadão ir embora. Mesmo contrariado, ele resolveu ceder. Abriu a porta e assistimos um ágil pregador escapar daquela “torturante” explanação das idéias comunistas. Deve ter saído dali com a certeza de que tinha encontrado com o diabo em pessoa. 

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Para uma História da Indústria Têxtil Alagoana

Li na manhã de hoje (30/08), no GazetaWeb, a seguinte chamada:


"Descoberta pode mudar história econômica e cultural de Alagoas. Documentos da Associação Comercial do Comercial revelam importância da produção de algodão para o estado".


Como a matéria não cita, achei justo lembrar o resultado dos estudos do Golbery Lessa sobre o assunto, que está publicado no Blog Novo Íris Alagoense desde 2008. 


Para mostrar a profundidade dos estudos do Golbery, reproduzo aqui o seu trabalho.


Para uma História da Indústria Têxtil Alagoana
[por Golbery Lessa] [1]

[Introdução: a história de Alagoas não é a história do açúcar]

Fábrica de Saúde
Na historiografia alagoana clássica, surgida entre a segunda metade do século XIX e as três primeiras décadas do século XX, não existe a proposta de exagerar o papel da atividade canavieira na história do Estado e subestimar o significado de outros setores econômicos, como a pecuária, o comércio, a lavoura algodoeira e a produção de tecidos. Nos textos de Tomás Espíndola, Dias Cabral, Moreno Brandão e Craveiro Costa, para citar alguns dos autores mais conhecidos, inexiste a tese de que a história de Alagoas seria a história do açúcar. Entretanto, os livros Açúcar e Algodão, [2] de Humberto Bastos, e O Bangüê nas Alagoas,[3] de Manuel Diegues Júnior, publicados em 1938 e 1949, foram interpretados de maneira distorcida por uma opinião pública impressionada com o poder adquirido pelas usinas a partir dos anos 1960 e ajudaram, involuntariamente, na invenção de uma teoria canavieira sobre a formação social alagoana que, mesmo sem conseguir impregnar a historiografia, tornou-se hegemônica nos discursos político, jornalístico e burocrático.

A partir da interpretação canavieira fica difícil escrever a história de municípios tão importantes como Delmiro Gouveia, Santana do Ipanema, Palmeira dos Índios, Arapiraca, Penedo e Maceió, estruturados por atividades agropecuárias, comerciais, de serviços e industriais muito distintas do setor açucareiro. Vastas regiões do Estado e mesmos momentos históricos decisivos de áreas do atual Leste Alagoano não podem ser suficientemente explicados por um raciocínio baseado na noção de “civilização do açúcar” ou qualquer um dos seus sucedâneos. Na trilha dos clássicos, historiadores contemporâneos de distintas perspectivas metodológicas, como Dirceu Lindoso, Sávio de Almeida, Douglas Apratto, Osvaldo Maciel, Fernando Medeiros e José Alberto Saldanha, têm sublinhado a importância de outras atividades econômicas, temas e regiões e, desse modo, deixado aberta a possibilidade para abordagens mais complexas da história de Alagoas.

Citemos alguns dos inúmeros fatos que não cabem na teoria que exagera o papel do açúcar: 1) a ascensão da cultura do algodão durante quase todo o século XIX e sua presença significativa até a primeira metade do século XX, envolvendo amplas áreas dos atuais Sertão e Agreste, definindo as bases da estrutura fundiária dessas regiões e chegando a ser cultivado na área tradicionalmente canavieira; 2) a proeminência econômica da burguesia comercial de Jaraguá (com decisiva presença de portugueses e outros europeus) durante aquele mesmo período, simbolizada pela centralização do poder em Maceió (1839) e pela criação da Associação Comercial (1866); 3) o papel decisivo do capital mercantil (alagoano, nordestino e estrangeiro) na constituição das primeiras grandes usinas locais (Brasileiro, Utinga Leão, Serra Grande e Sinimbu) e na constituição das doze fábricas de fiação e tecelagem; 4) o fato de que essas fábricas têxteis chegaram a rivalizar com a indústria do açúcar entre os anos 1930 e 1960 em termos de capital investido, valor produzido e número de operários; e 5) a grande descontinuidade existente entre o engenho e a usina, tanto em termos de suas lógicas econômicas básicas quanto no que se refere à origem de seus capitais.

É um universo de personagens e questões decisivas que tem sido negligenciado. Se observarmos apenas os casos da burguesia e da classe trabalhadora das fábricas têxteis, já entramos num espaço importante para entender melhor os descaminhos do ethos capitalista e das relações sociais mercantis em Alagoas, na medida em que esses sujeitos encarnaram a vanguarda desse mundo burguês entre o final do século XIX e meados do século XX. Isso implica em abrirmos a possibilidade de compreender melhor um dos momentos decisivos da reafirmação do caráter colonial, tardio e autoritário do capitalismo alagoano.

[Virada do século XIX para o século XX: entre a usina e a fábrica têxtil]

Fábrica Alexandria
Após um primeiro momento de consolidação, vivido entre a última década do século XIX e as duas primeiras do século XX, a indústria têxtil alagoana chegou ao seu amadurecimento entre os anos 1930 e 1950, passando a apresentar uma configuração que a colocava como pólo decisivo de uma alternativa econômica mais progressista. Pode-se iniciar a comprovação deste fato por meio de números que possibilitam a comparação entre o complexo têxtil e o setor canavieiro durante o período citado.

Em 1933, com o objetivo de dar publicidade às reivindicações que fizera a Getúlio Vargas, a Associação Comercial de Maceió publicou um livreto intitulado Alagoas na Economia do Brasil.[4] O texto assinado por Antonio de Mello Machado, presidente da entidade e um dos proprietários da União Mercantil, fábrica têxtil de Fernão Velho,[5]apresenta os seguintes números: em 1932, o setor canavieiro, contando com 27 usinas e 700 engenhos, alcançou um valor de produção de 52.388.580$000 (em contos de réis), constituído pelos seguintes itens: açúcar (46.969.260$000), álcool e aguardente (3.500.000$000), cana exportada para outros Estados (1.240.323$000) e cana consumida de outras formas (680.000$000); no mesmo ano, a cadeia produtiva têxtil, com 10 fábricas de fiação e tecidos, alcançou uma valor de produção de (40.516.800$000), a partir dos seguintes itens: tecidos (32.062.552$000), algodão (3.696.800$000) e caroço de algodão (1.620.000$000). Diante desses dados (o universo têxtil era responsável por 43,6% da soma dos valores produzidos pelos dois setores), fica difícil sustentar que a produção alagoana girasse apenas ao redor do engenho e da usina.

