sábado, 30 de julho de 2011

Uma história do Pescoço

 Pescoço, Antonio Moreira, Nilson Miranda (de costa) e José Reis
Para o garçom Pescoço, do extinto Restaurante Gracy, um dos fregueses mais chatos era um empresário bem sucedido e arrogante. Quando queria ser atendido, sentava nas mesas centrais e cometia a heresia de tratar Pescoço como garçom, como se fosse um desconhecido. Pescoço gostava da intimidade, que lhe permitia fazer o tipo rude que o tornara famoso.

O dito empresário entrou em falência dos seus negócios e sumiu por uns tempos. Anos depois, voltou ao comércio, mas agora como pequeno empreendedor. Certa noite ele chegou ao Gracy e procurou a mesa mais escondida, sentou e quando Pescoço se aproximou, ele humildemente disse:

- Pescoço, arranja pra mim uma macarronada simples e me ajude com um pãozinho.

Para quem não conheceu o Gracy, a macarronada simples era a mais barata e o prato se reduzia ao macarrão com molho, a famosa “coitadinha”. Quanto ao pão, que era cobrado por fora, dependia do garçom fazer a gentileza de trazer um pedaço sem cobrar. A pior parte do pão eram os cotovelos, que normalmente eram jogados fora por serem duros.
Parque Rodolfo Lins e o Gracy nos anos 40

Pescoço, percebendo que o antigo freguês estava passando por momentos de fragilidade financeira, resolveu se vingar da sua arrogância, que no passado tanto o humilhara. Sem se afastar da mesa, gritou para o balcão e para o resto do Gracy:

- Salta uma “coitadinha” e duas cutuvas para o cidadão aqui, que ele está a perigo.

Nesse dia, teve gente que jurou ver um ar de riso no rosto do Pescoço.

sábado, 23 de julho de 2011

Por que as elites alagoanas fazem questão de silenciar o período do governo Muniz Falcão?

O texto abaixo já foi publicado em 2007, mas acredito que ele será sempre atual. Alberto Saldanha nos ajuda a entender o que é Alagoas e suas relações políticas.

Deputados, com armas sob as capas, chegam à Assembleia
para votarem o impeachment em 13 de setembro de 1957
Alberto Saldanha
Doutor em História e Professor da UFAL

Sob uma ótica superficial, a resposta parece estar no fato de que importantes lideranças, Arnon de Mello, Teotônio Vilela, Rui Palmeira, Lamenha Filho, Afrânio Lages, Oséas Cardoso, entre outros, inconformadas com o resultado das urnas, estiveram envolvidas na geração da crise política, cujo objetivo era tirar Muniz Falcão do Governo de Alagoas e que teve como ponto alto o tiroteio do dia 13 de setembro de 1957, na Assembléia Legislativa.

No entanto, as razões mais profundas se dirigem para outro fato: Muniz Falcão foi o governador que representou, em terras caetés, o projeto nacional-trabalhista construído durante as décadas de 40 e 60. A força desse projeto se encontrava no binômio desenvolvimento econômico e inclusão social, particularmente no que se referia a direitos sociais para os trabalhadores.

Por isso, o contexto alagoano guarda íntima ligação com o cenário nacional. Atacar “os tais populistas” (Juscelino Kubitschek, Presidente da República e Muniz Falcão, Governador) era a tônica daqueles que não aceitavam a derrota nas urnas. Reunidos na sua maioria na União Democrática Nacional – UDN acreditavam que o povo só poderia ter sido enganado para não ter percebido a justeza de suas propostas.

Na realidade, a tática política de desqualificar o adversário chamando-o de “populista” escondia o desprezo pelo povo e a incapacidade de responder a pergunta: por que os trabalhadores manifestaram apoio a Getúlio Vargas durante o Estado Novo e quais as razões que os levaram, após 1945, a apoiar os líderes trabalhistas e a votar no PTB? Possuidores de uma visão elitista sobre a política não percebiam a força do trabalhismo com seu programa de defesa da soberania nacional e da justiça social.
Alberto Saldanha

Ao se considerar o passado escravista e as dificuldades para estabelecer a legislação trabalhista numa sociedade agrária como a alagoana, é que se entende os desafios enfrentados por Muniz Falcão. Chamado de “forasteiro”, por não pertencer às famílias tradicionais do Estado (nasceu em Araripina, Pernambuco), como Delegado Regional do Trabalho durante o governo Vargas no Estado Novo, se deparou com a “mentalidade” do mundo do açúcar e ao mesmo tempo aprofundou o vínculo com o universo dos trabalhadores. Com o início do período democrático, pós-1945, Muniz desencadeia uma ascensão eleitoral e passa de deputado a governador, tendo como lemas principais a defesa dos direitos dos trabalhadores e do planejamento estatal para enfrentar as desigualdades econômicas e sociais de Alagoas.