Para aquilatar o grau de desenvolvimento e as potencialidades trazidas pela parte industrial desses setores no início dos anos 1930, podemos calcular o valor médio da produção por unidade fabril e a contribuição da tecnologia tradicional e da maquinaria para o processo produtivo. A divisão entre o valor total do açúcar e o número de usinas tem como resultado 1.740.000$000, a divisão entre o valor total dos tecidos e o número de fábricas resulta em 4.050.000$00. A quase totalidade do tecido e dos fios era produzida nos dez grandes estabelecimentos fabris. Por outro lado, a partir de uma tabela do Instituto do açúcar e do Álcool (IAA) apresentada pelo economista Humberto Bastos, no citado livro Açúcar e Algodão, pudemos chegar à conclusão de que 30% da produção açucareira alagoana ainda eram efetivados por engenhos, fato demonstrativo de que a tecnologia tradicional ainda tinha um espaço relevante neste setor. A partir de dados relativos ao montante de capital investido apresentados no citado livreto da Associação Comercial, pode-se calcular que uma usina possuía em média um capital de 3.009.556$000 e uma fábrica têxtil, 5.763.383$000. Ou seja, uma fábrica representava quase o dobro de poder econômico de uma usina.
Em 1940 e 1950 a indústria têxtil tinha, respectivamente, 6.294 e 10.514 operários, pagava um total de 7.125 e 57.382 (em milhares de cruzeiros) em salários e produzia tecido e fios no valor de 64.663 e 353.457 (em milhares de cruzeiros). [6] Nestes censos a indústria açucareira foi submersa no conceito de indústria alimentar, o que dificulta um pouco a comparação, mas não a inviabiliza porque sabemos por outras fontes que o setor canavieiro deveria corresponder a 98% do valor da produção daquela indústria (a produção de álcool ainda não era relevante naquelas décadas, sua exclusão não macula nossas conclusões). Os números dessa atividade eram, a partir dos mesmos censos industriais de 1940 e 1950, os seguintes: empregava 4.419 e 6.917 operários, pagava um total 5.011 e 25.719 (em milhares de cruzeiros) de salários e sua produção valia 94.723 e 392.995 (em milhares de cruzeiros). Ou seja, a indústria têxtil superava a indústria açucareira no que se referia ao número de operários, ao montante dos salários pagos (mais do que o dobro em 1950) e chegava bem próximo no tocante ao valor da produção. Segundo o Anuário Estatístico Brasileiro, em 1954 a indústria têxtil teve um valor de produção um pouco maior do que a indústria de alimentos em Alagoas.[7]

Caso observemos a dimensão agrícola dos dois setores no século XX, perceberemos que o algodão abrangia uma área muito maior do que a cana pelo menos desde os anos 1930 até meados dos anos 1950 [8] e, devido ao costumeiro uso das propriedades rurais camponesas para seu cultivo, alcançava um maior número de trabalhadores. Em 1933, as lavouras de algodão e cana ocupavam, respectivamente, 66.700 e 26.060 hectares, enquanto os seus valores de produção eram 36.890$000 (somando o algodão em rama e o caroço de algodão) e 27.197$000 mil-réis.[9] No século XIX, o espaço agrícola do algodão foi maior desde as primeiras décadas até o início do último quartel. O aumento da demanda inglesa pela fibra fez surgir milhares de pequenas glebas algodoeiras nos atuais Agreste e Sertão da então Província das Alagoas.[10] Essas proporções se explicam pela retração do mercado para o açúcar brasileiro durante a primeira metade do século XIX e pelo fato de que a cana, com a tecnologia da época, não tinha capacidade de ir além das estreitas faixas de terra espremidas nos vales. O algodão alagoano era, como no Brasil inteiro, uma cultura de pequenos agricultores pobres, de descaroçadores remediados e de grandes comerciantes. [11] O baixo investimento inicial, o consórcio como o feijão, o milho e mamona e as conjunturas intermitentes de preços altos determinavam que o algodão se espalhasse com facilidade, chegando às vezes a ocupar parte da terra de engenhos de açúcar.

O universo industrial têxtil não era um mero coadjuvante do mundo canavieiro entre o início dos anos 1930 e o final dos anos 1950. A indústria de fiação e tecelagem foi se consolidando e constituindo-se num espaço econômico, ideológico e político bastante particular em relação aos antigos e novos espaços da sociedade alagoana, como os espaços dos bangüês, das usinas e do sertão agropecuário. Apesar de suas singularidades, esse mundo têxtil das fábricas com vilas operárias não era um elemento isolado na formação social alagoana, mas uma das formas particulares do processo de urbanização e modernização mercantil-financeira que transcorreu desde a metade do século XIX e concentrou-se em Maceió e outras cidades marcadas pelo comércio, como Penedo e Pilar. 


Compartilhava com o espaço das usinas a mesma lógica essencial determinada pelo metabolismo do capitalismo periférico e retardatário, entretanto tinha uma abertura maior para processos de superação dessa lógica, representava uma alternativa mais progressista do que o mundo centrado no açúcar.

Em um dos textos mais esclarecedores sobre a história alagoana contemporânea, afirma Dirceu Lindoso sobre as singularidades desse mundo fabril têxtil:

Geraram, as vilas operárias urbanas, pela primeira vez na cultura alagoana, formas culturais urbanas proletárias. Essas formas, embora contivessem ingredientes ainda rurais, revelavam um conteúdo de nítida oposição às formas tradicionais de organização social vigente na cultura rural. Embora, de início, essa oposição não se revelasse nítida, entretanto já registrava, em termos sociais, uma distinção com as formas sociais de vida de tradição rural. A integração urbana de mão-de-obra de origem rural, fixada em vilas e cidades, fez-se nas condições de existência social que as vila operárias representavam e através do regime disciplinar de trabalho nas fábricas. Esse processo de concentração de moradia em forma padronizada e na nova disciplina de trabalho industrial realizou a homogeneização das disparidades da mão-de-obra rural numa força de trabalho que representava um fato novo na organização do trabalho social em condições alagoanas: a padronização da vida nas vilas operárias correspondia à padronização do trabalho nas fábricas. E esse processo de padronização proletário-urbano diferia da dispersão e disparidade da organização do trabalho em situação camponesa. Marcava-se de um modo diferente do tempo tradicional camponês. A escrita e a alfabetização eram componentes da vida urbana, enquanto dominava na organização do trabalho em situação camponesa a hegemonia absoluta da oralidade e do agrafismo. [12]

Fica evidenciado que o espaço têxtil foi um dos principais focos de urbanização e modernização do cotidiano, do trabalho, da política e da subjetividade. Além de ser um dos pioneiros na apreciação sistemática desse papel progressista do universo têxtil, o autor ainda tem o outro grande mérito de identificar e descrever a metamorfose econômica, política e subjetiva vivida pela sociedade alagoana a partir da segunda metade do século XIX. Identifica uma nova etapa de desenvolvimento do capitalismo em Alagoas, marcada pela industrialização, a urbanização e o surgimento de um novo bloco histórico. Analisa a decadência dos senhores de engenho e sublinha a ascensão de um agrupamento de classes baseado nas cidades e no capital mercantil-industrial. Este novo bloco seria composto pelos usineiros, os donos de fábricas têxteis, os grandes comerciantes e os financistas. Por outro lado, os novos atores trouxeram as condições de existência que possibilitaram a autoconstrução das classes trabalhadoras urbanas em geral e, em particular, do proletariado fabril.

[Usina de açúcar: negação e afirmação da lógica retardatária]

Entre a Abolição (1888) e o fim do Estado Novo (1937-45), o sistema econômico vigente no Estado de Alagoas moveu-se no sentido de radicalizar, num primeiro momento, a proeminência do capital mercantil e, num momento posterior, de transferir a hegemonia econômica para a indústria, subordinando a esta a agricultura e o comércio. Repetiu-se o que se passou em outros Estados no mesmo período e o que ocorrera nos países centrais entre o início e a metade do século XIX. No entanto, Alagoas (repetindo a trajetória de Pernambuco) concentrou cerca de metade dos capitais disponíveis em um setor agroindustrial, o canavieiro, cujas especificidades materiais (caráter perecível da cana após a colheita, o que impede a existência de um mercado estadual, nacional e internacional dessa matéria-prima) tendem a construir um espaço produtivo no qual a lógica da parte fabril torna-se excessivamente dependente da lógica da parte agrícola.

Os engenhos bangüês sobreviveram relativamente pouco tempo à Abolição porque sua base técnica, marcada por um desenvolvimento muito vagaroso e pela dificuldade de ampliar as escalas de produção, era incompatível com a nova realidade na qual o valor dos produtos passava a ser determinado predominantemente a partir da quantidade social média de trabalho assalariado.[13] No que se refere a essas dimensões básicas, a usina representou uma grande ruptura com o passado e, ao menos para quem não prefira a escravidão ao trabalho assalariado, um passo adiante em vários aspectos. As três primeiras grandes usinas alagoanas (Brasileiro, Utinga Leão e Serra Grande, surgidas entre 1892 e 1894) [14] e as fábricas têxteis representaram o pioneiro estabelecimento da subsunção real do processo de trabalho ao capital, ou seja, constituíram relações capitalistas na sua forma típica: trabalho assalariado, maquinaria e desenvolvimento tecnológico contínuo.

O Barão Vandesmet (usina Brasileiro), representante do capital francês, Luiz Amorim Leão Filho (usina Utinga Leão), de família portuguesa enriquecida no grande comércio, e Carlos Benigno Pereira Lyra (usina Serra Grande), de clã pernambucano cosmopolita,[15] traziam capitais e ethos muito diferentes daqueles que moviam a prática econômica dos senhores de engenho. Entretanto a modernidade que traziam chocou-se com um obstáculo decisivo e até hoje insuperável no ramo que escolheram para aplicar seus capitais: numa circunstância na qual o caráter perecível da cana inviabiliza a existência de um mercado regional, nacional e internacional dessa matéria-prima, a planta fabril acaba tendo sua atividade condicionada pelos lentos ciclos biológicos dos canaviais próximos, o que ameaça a usina de ser contaminada pela lenta rotação de capital da parte agrícola e pela conseqüente queda na taxa de lucro. Para tentar escapar dessa armadilha estrutural, a usina obrigou-se a organiza-se também com empresa agrícola e não apenas como empresa industrial; por meio da chamada cana própria, procurou não ficar dependente do preço da matéria-prima proposto por seus fornecedores e apressar a rotação de capital nos canaviais a partir do uso de técnicas agrícolas modernas.

O novo desenvolvimento do setor canavieiro representou um avanço do capitalismo no campo e, contraditoriamente, uma “ruralização” da indústria, com conseqüências negativas tanto nas finanças quanto no ethos da vanguarda empresarial, o que foi decisivo para a diminuição do potencial de desenvolvimento capitalista que este segmento representava e um dos motivos do subdesenvolvimento econômico posterior. A cana própria consolidou o latifúndio no Leste Alagoano, dificultando o surgimento de um campesinato produtor de alimentos e matérias-primas a preços declinantes, uma das premissas para o barateamento dos meios de vida dos assalariados e da generalização da mais-valia relativa, muito mais progressista do que a mais-valia absoluta, pois possibilita que o aumento do lucro coadune-se com a melhoria das condições de vida do trabalhador. O fenômeno da entressafra açucareira obriga as plantas fabris a uma paralisia completamente irracional durante seis meses, o que se procura compensar pela diminuição radical da remuneração dos trabalhadores e pelos aumentos astronômicos nas escalas de produção, fato que amplia o risco de superprodução.[16]

[Fábrica têxtil: possibilidade de superação da lógica retardatária]

A outra metade dos capitais disponíveis nas Alagoas foi aplicada na indústria têxtil, movida por uma lógica significativamente distinta. As fábricas têxteis também usavam um produto agrícola como matéria-prima básica, mas a durabilidade do algodão após a colheita possibilitava a existência de um mercado regional, nacional e mesmo internacional dessa fibra, bem como a constituição de estoques nos armazéns das próprias empresas. As fábricas não necessitavam empatar capitais na compra ou arroteamento de terras e fazer gastos com seu manejo e administração. A existência de um mercado amplo de algodão e a natureza pulverizada da classe dos produtores diretos (pequenos agricultores) dificultava o monopólio dessa matéria-prima (apesar da existência de uma estrutura de comercialização que concentrava os lucros entre os atravessadores e descaroçadores) e possibilitava que as fábricas alagoanas pudessem obtê-la a preços razoáveis até os anos 1930.

Ao contrário das usinas, as fábricas não passavam por um processo anual de paralisia na entressafra agrícola. Funcionavam com uma lógica plenamente industrial, sem subserviência excessiva aos humores da agricultura. Suas singularidades tinham conseqüências bem mais progressistas do que aquelas provocadas pelas singularidades da usinas. Os salários eram melhores e as leis trabalhistas puderam ser aplicadas, a partir da Revolução de 1930, sem que as empresas fossem à bancarrota. A maior capacidade de oferecer empregos por unidade de capital e sua localização em cidades de grande relevância econômica e política (Maceió, Penedo, Pilar, Rio Largo, São Miguel dos Campos e Delmiro Gouveia) foram determinantes para que estas empresas cumprissem o papel modernizador sublinhado de modo pioneiro por Dirceu Lindoso.