 A crise política produzida por seus adversários, que resulta no pedido de impeachment, não se ampara no suposto “clima de violência” vivido na época, mas na ousadia de Muniz em taxar os setores produtivos para investir em áreas sociais e na sua convicção democrática quanto ao direito à organização por parte dos trabalhadores.

Diante da repercussão negativa que o tiroteio na Assembléia trouxe, episódio demonstrativo da forma “civilizada” que a elite alagoana entende a democracia, a historiografia oficial tratou de esconder as fontes, os fatos e a reflexão sobre o período. Isso só começou a ser superado com o livro “A Tragédia do Populismo: o impeachment de Muniz Falcão”, de Douglas Apratto. Entretanto, mesmo com a porta aberta pela reflexão de Apratto, a tática de produzir o “esquecimento” parece persistir.

Nessa disputa pela memória dos acontecimentos que envolvem a crise política do dia 13 de setembro de 1957, não se pode esquecer que, posteriormente, pelo voto popular, Muniz Falcão foi eleito Governador de Alagoas em 1965 e que, sob pressão do Regime Militar, a Assembléia Legislativa, composta pela mesma elite, não referendou o resultado eleitoral rasgando a Constituição Estadual, sob a argumentação de que Muniz não obteve a maioria absoluta dos votos.

Com a reavaliação que a historiografia brasileira vem desenvolvendo a respeito daquilo que se convencionou chamar de “populismo”, é possível redimensionar o significado do nacional-trabalhismo na constituição da identidade dos trabalhadores brasileiros e, em particular, a importância do Governo Muniz na sociedade alagoana. 

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Fifa testará diversos sistemas tecnológicos para detecção de gol

AE-AP - Agência Estado

ZURIQUE - A Fifa anunciou nesta quinta-feira que nove sistemas tecnológicos para detectar quando a bola ultrapassa a linha do gol vão ser testados para que possam ser utilizados nas partidas de futebol. A associação não identificou os candidatos, todos da Europa, que serão examinados entre setembro e dezembro pelo Laboratório Federal Suíço de Material Científico e Tecnológico.

A Fifa e a International Football Association Board, responsável pelas regras do futebol, vão analisar os resultados em Londres em março e convidar os melhores sistemas para uma segunda rodada de testes. "Cada tecnologia da respectiva empresa será analisada através de uma ampla série de critérios, tanto em condições de luz do dia como com iluminação artificial", disse a Fifa em um comunicado oficial.

O painel da International Board, composto por dirigentes da Fifa e das quatro associações britânicas, pode aprovar sistemas bem sucedidos em uma reunião agendada para julho de 2011. Primeiro os nove candidatos devem mostrar sua tecnologia de "reconhecimento de chutes a gol, com 100% de precisão exigida, bem como testes de precisão dinâmica e estática com 90% de exatidão na primeira fase".

A Fifa também exige que o árbitro deva saber dentro de um segundo se um gol foi marcado. A mensagem precisa ser retransmitida "com vibração e um sinal visual necessário para ser enviado para que o árbitro veja. Esta indicação deve ser recebida onde quer que o árbitro esteja posicionado no campo de jogo, ou dentro das áreas técnicas", disse.

Presidente da Fifa, Joseph Blatter deixou de lado sua oposição aos testes depois que a Inglaterra não teve validado um gol na sua derrota para a Alemanha nas oitavas de final da Copa do Mundo de 2010. Blatter disse que a tecnologia poderia ser usada no Mundial de 2014, no Brasil, embora esse plano tenha a oposição de Michel Platini, presidente da Uefa. O francês prefere usar árbitros assistentes adicionais ao lado de cada gol.

Nove sistemas foram testados anteriormente na sede da Fifa, antes da reunião anual da International Board em março, mas não possuíam a precisão necessária. A Hawk-Eye, empresa comprada pela Sony em março, cuja tecnologia é utilizada em partidas de tênis e críquete para lances duvidosos, se recusou a participar porque o seu sistema usa câmeras que precisariam ser instaladas nos estádios.

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Professor de nível superior tem que ter mestrado, determina Ministro da Educação

O governo federal já tem posição firmada sobre o Projeto de Lei 220/2010, que tramita no Senado e pretende dispensar a obrigatoriedade de mestrado e doutorado como exigência para professores de universidades.

Em nota divulgada na terça-feira, 12, o ministro da Educação, Fernando Haddad, afirmou que é contrário ao projeto e que a presidenta da República, Dilma Rousseff, também não concordaria com o fim das atuais exigências da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB).

A LDB estabelece que para ser professor universitário seja exigido o diploma de pós-graduação: especialização, mestrado ou doutorado. Se aprovada, a proposta vai permitir que as instituições públicas e privadas contratem, em regime temporário, professores que tenham apenas o diploma de graduação.

Contrariando os argumentos dos defensores do projeto, que identificam a existência de déficit de profissionais, o MEC informa que, anualmente, o Brasil forma 50 mil novos mestres e doutores. O quadro atual aponta que 56% dos professores universitários são pós-graduados e a meta do Plano Nacional de Educação (PNE) é chegar a 75%.

A reação mais contundente ao projeto de lei veio da Federação dos Professores do Estado de São Paulo, que também divulgou denunciando os empresários do ensino privado, “que nunca dormem no ponto, (e) viram na proposta uma grande oportunidade para flexibilizar as regras de contratação em todos os cursos da rede privada. Para tanto, tiveram o apoio do senador Álvaro Dias (PSDB/PR), relator da proposta na Comissão de Educação”.

O projeto está na pauta do plenário na primeira sessão deliberativa após o recesso, no dia 2 de agosto. Se aprovada no Senado, a proposta segue para análise na Câmara dos Deputados.

sábado, 16 de julho de 2011

O discurso dos olhares: uma mostra de fotografias

Durante uma campanha eleitoral, não só os candidatos discursam.  Aparentemente passivo, o eleitor vai ouvindo e o que assimila expressa no rosto, no olhar.

Como num jogo de adivinhação, o candidato tenta descobrir se está sendo aceito ou rejeitado. Do outro lado, o eleitor pode ser honesto nas suas expressões ou dissimular, por conveniência.

Na última campanha eleitoral (2010), acompanhei alguns candidatos nas suas andanças pelo interior do estado de Alagoas e resolvi fotografar o outro lado da platéia, não como multidão, mas como indivíduos que também tinham o que falar.

O resultado foram dezenas de fotografias, que depois de selecionadas já foram expostas no Congresso Acadêmico do Cesmac e na Fits. Agora criei coragem para mostrá-las também num blog. Não sei se é o melhor meio para uma mostra de fotos, mas vale a pena arriscar.













sexta-feira, 15 de julho de 2011

Os Otavinhos



Emir Sader


Os otavinhos são personagens típicos do neoliberalismo. Precisam do desencanto da esquerda, para tentar impor a ideia do tango Cambalache: Nada é melhor tudo é igual.

Os otavinhos são jovens de idade, mas envelhecem rapidamente. Passam do ceticismo – todo projeto de transformação deu errado, tudo é ruim, todo tempo passado foi melhor, a política é por natureza corrupta - ao cinismo –quanto menos Estado, melhor, quanto mais mercado, melhor.

São tucanos, seu ídolo é o FHC, seu sonho era fazer chegar o Serra – a quem não respeitam, mas que lhes seria muito funcional – à presidência. Vivem agora a ressaca de outra derrota, em barzinhos da Vila Madalena. 

Tem ódio ao povo e a tudo o que cheira povo – popular, sindicatos, Lula, trabalhadores, PT, MST, CUT, esquerda, samba, carnaval.

Se consideram a elite iluminada de um país que não os compreende. Os otavinhos são medíocres e ignorantes, mas se consideram gênios. Uns otavinhos acham isso de si e dos outros otavinhos.

Só leem banalidades – Veja, Caras, etc. -, mas citam muito. Tem inveja dos intelectuais, da vida universitária, do mundo teórico, que sempre tratam de denegrir. Tem sentimento de inferioridade em relação aos intelectuais, que fazem a carreira que eles não conseguiram.

São financiados por bancos da família ou outras entidades afins, para ter jornais, revistas, editoras, fazer cinema, organizar festivais literários elitistas. 

Fingem que gostam da França, mas são chegados a Miami.

Ficaram para trás com a internet, então abominam, como conservadores, reacionários idosos que é sua cabeça.

Se reúnem para reclamar do mundo e da sua decadência precoce.

Os otavinhos não tem caráter e por isso se dedicam a tentar denegrir a reputações dos que mantem valores e coerência, para tentar demonstrar que todo mundo é sem caráter, como eles. 