As personas do grande capital alagoano (e estrangeiro em Alagoas) nas primeiras décadas do século XX apenas começavam a perceber as diferenças entre o setor têxtil e o açucareiro e ensaiavam investimentos nessas vias. Não se sabia qual deles iria vingar e tornar-se o caminho essencial do desenvolvimento; era uma época de experimentação e risco. A maior parte dos grupos empresariais escolheu uma das alternativas e alguns ensaiaram os dois ramos simultaneamente. Emblemáticas do tatear de alguns capitais entre os dois setores foram as compras, em 1938, da fábrica União Mercantil pelos proprietários da usina Utinga Leão, e da pequena usina Coruripe, em 1941, por Tércio Wanderley, rico comerciante, dono de fábrica de sabão localizada em Maceió, acionista minoritário de fábricas têxteis e proprietário, desde 1936, da Companhia Antunes de Fiação e Tecelagem (Nova Aliança, Sergipe, atual Neópolis). [17]

[Vazio de poder no bloco histórico dominante e violência política]

Em Alagoas não havia muitos adeptos da Revolução de 1930 antes que as tropas da nova ordem chegassem à capital.[18] Na terra de Pedro Aurélio de Góis Monteiro, um dos homens mais influentes no novo regime, houve dificuldades para estabilizar o novo poder porque os impasses do capitalismo local tinham constituído um bloco econômico dominante radicalmente contrário às propostas modernizadoras dos tenentistas.

Existiam setecentos engenhos bangüês sobrevivendo a partir da estratégia de diminuir os custos monetários da produção por meio da mistura entre o assalariamento e relações sociais pré-capitalistas. Os bangüês não aceitaram desaparecer sem luta. Competiram por força de trabalho, terras e mercado consumidor com as usinas.[19] As usinas ainda não estavam consolidadas financeiramente e nem tinham incorporado vários dos principais avanços técnicos agrícolas da nova etapa capitalista. [20] A cana continuava sendo plantada no massapê, terra que dificultava o emprego de máquinas e outros equipamentos pesados. Para não perder sua força de trabalho para os engenhos e para diminuir os custos monetários da produção, os usineiros reproduziram a figura do morador em suas fazendas e resistiam a qualquer legislação trabalhista.

O capital mercantil com sede em Jaraguá estava exclusivamente interessado na existência de boas condições para os seus negócios e de algum produto de exportação para os mercados brasileiro e internacional, tanto fazia que fosse açúcar ou algodão, couro ou mamona, madeira ou tecido; tanto fazia que fosse produzido por grandes ou pequenos proprietários, por moradores ou assalariados. Eram esses grandes comerciantes que ficavam com a maior parte da riqueza produzida pela economia alagoana. Somente as três maiores usinas eram capazes de fugir da subordinação ao grande comércio de importação-exportação. As fábricas têxteis tiveram que lutar muito para que a rede de distribuição de tecidos não ficasse com grande parte dos lucros do setor.

As reformas propostas pelos tenentistas também não encontraram apoio entre os industriais têxteis devido às singularidades desse setor no Estado. As fábricas locais tinham dois problemas principais : 1) o alto preço e a péssima qualidade do algodão produzido em Alagoas; e 2) o alto custo da produção da energia elétrica por meio de caldeiras abastecidas com lenha. Em São Paulo, maior produtor de tecidos do país, o início da década de 1930 foi marcado pelo começo de enormes safras sucessivas de algodão de ótima qualidade, resultado do retalhamento planejado das antigas fazendas de café e da intervenção do estado na lavoura algodoeira. As empresas bandeirantes passaram a ser independentes da matéria-prima nordestina. As várias quedas d’água existentes no relevo paulista, o amplo mercado consumidor e a abundância de capitais interessados em produzir energia hidroelétrica já tinham resolvido o problema energético do setor têxtil bandeirante desde a década anterior. O mundo têxtil alagoano estava começando a pagar caro a não resolução da questão agrária e a dificuldade de planejamento econômico do bloco social dominante, determinada pelo contínuo vazio de poder no seu interior.

Os senhores de engenho e usineiros estavam longe de ter os mesmo interesses imediatos e estratégicos, já que representavam etapas distintas do capitalismo. É anacronismo imaginar a existência de um setor açucareiro unificado e politicamente capaz de subordinar os outros segmentos das classes dominantes nesse período e nas duas décadas posteriores. Em 1930, três usinas fundadas pelo capital mercantil produziam 48% do açúcar branco alagoano (Leão, 234.000 sacos, Serra Grande, 183.000 sacos e Brasileiro 90.00, sacos); seis usinas menores, que produziam entre 30.000 e 47.000 sacos (Sinimbu, Coruripe, São Simeão, Alegria, Esperança e Uruba), eram responsáveis pela produção de 26 % do mesmo açúcar; várias delas, como a Coruripe, tinham surgido por iniciativa de senhores de engenho mais capitalizados, mas nem por isso eram capazes de evitar as freqüentes bancarrotas; as sete usinas restantes eram tão pequenas que contribuíam com apenas 3,7 % da produção. A maioria dos usineiros ainda não era financeiramente poderosa como seria no futuro[21] e a crise de superprodução determinada pela perda do mercado externo era uma espada de Dámocles sobre o setor.

Como afirmamos, a burguesia mercantil interessava-se por continuar parasitando o valor produzido por outros personagens econômicos e, por outro lado, em transferir paulatinamente parte dos seus capitais para investimentos que provassem ser lucrativos, como as usinas e as fábricas têxteis. Estas fábricas, por sua vez, já produziam quase metade do valor econômico do Estado, mas lutavam com obstáculos estruturais para continuar sobrevivendo e não tinham uma presença econômica e demográfica suficiente para alçarem-se à hegemonia política.

As insuficiências econômicas desses vários segmentos criavam um vazio de poder estrutural no interior do bloco histórico dominante, ou seja, produziam uma grande dificuldade para o estabelecimento de uma hierarquia política permanentemente renovada e legitimada por regras democráticas. Isso resultava em apelos constantes à violência e na tentativa de desmoralização dos adversários, bem como na busca por parte de cada grupo situacionista de constituir uma espécie de ditadura sobre o resto da sociedade, de restringir ao máximo as instituições republicanas para impedir o fortalecimento dos opositores. Até por instinto de sobrevivência e preconceito de classe, estes segmentos sociais uniam-se celeremente contra as classes trabalhadoras, como o campesinato e os assalariados; mantinham a ordem estabelecida com relativa facilidade, mas isso não significa que se unificavam de modo consistente para a efetivação de um programa avançado e coerente de desenvolvimento.

No início dos anos 1930, diante do impasse histórico provocado pela inércia das classes dominantes locais, os trabalhadores alagoanos aproveitaram os avanços da Revolução de 1930 para intensificar sua luta pela humanização do sistema econômico por meio das leis trabalhistas, dos direitos fundamentais e do fortalecimento das instituições republicanas. Os comunistas e socialistas reformistas que estavam à frente do movimento não propunham a revolução social imediata, restringiam-se a agitar as bandeiras de modernização que os liberais não assumiam. A liberdade sindical, por exemplo, consiste apenas no direito de o trabalhador negociar a sua força de trabalho como se faz com qualquer outro produto, representa o direito de gerir de modo racional, pacífico e burguês a mercadoria “força de trabalho“. No entanto, partir de 1933, muitos trabalhadores foram perseguidos, presos, humilhados e deportados para o Rio de Janeiro sob a acusação de estarem tentando subverter a ordem e o sistema social.

[Causas da decadência do setor têxtil e do seu proletariado]

O vazio de poder referido e o seu impacto no planejamento econômico inibiram as tendências renovadoras em todos os quadrantes da formação social alagoana; o sistema econômico não conseguiu alcançar novas etapas, restringindo-se a acomodar reativamente seu atraso às circunstâncias cambiantes ao seu redor. Nesse contexto, o setor local de tecidos entrou em decadência devido aos impactos da irresolução dos problemas estruturais do capitalismo alagoano numa conjuntura na qual seus concorrentes passaram a receber grandes benefícios da melhor articulação interna de suas classes dominantes e de um enfretamento mais eficiente dos obstáculos para o desenvolvimento do sistema.
Quando São Paulo passou a produzir algodão de ótima qualidade e em grande quantidade, deixou de ser importador da fibra nordestina e passou a ser exportador. A partir do início dos anos 1930, quando esta virada ocorreu, o setor têxtil alagoano (e o nordestino) perde um dos seus diferenciais competitivos básicos em relação ao Sul, já que o algodão correspondia na época ao principal custo variável na produção de fios e tecidos. A Revolução de 1930 impôs a limitação da jornada de trabalho e uma série de outros mecanismos legais (como o salário mínimo) que diminuíram a margem de mais-valia absoluta com a qual as empresas alagoanas podiam contar para aumentarem sua competitividade a partir de uma fuga para trás, uma volta a etapas anteriores do sistema.

Outro problema estrutural que diminuía a competitividade das fábricas alagoanas, pelo menos até 1955, era o alto custo da energia elétrica utilizada, dependente de um custoso setor de produção de lenha, seja o próprio ou o contratado. Enquanto isso, as fábricas de São Paulo, como já assinalado, contavam com energia hidroelétrica desde as duas primeiras décadas do século XX. A disparidade de custos de energia, que tinha relação com as maiores escalas do mercado paulista para as empresas do ramo elétrico, contribuiu muito para o atraso econômico relativo das fábricas alagoanas.

A partir dos anos 1930, São Paulo tinha as seguintes vantagens sobre Alagoas: 1) algodão mais barato e de melhor qualidade; 2) energia mais barata; 3) proximidade dos maiores mercados consumidores; e 4) uma legislação trabalhista nacional que estancava a possibilidade de seus competidores usarem o achatamento das condições de vida dos trabalhadores como principal arma competitiva. Não havia grandes diferenciais tecnológicos, já que as máquinas utilizadas até os anos 1960 eram de procedência estrangeira e as empresas nacionais ainda não investiam em desenvolvimento tecnológico autônomo. Os industriais do Rio de Janeiro e de São Paulo tentaram o tempo todo dificultar a proliferação de concorrentes no resto do país defendendo uma lei que impedisse a livre importação de teares, conseguindo que vigorasse um decreto nesse sentido entre os anos 1930 e 1936.

Para resolver o problema da qualidade e do preço do algodão em Alagoas, teria sido necessário um planejamento estatal ancorado num bloco histórico dominante coeso, internamente hierarquizado, capaz de práticas políticas pacíficas e possuidor de um projeto de avanço capitalista conseqüente. Era preciso enfrentar os atravessadores, as práticas abusivas dos poderosos donos dos descaroçadores e construir uma estrutura pública de crédito para o pequeno produtor de algodão, a base de todo o sistema. Essas mudanças beneficiariam muito as fábricas têxteis, mas seus proprietários precisavam convencer os outros setores e as lideranças políticas da necessidade de realizá-las. As mudanças na produção e no comércio de algodão requeriam o enfretamento de vários pequenos e médios poderes econômicos e políticos e, desse modo, necessitavam ser realizadas por atores poderosos.

As fábricas têxteis, mesmo sendo economicamente mais modernas do que as usinas, não tinham força suficiente para acabar com o vazio de poder no bloco histórico dominante e construírem um estado capaz de superar os gargalos que entravavam o desenvolvimento do setor. Esse impasse se expressava no conservadorismo político dos industriais têxteis e na sua aliança com os usineiros e a burguesia comercial; tratava-se, portanto, de um conservadorismo político objetivamente determinado. O caminho escolhido foi suicida, já que inviabilizou as mudanças necessárias para que o setor têxtil sobrevivesse; entretanto, a aliança com o proletariado e o projeto popular-nacionalista, representado por Ismar de Góis Monteiro, Muniz Falcão e o Partido Comunista do Brasil (PCB), também tinha a potencialidade de solapar as bases dessa indústria, na medida em que implicava em aumentos imediatos dos gastos com a força de trabalho para unidades fabris acossadas por competidores muito mais capitalizados e bem posicionados no mercado.[22]

Por outro lado e na outra ponta do espectro social, o proletariado têxtil esteve geralmente compondo a vanguarda contrária à barbárie social e ao atraso econômico e político de Alagoas. Dentro do setor que expressava o maior avanço da modernidade, foi seu pólo político mais ativo, progressista e generoso. Os operários têxteis alagoanos deixaram um legado decisivo para as novas gerações, em termos de idéias, práticas políticas e compromisso com uma modernidade coerente com suas próprias promessas, ou seja, comprometida menos com o mercado e mais com os valores democráticos, as instituições republicanas, a justiça social e, no limite, com o socialismo.

Maceió, 2008.