Os otavinhos assumem o movimento de 1932, acham que São Paulo é a “locomotiva da nação”, que é uma ilha de civilização cercada de bárbaros por todos os lados. Os otavinhos detestam o Brasil, odeiam o Rio, a Bahia, o Nordeste. Odeiam o povo de São Paulo, querem se apropriar de São Paulo com seu espírito de elite.

Os otavinhos moram ou ambicionam morar nos Jardins e acham que o Brasil seria civilizado quando tudo fosse como nos Jardins.

Os otavinhos nunca leram FHC, não entendem nada do que ele fala, mas o consideram o maior intelectual brasileiro.

Os otavinhos são órfãos da guerra fria, da ditadura e do FHC. Andam olhando pra baixo, tristes, depressivos, infelizes.

Os otavinhos compram todas as revistas culturais, colocam no banco detrás do carro e não lêem nenhuma. Lêem a Veja e Caras.

Os otavinhos acham que a ditadura foi um mal momento, uma ditabranda.

Os otavinhos são deprimidos, depressivos, derrotados, desmoralizados, rancoroso, escrevem com o fígado. Os otavinhos têm úlcera na alma.

Os otavinhos odeiam o Brasil, mas pretendem falar em nome do Brasil, para denegri-lo, promover a baixa estima. Os otavinhos pertencem ao passado, mas insistem em sobreviver. 

quarta-feira, 13 de julho de 2011

O abandono das praças centrais de Maceió: um resgate fotográfico

Edberto Ticianeli

As praças de Maceió já foram locais aprazíveis de reuniões e encontros. Durante o dia era palco para os negócios e a política, e à noite, o domínio era da convivência social. Nada disso mais acontece nas nossas praças. É verdade que no período noturno nem as ruas são mais seguras. Mas, isso não justifica a situação de abandono da maioria delas.

Como define a engenheira florestal Alessandra Teixeira Silva, “As praças são unidades urbanísticas fundamentais para a vida urbana e o seu modo de tratamento e uso indicam o nível de civilidade de seus usuários e o exercício dos direitos e deveres de cidadania nela vivenciados”.

Conclusão: pelas nossas praças, vivemos na barbárie. A que mais chama a atenção é a Praça Sinimbu. Cercada de importantes equipamentos urbanos, principalmente os culturais (Espaço Cultural da UFAL, Casa Jorge de Lima e Museu Theo Brandão), foi lentamente transformada em acampamento permanente dos Sem Terra, da feira de carros usados e, ultimamente, de barracas de artesanato. Sempre adornada por matagais e lixo.

Mas nem sempre foi assim. Antes do prédio construído pela UFAL, quem dominava a arquitetura local eram os prédios da extinta Companhia Força e Luz Nordeste do Brasil e do Liceu de Artes e Ofícios. O coreto e seus jardins iluminados eram atrações para todos.

Praça Sinimbu na década de 20



















A Praça Deodoro também já teve seus dias de glória. Cercada por prédios históricos, era o principal ponto de encontro das famílias de Maceió. Ainda na década de 60, podia-se ver os casais circularem a praça de braços dados, antes de tomarem um sorvete na Gut-Gut.  

Praça Deodoro na década de 1950



















O quase já esquecido Parque Rodolfo Lins, na Levada, foi reduzido a um terminal de ônibus que teima em ser chamado de Praça do Pirulito. A sua parte mais larga foi transformada, nos anos 60, na Feira dos Camelôs. Antes disso, a praça fazia parte de uma das mais importantes áreas da cidade, por sua importância econômica. Ficava próxima ao Porto da Levada, na Lagoa Mundaú, que também funcionava como aeroporto (hidroaviões), e era o ponto de entrada e saída de todo o comércio com a Grande Maceió lacustre.

O Parque Rodolfo Lins era cercado por bons restaurantes e por um cinema. Também abrigava as festas natalinas e os grandes comícios políticos da cidade. Hoje, só tem seu nome lembrado quando se discute a interminável novela do VLT (Veículo Leve sobre Trilho).

Parque Rodolfo Lins nos anos 40, ainda com o Restaurante Gracy




















A Praça dos Martírios, mesmo tendo o privilégio de conviver com a segurança do palácio que até recentemente foi sede do governo estadual, também hospeda, durante a noite, várias famílias dos chamados Sem Teto.  Sua arquitetura sofreu muitas alterações, mas sempre mantendo a sua fonte luminosa, que não funciona há muito tempo.