[1] Historiador, Doutor em Ciências Sociais pela Unicamp. O presente texto é um dos produtos do projeto Trama da Memória, Tecitura do Tempo: registro da memória e da iconografia das famílias de tradição operária têxtil residentes no bairro de Fernão Velho - Maceió/AL, desenvolvido pela Pró-reitoria de Extensão da Universidade Estadual de Ciências da Saúde de Alagoas (Uncisal), com o apoio do Ministério da Cultura (Programa de Apoio à Extensão Universitária - PROEXT Cultura 2007) e da Petrobras.
[2] Cf. BASTOS, Humberto Bastos. Açúcar e Algodão. Maceió: Casa Ramalho, 1938.
[3] Cf. DIEGUES JÚNIOR, Manuel. O Bangüê nas Alagoas: traços da influencia do sistema econômico do engenho na vida e na cultura regional. Rio de Janeiro: Edição do Instituto do Açúcar e do Álcool, 1949.
[4] Cf. ASSOCIAÇÃO COMERCIAL DE MACEIÓ. Alagoas na Economia do Brasil. Maceió: Casa Menezes, 1933, p.31-32. Trata-se de um livro bastante raro, mas pode ser encontrado para consulta no acervo do Arquivo Público de Alagoas.
[5] Pioneira empresa do ramo têxtil em Alagoas e um das primeiras do país. Foi fundada em 1857 e sua fábrica começou a funcionar a partir de 1862. Na atualidade (novembro de 2008), ainda está em funcionamento.
[6] Cf. IBGE. Censo Industrial de 1940. Rio de Janeiro: IBGE, 1940. IBGE. Censo Industrial de 1950. Rio de Janeiro: IBGE, 1950.
[7] Cf. IBGE. Anuário Estatístico do Brasil de1956, p. 126-29.
[8] Em 1952, o algodão era plantado em 57. 288 hectares e a cana em 59.022 hectares.
[9] Encontramos o valor total da produção de açúcar e não o da cana; desse modo, deduzimos o valor da safra desta a partir do pressuposto, aceito por vários autores, de que 70% do preço do açúcar são constituídos de sua matéria-prima básica. Cf. SZMRECSÁNYI, Tamás. O Planejamento da Agroindústria Canavieira do Brasil (1930-1975). São Paulo: Hucitec, Unicamp, 1979.
[10] Durante a primeira metade do século XIX, assim como ocorreu em outras Províncias do atual Nordeste brasileiro, em Alagoas o algodão rivalizou com o açúcar em termos de valor exportado. Cf. MELLO, Evaldo Cabral de. Rubro Veio: o imaginário da Restauração Pernambucana. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986, p.19-20.
[11] No Relatório ou exposição a respeito da plantação e cultura do algodão na Província das Alagoas, apresentado ao Excelentíssimo Senhor Presidente da mesma em 18 de fevereiro de 1875, documento anexo ao ofício da Associação Comercial de Maceió, da mesma data, há informações importantes sobre a estrutura agrícola e comercial da lavoura do algodão em Alagoas (Acervo do Arquivo Público de Alagoas, AS. 1856-77 maço 13, estante 02.).
[12] Cf. LINDOSO, Dirceu. Interpretação da Província: estudo da cultura alagoana. 2ª Ed., Maceió: Edufal, 2005.
[13] Gnaccarini, José C. A Economia do Açúcar: processo de trabalho e processo de acumulação. In: Cardoso, Fernando Henrique [et. al.]. O Brasil Republicano: estrutura de poder e economia (1889-1930). 8ª ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2004.
[14] Essas usinas produziam a maior parte do açúcar alagoano nos anos 1930. As duas últimas até hoje continuam entre as maiores usinas do Estado.
[15] Para se ter uma idéia da visão ampla do clã, basta dizer que durante a segunda década do século XX o grupo adquiriu o Diário de Pernambuco, jornal decisivo na disputa por hegemonia ideológica e política em Pernambuco, com influência em todo Nordeste.
[16] Cf. SZMRECSÁNYI, Tamás. O Planejamento da Agroindústria Canavieira do Brasil (1930-1975). São Paulo: Hucitec, Unicamp, 1979.
[17] A trajetória de Tércio Wanderley é emblemática das relações econômicas e subjetivas entre os dois ramos. Antes de comprar a usina Coruripe, em 1941, com capital emprestado sem juros por Arthur Mello Machado (cuja família vendera a União Mercantil ao grupo Leão em 1938), seu amigo de longa data, o futuro comendador tinha aprendido muito com a participação nos conselhos fiscais e nas assembléias gerais de algumas fábricas têxteis. Segundo Aurino Vieira da Silva, um dos seus biógrafos, o jovem Tércio Wanderley tinha Gustavo Paiva como ídolo e absorveu muito do seu conhecimento em longas conversas privadas. Cf. Silva, Aurino Viera Da. Comendador Tércio Wanderley. Maceió: 2005.
[18] Cf. Gusmão, Carlos de. Boca da Grota. Maceió: Serviços Gráficos da Gazeta de Alagoas, 1970. RODRIGUEZ, Clódio. O Sorriso do Tempo. Maceió: Casa Ramalho, s.d. Tenório, Douglas Apratto. Metamorfose das Oligarquias. Curitiba: HD Livros, 1997.
[19] Cf. Gnaccarini, op. cit.
[20] Cf. SANTANA, Moacir Medeiros de. Contribuição Para a História do açúcar em Alagoas. Recife: Museu do Açúcar, 1970.
[21] Cf. LIMA, Jorge de. Calunga. Agir: Rio de Janeiro, 1959.
[22] TENÓRIO, Douglas Apratto. A Tragédia do Populismo: o impeachment de Muniz Falcão. 2ª e.d. Maceió: Edufal, 2007.

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

O ponto sem retorno de Veja

Luis Nassif

Veja chegou a um ponto sem retorno. Em plena efervescência do caso Murdoch, com o fim da blindagem para práticas criminosas por parte da grande mídia no mundo todo, com toda opinião esclarecida discutindo os limites para a ação dá mídia, ela dá seu passo mais atrevido, com a tentativa de invasão do apartamento de José Dirceu e o uso de imagens dos vídeos do hotel, protegidas pelo sigilo legal.

Até agora, nenhum outro veículo da mídia repercutiu nenhuma das notícias: a da tentativa de invasão do apartamento de Dirceu, por ficar caracterizado o uso de táticas criminosas murdochianas no Brasil; e a matéria em si, um cozidão mal-ajambrado, uma sequência de ilações sem jornalismo no meio.

Veja hoje é uma ameaça direta ao jornalismo da Folha, Estadão, Globo, aos membros da Associação Nacional dos Jornais, a todo o segmento da velha mídia, por ter atropelado todos os limites. Sua ação lançou a mancha da criminalização para toda a mídia.