Praça dos Martírios nos anos 50, ainda sem a fonte luminosa

















Outras praças centrais da cidade, como a Rosa da Fonseca e a da Cadeia, deram lugar a novos equipamentos. A primeira foi incorporada ao Bar do Chopp e a segunda divide um estacionamento com barracas de camelôs.

Praça Dona Rosa da Fonseca em 1921, antes de ser engolida pelo Bar do Chopp














Praça da Cadeia em 1960, com sua quadra de esportes e a cadeia


















A Praça do Montepio dos Artistas, antiga Bráulio Cavalcante, foi reduzida a um banheiro público e ao comércio de lanches. A Praça Zumbi dos Palmares, que hoje não passa de um amontoado de barracas, já foi conhecida como a Boca da Cidade e dividia o cartão postal de Maceió com o Hotel Bela Vista.

Praça do Montepio nos anos 50















Praça dos Palmares nos anos 50, ainda com o Hotel Bela Vista


















Por último, a Praça Dom Pedro II, que guarda um dos mais ricos sítios arquitetônicos da capital, também cede seus espaços para o estacionamento da Assembleia Legislativa, barracas e grades que isolam o poder do povo. Mas, em outras épocas, acreditem, já recebeu um tratamento de praça.

Praça D. Pedro II nos anos 50

















Mesmo que as fotos nos remetam a momentos nostálgicos, temos que lembrar que a Maceió de antigamente, ficou no antigamente. A questão que se coloca é: que tipo de praça deve ter a Maceió dos nossos dias. Não tenho respostas, mas o que não pode acontecer é a naturalização do abandono. 

terça-feira, 12 de julho de 2011

"Se dependesse da Globo, eu estaria morta"


Por Maria Luisa de Melo, no Jornal do Brasil:

“Se dependesse da TV Globo, eu estaria morta”. A declaração da jornalista Cristina Guimarães – vencedora do Prêmio Esso em 2001, junto com Tim Lopes, pela série ‘Feira das drogas’ – promete causar polêmica e agitar os bastidores do caso que ficou conhecido em todo o país. De volta ao Brasil após passar oito anos se escondendo de traficantes da Rocinha, que ameaçavam matá-la depois de reportagem veiculada no Jornal Nacional, ela conta em livro como a TV Globo lhe virou as costas e garante que o jornalista poderia estar vivo se a emissora tivesse dado atenção às ameaças recebidas.

De acordo com Cristina, sete meses antes de Tim ser morto por traficantes do Complexo do Alemão, ela entrou com uma ação judicial de rescisão indireta, na qual reclamava da falta de segurança para jornalistas da emissora. As denúncias integram o livro que está sendo escrito por Cristina e deve ser lançado nos Estados Unidos, no início do próximo ano. A obra, segundo a jornalista e publicitária, também deve virar filme.

“Não dava para escrever meu livro no Brasil. Aqui a Globo ainda tem uma influência muito forte e a obra poderia ser abafada de alguma maneira. Com o apoio do governo americano, fica mais fácil lançar nos EUA”, pondera.

O que motivou as suas denúncias de omissão contra a TV Globo na Justiça?

Os traficantes da Rocinha ofereciam R$ 20 mil pela minha cabeça. Pedi ajuda à TV Globo e fui ignorada.

Trabalhei durante 12 anos na TV Globo. Em 2001, estava fazendo produção para o Jornal Nacional junto com o Tim Lopes. Produzíamos as matérias de jornalismo investigativo do telejornal. Quando o Tim trouxe o material da feira de drogas ao ar livre na Favela da Grota (Complexo do Alemão), a chefia de reportagem me chamou e perguntou se eu conhecia outras feiras deste tipo. Respondi que na Rocinha e na Mangueira o mesmo acontecia e a chefia do JN me pediu para fazer imagens lá. Fui três vezes à Rocinha e duas à Mangueira, para conseguir um bom material. Na primeira vez que estive nos dois lugares, reclamaram que as imagens não estavam boas e exigiram que eu voltasse até o material estar com boa qualidade. O grande problema começou um mês depois da exibição da série. Comecei a ser duramente ameaçada por traficantes, sem nenhum respaldo da emissora, e decidi ingressar com uma ação judicial pedindo segurança.

Tim Lopes foi morto sete meses depois de Cristina denunciar os riscos à emissora.

Quando começaram as ameaças de traficantes?