Quando Sidney Basile me procurou em 2008, com uma proposta de paz – que recusei – lá pelas tantas indaguei dele o que explicaria a maluquice da revista. Basile disse que as pessoas que assumiam a direção da revista de repente vestiam uma máscara de Veja que não tiravam nem para dormir.

Recusei o acordo proposto. Em parte porque não me era assegurado o direito de resposta dos ataques que sofri; em parte porque – mostrei para ele – como explicaria aos leitores e amigos do Blog a redução das críticas ao esgoto que jorrava da revista. Basile respondeu quase em desespero: "Mas você não está percebendo que estamos querendo mudar". Disse-lhe que não duvidava de suas boas intenções, mas da capacidade da revista de sair do lamaçal em que se meteu.

Não mudou. Esses processos de deterioração editorial dificilmente são reversíveis. Parece que todo o organismo desaprende regras básicas de jornalismo. Às vezes me pergunto se o atilado Roberto Civita, dos tempos da Realidade ou dos primeiros tempos de Veja, foi acometido de algum processo mental que lhe turvou a capacidade de discernimento.

Tempos atrás participei de um seminário promovido por uma fundação alemã. Na mesa, comigo, o grande Paulo Totti, que foi chefe de reportagem da Veja, meu chefe quando era repórter da revista. Em sua apresentação, Totti disse que nos anos 70 a revista podia ser objeto de muitas críticas, dos enfoques das matérias aos textos. "Mas nunca fomos acusados de mentir".

Definitivamente não sei o que se passa na cabeça de Roberto Civita e do Conselho Editorial da revista. Semana após semana ela se desmoraliza junto aos segmentos de opinião pública que contam, mesmo aqueles que estão do mesmo lado político da publicação. Pode contentar um tipo de leitor classe média pouco informado, que se move pelo efeito manada, não os que efetivamente contam. Mas com o tempo tende a envergonhar os próprios aliados.

Confesso que poucas vezes na história da mídia houve um processo tão clamoroso de marcha da insensatez, como o que acometeu a revista.

Luis Nassif Online

sábado, 27 de agosto de 2011

Gregório Bezerra, sua luta, sua glória

Por Urariano Mota no Blog do Boitempo


O título acima não é o de um samba-enredo, à semelhança do grande de Mano Décio, Penteado e Estanislau da Silva, em Exaltação a Tiradentes. Neste artigo, o título vem a propósito do livro Memórias, de Gregório Bezerra. Espero mostrar para o leitor por que é difícil obter um tom piano, suave, para falar de um livro que é nervo e coração exposto.  
Surpreende nele agora, como antes, a narração fluida de um homem que se alfabetizou sozinho na idade de 25 anos. Lembro que no Recife, em 1982, eu lhe perguntei como era possível um autor que não podia ser chamado de intelectual (confesso que, para ser sincero, cometi tal grosseria), como era possível ele escrever um livro que se lia com prazer. Então o velho Gregório ensinou a este grosseirão: “A história, quando é bem vivida, a gente sabe contá-la”. E guardei esta lição de literatura e verdade.
Dos vários trechos que anotei, é impossível destacar um. Se pudesse, deveria ser feita uma antologia de páginas desta  autobiografia.  Entre tantas, há linhas que para mim lembram Dickens e a guerra pela vida. Como aqui:
“Cada gazeteiro se considerava dono deste ou daquele setor de venda, desta ou daquela zona, ou até desta ou daquela rua ou praça. Eu não era dono de nada, mas precisava viver e, para viver, tinha de vender jornais, pois não havia outro ganha-pão. Meti a cara e enfrentei os riscos. Uma briga aqui, uns tapas ali, umas tabicadas mais além e assim ia vivendo e lutando pelo pão de cada dia. Era uma vida duríssima. Aos poucos, com muita desvantagem contra mim, ia revidando os insultos, os palavrões, os murros, os tapas, as tabicadas, os chutes e também as pedradas. Desgraçadamente, eu era menor que meus agressores, tinha menos força e menos agilidade do que eles, mas era teimoso, não entregava os pontos e não me dava por vencido. Às vezes, com um só rival, brigava três, quatro vezes, até sentir que tivera algumas vantagens ou que ele desistia definitivamente de me perseguir. Essa minha atitude impôs certo respeito, porque qualquer agressor que me atacasse de antemão sabia que, se me vencesse, eu iria à forra tantas vezes quantas perdesse para ele. Nem sempre eles estavam dispostos a esses embaraços. Para mim, era questão de sobrevivência: ou tomava essa atitude, ou me transformaria para sempre num saco de pancadas – ou então fugia daquela dolorosa profissão”.
Em outros trechos, é comovente, enternecedor o quanto o perigosíssimo incendiário, o indivíduo bravo, era um homem de sensibilidade fina, delicado, um avesso absoluto da grossura e da crueldade. O amor que esse guerreiro possuía pela mãe está entre as páginas cálidas de nossa brasilidade, e a mim me falou particularmente mais de uma vez, por razões íntimas, em capítulos do livro que ando escrevendo.
“Uma vez, à noite, pedi à minha mãe para me pôr na escola; ela me olhou, pôs a mão em minha cabeça… e começou a chorar e a acariciar-me. Arrependido de ter pedido uma coisa impossível, caí no choro por ter feito minha mãe chorar. Ela sentou-me em seu colo e choramos os dois juntos. Jurei comigo mesmo não fazer a minha mãe chorar nunca mais”.
Nesse livro se nota, com séria eloquência, que para Gregório Bezerra o partido comunista era igual ao povo. E o comunismo, para ele, era igual à redenção máxima sobre a humilhação que ele sofreu e viu. Então se entende que para um homem que pensava, respirava e sonhava assim, todas as forças da terra se unem. Não haveria repressão que o destruísse. Como aqui:   
“Nessa altura, fui impedido de falar por uma coronhada no peito e outra na face direita. Caí com os dentes partidos e sangrando pela boca. Os pulsos também sangravam, em conseqüência das algemas. Foi nessas condições que fui conduzido ao general-comandante do IV Exército. Perguntou-me:
- Que estava fazendo na zona canavieira do estado?
- Mobilizando os assalariados agrícolas e a massa camponesa para defender o governo legalmente constituído, para defender a Constituição da República contra o golpe militar realizado a serviço do imperialismo ianque.
- Onde estão os depósitos de armas e munições sob a sua responsabilidade?
- Que depósitos de aramas e munições, senhor general?
- Os que estão em seu poder.
- Não os tenho, senhor general. Se os tivesse, não estaria aqui, em sua presença, não estaria sendo agredido, humilhado e insultado pelos coronéis Ibiapina e Bandeira.
- Onde estaria então?
- Estaria na rua, de armas na mão, junto com as massas…
Ainda no pátio do quartel, estava à minha espera o comandante, o coronel Vilocq. Recebeu-me a golpes de cano de ferro na cabeça, tendo eu por isso desmaiado… A seguir, puseram-me numa cadeira e três sargentos seguraram-me por trás, enquanto Vilocq, com um alicate, ia arrancando meus cabelos. Logo depois, puseram-me de pé e obrigaram-me a pisar numa poça de ácido de bateria. Em poucos segundos, estava com a sola dos pés em carne viva. Toda a pele tinha sido destruída”.              
E o coronel Vilocq partiu para lhe enfiar um ferro no ânus, ao que Gregório, caído, se concentrou para evitar a abjeção. É impressionante como, debaixo de todas as torturas, sempre resistiu nele a vontade de viver, não para esticar por esticar seus dias, mas para servir à luta comunista. No entanto, Memórias,  de Gregório Bezerra, é um livro que não exige qualquer adesão prévia para a ideia socialista de mundo. Os evangélicos de todas as igrejas,  os espíritas, os católicos, os catimbozeiros, os torcedores de todos os times, homens, mulheres e jovens ganham na sua leitura o conhecimento do quanto é capaz o amor de um homem por seu povo.
Penso que agora entendem porque, enquanto escrevia estas anotações, não cansava de repetir o samba de Mano Décio, no Exaltação a Tiradentes:
“Este grande herói para sempre há de ser lembrado”.     