Por volta de um mês depois da exibição das matérias, começaram a me telefonar de um orelhão que fica dentro da Favela da Rocinha me chamando de ‘Dona Ferrada’ e dizendo que me pegariam. Diziam também que eu não escaparia, era questão de tempo. Diante das constantes ligações, conversei com a chefia do JN e pedi proteção. Fui ignorada. Dias depois, sequestraram um produtor do Esporte Espetacular, o levaram para um barraco na Rocinha. Bateram muito no coitado. Os traficantes queriam saber se ele sabia quem tinha ido à favela fazer as imagens, mas o produtor não sabia. Era de uma editoria diferente da minha e realmente não sabia. O que me assustou foi que a TV Globo não me falou nada. Eu estava voltando de um mês de férias e soube do episódio pela Folha de S. Paulo. Quiseram abafar as ameaças e a ligação entre os dois casos: as ameaças feitas contra mim e o sequestro do Carlos Alberto de Carvalho. O episódio me deixou ainda mais assustada, porque aí eu tive a certeza de que não podia contar com a emissora para nada. Procurei a polícia, registrei o caso na 10ª DP (Gávea), mas acho que sentaram em cima do processo. Na verdade, devem estar esperando para ouvir a outra parte – os traficantes. (risos).

Então, com a denúncia à polícia as ameaças não pararam? 

Muito pelo contrário. A coisa corria solta e ninguém fazia absolutamente nada. Mas o que tirou meu sono foi quando prenderam um garoto da Rocinha que pagava propina a um coronel. Fui cobrir o caso e me desesperei. Ao encontrar o moleque detido, ele olhou bem para mim e disse ‘É, tia! Eu tô ferrado, mas tu também tá. Tá todo mundo atrás de você lá na Rocinha. Tua cabeça tá valendo R$ 20 mil’. Naquele momento, tomei a dimensão da situação em que eu me encontrava. Ele descreveu a roupa que eu usava quando ia à favela fazer as imagens. Todo o meu disfarce: meu boné surrado, a bermuda, a cor da camiseta.

Com o processo você conseguiu desligamento da TV Globo?

Sim. Por meio da ação judicial que emplaquei no Ministério do Trabalho, meu vínculo com a TV Globo acabou. Sinceramente, hoje eu tenho mais medo da TV Globo do que dos traficantes. O traficante pode te ameaçar e ser violento. No entanto, ele avisa e depois cumpre. A TV Globo é traiçoeira. Enquanto você é subordinado e faz o que te pedem, você é bonzinho. Já quando você questiona os riscos que ela te impõe e se nega a fazer alguma coisa por temer pela sua própria vida, você é tachado de louco. Traficantes me parecem mais confiáveis.

Você acha que estaria morta se não tivesse travado uma briga judicial com a TV Globo para não ser mais obrigada a produzir matérias que colocassem sua vida em jogo?

Já estaria morta há muito tempo. A Globo não quis saber se eu corria risco de vida. Os meus chefes diziam que as ameaças que eu recebia por telefone eram coisas da minha cabeça. Não me arrependo de ter largado a Globo para trás. A minha vida vale muito mais do que R$ 3.100, que era o meu salário em 2001.

A morte do Tim poderia ter sido evitada pela emissora?

Sem dúvida nenhuma. Eu falei sobre os riscos que estávamos correndo sete meses antes de os traficantes do Alemão matarem o Tim Lopes. Eu implorei por atenção a estas ameaças e o que fez a TV Globo? Ignorou tudo. Sete meses depois, eles pegaram o Tim. Na ocasião do Prêmio Esso, antes de o Tim ser morto, eu liguei para ele e o alertei sobre os riscos de ter exposto seu rosto nos jornais. Na nossa profissão, é preciso ter muito cuidado para mostrar a cara. É muita ingenuidade achar que traficante não assiste TV e não lê jornal.

Procurada pela reportagem do Jornal do Brasil, a assessoria da Rede Globo não retornou às solicitações para esclarecimento das acusações desta matéria.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

O galo gago

Olímpio Fonseca era um desses tipos sertanejos que conseguem se sobressair no seu meio por esperteza, no bom sentido. No início dos anos 70, ele veio de Pão de Açúcar para Maceió acompanhando seu tio Américo Fonseca. Foram contratados por meu pai, Gilberto Soares Pinto, para ajudá-lo na construção de um galpão na Rua da Assembléia, no bairro de Ponta Grossa.

Como resultado da não especialização dos dois, ou melhor, dos três, na arte de construir, a obra não andava. Comunista e péssimo patrão, meu pai mandava fazer e desaparecia; Américo trabalhava muito e fazia errado; e Olímpio, que olhava e conversava, passava o tempo todo a dizer que Américo era burro e que não sabia nada da profissão.

Como o patrão sempre estava ausente, Olímpio exagerava em demonstrar que não era um homem afeito ao trabalho braçal. Chegava tarde e resmungando, mesmo morando numa vila em frente à obra. Gilberto perdeu a paciência e chamou o seu ajudante para uma conversa.

— Ô Olímpio, o que está acontecendo? O Américo me disse que você está chegando muito tarde ao trabalho —, cobrou meu pai.

— O problema, “seu” Gilberto, é que eu não tenho conseguido dormir direito. Eu trouxe de Pão de Açúcar um danado de um galo, e o “fio da peste” começa a cantar às duas horas da manhã. E é um canto todo engasgado. Não há quem durma.

— Você sabe por que o galo está cantando tão cedo? — tentou ajudar o patrão.

— Não!

— Eu vou explicar. É porque no sertão ele só canta quando começa a clarear, com o sol nascendo, e em Maceió, com as luzes acesas nos postes das ruas, ele pensa que é a claridade do dia e começa a cantar.

— Mas “seu” Gilberto, isso é verdade mesmo. Olhe... nada como conversar com uma pessoa mais instruída do que a gente para entender as coisas. Digo mais, agora também começa a fazer sentido o estranho canto do bicho.

— Como assim? — perguntou Gilberto, já desconfiado que Olímpio tava debochando dele.

— Eu notei que a luz do poste da entrada da vila está com defeito e fica piscando. Acende... demora um pouquinho... e apaga.

— E daí?

— Não entendeu? O galo foi se orientar com a luz e com o escuro, com a luz e com o escuro, como o senhor disse, e ficou gago. E o senhor sabe, né? Não há quem durma com um galo gago no pé do ouvido, né?

Para o bem da classe operária, foi demitido sumariamente. 

Senado vai aprovar a exigência do diploma para jornalista



As informações sobre a PEC 33/09, que restabelece a exigência do diploma para jornalista, indicam que o Senado deve mesmo aprová-la.

A boa notícia é que o Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), em sua última sessão plenária (04), aprovou o apoio à Proposta de Emenda à Constituição (PEC), atendendo a um pedido do presidente da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), Celso Augusto Schröder.

Mas a melhor informação vem do placar da Fenaj, que publica a intenção de voto dos senadores. Os dados de hoje (7), indicam que somente os senadores Aloysio Nunes Ferreira (PSDB/SP), Demóstenes Torres (DEM/GO), Fernando Collor (PTB/AL), Jorge Viana (PT/AC), Marta Suplicy (PT/SP) e Roberto Requião (PMDB/PR) vão votar contra a PEC 33/09.

Pedro Taques (PDT/MT), que se declarou em dúvida, e o suplente de Itamar Franco, Zezé Perrella (PDT/MG), são os dois votos indefinidos. Os outros 73 senadores já declararam que vão aprovar a PEC. Agora é esperar que o projeto entre em pauta. 

quarta-feira, 6 de julho de 2011

A Reforma Política vai reformar muito pouco


A decisão tomada hoje (6) pela Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJ) do Senado derrota a já acanhada reforma política. Pelo menos atinge as alterações que mais causariam impacto no atual modelo eleitoral: a votação em lista fechada e o “distritão”.

Na lista fechada, os eleitores votam no partido, que previamente já ordenou os seus candidatos. Se o partido conquistar, por exemplo, três vagas, elas serão dos três primeiros da lista. No “distritão”, os mais votados individualmente serão os eleitos, independente dos coeficientes alcançados por seus partidos.

A lista fechada não é exatamente uma novidade. Quando o eleitor votou na última eleição, por exemplo, no candidato número 13500, ele votou na legenda 13 (PT) e no candidato a deputado estadual de número 500 (Judson Cabral). Mas, quando ele votou somente na legenda 13, não escolheu nenhum candidato e votou na lista que foi ordenada pelos outros eleitores. Na proposta derrotada, essa tarefa seria de incumbência dos partidos.

A votação em lista fechada fortalece os partidos, principalmente os grupos que controlam as instâncias de decisão. Aconteceriam prévias eleitorais somente para os filiados e as disputas eleitorais internas, pelas cabeças das listas, poderiam levar ao crescimento dos partidos ou destruí-los, consumidos em lutas autofágicas.

O “distritão”, se aprovado fosse, seria uma aberração. Na prática teríamos candidaturas avulsas e partidos enfraquecidos. Quem defende essa forma de voto majoritário, justifica com o argumento de que isso impediria a eleição de candidatos sem representatividade, que aproveitam os mais votados e pegam uma carona na legenda. Esse argumento não resiste ao exemplo Tiririca.