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Jornalismo laico: Depois da Guerra Fria, a Guerra Santa

Por Alberto Dines em 23/08/2011 na edição 656 do Observatório de Imprensa.


A questão religiosa está nas manchetes, capas, telinhas e monitores da mídia mundial. Há mais tempo, com mais destaque e mais espaço do que a crise econômica mundial (formalmente iniciada em setembro de 2008) e os conflitos bélicos propriamente ditos.



O mapa-múndi contemporâneo é na realidade um registro cartográfico das fogueiras acesas depois da queda do Muro de Berlim. O fogo sagrado inviabiliza o Afeganistão (Ásia Central), divide a dividida Indonésia, inflama o Irã, sangra o Iraque e todo o Oriente Médio (Israel inclusive), espalha-se pelo Magreb, vai ao centro da África, cruza o Mediterrâneo, volta a se aninhar no habitat natural da Península Ibérica, infiltra-se em quase toda a Europa, Países-Baixos, Escandinávia (o Massacre de Oslo foi umpogrom religioso), atravessa o Atlântico e instala-se no sistema linfático dos Estados Unidos. A América Latina não escapa da grande conflagração embora os adversários (católicos e protestantes) identifiquem-se como soldados de Cristo.
Esclarecimento, ponderação
Não se trata de um enfrentamento litúrgico ou teológico, Deus não está em discussão, nem a conquista territorial dos Estados conflagrados como aconteceu na Guerra dos Trinta Anos (1618-1648). O objetivo das cruzadas do século 21 é a conquista dos corações e mentes (mais aqueles do que estas) dentro desses Estados.
O que estamos testemunhando sem perceber não é o “choque de civilizações” como o previu Samuel P. Huntington, mas uma tentativa de paralisar o processo civilizacional que marca a humanidade há alguns milênios. Gigantesca guerrilha política, a primeira no gênero, verdadeiramente global, disfarçada em conflito confessional com o objetivo de trocar o ser humano pleno, soberano, em mero adorador de imagens e rituais.
A consagração da sinistra Michele Bachman, a verdadeira feiticeira de Salem, como líder do Tea Party (ou Hate Party, dá no mesmo) liquida o conservadorismo político americano e obriga os republicanos – todos os republicanos – a se aproximarem de uma forma ou de outra da arcaica Ku-Klux-Klan.
Em Madri, o papa Bento 16 diante da maior concentração religiosa na história do país adverte energicamente aos jovens que foram ouvi-lo na Jornada Mundial da Juventude que só existem duas opções de vida: casar-se ou ingressar em conventos. Sua Santidade não explicou o que devem fazer aqueles que não querem ou não podem se casar e os que recusam encarcerar-se numa ordem religiosa. Suicidar-se ou cair na gandaia?
As Organizações Globo declaram-se laicas em seus Princípios Editoriais, mas não conseguiram cobrir – de forma isenta ou engajada – o que se passou na Espanha antes, durante e depois da visita do papa. Apenas a Folha de S.Paulo, nos minguados espaços entre colunas assinadas e anúncios de imóveis, ofereceu uma pálida idéia das manifestações em defesa do Estado secular na Espanha.
Laicismo não é sinônimo de omissão. Jornalismo laico é obrigatoriamente esclarecedor, ponderado, ajuizado. Sobretudo tolerante. Defender o Estado secular não significa investir contra as religiões ou crenças, queimar templos, livros sagrados ou desrespeitar devoções. Significa apenas defender o Estado de Direito democrático e isonômico.
Mais luz
O mundo maometano fragmenta-se irremediavelmente: a divisão entre xiitas e sunitas ultrapassou a rivalidade entre seitas e dinastias que conflitam há 1.500 anos. Gerou um processo incontrolável de disputas e fragmentações menores que, longe de pacificar o Islã para fortalecê-lo, sangra-o em batalhas fratricidas perenes. O Islã surgiu como um processo conciliador – isso precisa ser mostrado ao leitor, ouvinte, telespectador.
O Estado de Israel foi criado a despeito da oposição da maioria dos religiosos ortodoxos que só admitiam a Redenção pelas mãos do Messias. O fundamentalismo religioso judaico está corroendo não apenas os fundamentos da democracia israelense como os do próprio sionismo. Nas comunidades judaicas da Diáspora o apoio aos governos de Israel deixou de ser automático, natural. Isto é bom para revitalizar os fundamentos éticos e culturais do judaísmo. E quem O Globo designa para opinar sobre o Oriente Médio na sua nobre página de opinião? O cônsul honorário de Israel no Rio de Janeiro, religioso, declaradamente de direita.
Os movimentos desta Guerra Santa Mundial precisam ser detectados e explicados, senão nas apressadas edições diárias, pelo menos nos fins de semana. O jornalismo impresso entrou em decadência porque voluntariamente abriu mãos das suas vantagens intrínsecas.
Um jornalismo laico como o preconizado nas diretrizes das Organizações Globo pede mais luzes, mesmo que hoje o Iluminismo seja confundido com uma marca de lâmpadas.