A questão mais importante, sobre a derrota dessas propostas na Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJ) do Senado, é que a sociedade não se envolveu nesse debate. A postura apática pode ser entendida como a manifestação silenciosa de que o eleitor não acredita que vá acontecer reforma política nenhuma que mereça esse nome.

A causa dessa forma de pensar da maioria do povo brasileiro pode estar na concepção de que a política está reduzida ao poder executivo — presidente, governadores e prefeitos. Como muito pouco está se propondo mexer com eles, o eleitor considera o resto como resto.

É o resultado de anos e anos de concentração de poder no executivo. As casas legislativas desistiram de legislar e fiscalizar. A maioria dos deputados e vereadores monta pequenas estruturas para oferecer emprego, educação, saúde e transporte para os seus eleitores e assim sobreviver na política.

Quando um parlamentar reivindica e o executivo realiza a obra, a divulgação acontece como se o construtor fosse o parlamentar, chegando ao cúmulo de parecer que foi realizada com recursos do seu próprio bolso. São raros os que se destacam por criar leis importantes para a sociedade ou por fiscalizar a aplicação dos recursos públicos.

Fortalecer o papel do legislativo, talvez seja essa a reforma política mais importante. Por enquanto, talvez tenhamos o fim das coligações proporcionais e eleições coincidentes, para não dizer que não houve reforma. 

Explicações furadas do TRE de Alagoas


O TRE de Alagoas justificou os tumultos ocorridos durante o recadastramento biométrico dos eleitores como sendo culpa do governo estadual e da prefeitura, que não disponibilizaram prédios e servidores. Reconhece que seriam necessárias 85 máquinas para o recadastramento, que ainda não chegaram por causa da burocracia das licitações.

A pergunta que não quer calar. Como o TRE, sabendo que ainda não disporia de máquinas, pessoal suficiente e prédios, iniciou o recadastramento, com ampla divulgação. A resposta óbvia é que agiram com irresponsabilidade.

O TRE ainda esfrega na cara dos governos estaduais e municipais as suas insensibilidades, pois só forneceram a estrutura após os tumultos. Mas, então, porque o TRE também não divulgou antes dos tumultos que havia insensibilidade por parte de Teo Vilela e Cícero Almeida.

Não serve para nada esse jogo de empurra. Ficou evidente no episódio que a Justiça Eleitoral meteu a mão pelos pés e protagonizou uma trapalhada histórica. O pior é que isso ocorre exatamente num processo de melhoria do sistema eleitoral.

O controle biométrico de acesso ao voto é importante para impedir as últimas possibilidades de fraude desde a adoção das urnas eletrônicas. Sem o controle biométrico ainda há a possibilidade de um eleitor votar no lugar de um faltoso ou falecido.

A esperança é que a situação seja normalizada e que os eleitores voltem a se interessar pelo recadastramento. Torço para que os insatisfeitos e desrespeitados pelos tumultos iniciais, voltem a acreditar na importância de termos um processo eleitoral cada vez mais limpo.

terça-feira, 5 de julho de 2011

A matemática e as filas para recadastramento em Maceió



Não sei como foi o feito o planejamento para o recadastramento biométrico dos eleitores de Maceió, mas posso afirmar que faltaram fazer alguns cálculos simples para se saber que a estrutura montada não iria atender a demanda.

Segundo dados da última eleição, Maceió tem aproximadamente 550 mil eleitores. Se cada eleitor demorar 10 minutos para ser atendido e cada posto funcionar 8 horas diárias, serão gastos aproximadamente 91 mil horas para cadastrar todo mundo. Como de julho a dezembro teremos 127 dias úteis, podemos concluir que serão necessários 90 postos diários de atendimento.

Pela multidão e pelos protestos diários em frente ao fórum, na Av. Fernandes Lima, acredito que esse cálculo não foi feito.

Ao mestre Nunes, com carinho e admiração

Enio Lins – publicado em seu blog na Gazetaweb

Nunes Lima se foi. Ficará eternamente entre nós com sua obra, imorredoura, de meio século em desenhos e crônicas publicadas quase que diariamente.

Meus primeiros desenhos, no começo da década de 60, anos a fio, foram cópias das charges publicadas por Nunes na Gazeta de Alagoas. Além dos exemplares circulantes, creio que a partir dos seis anos, uma tia materna, Eunete (Tia Neta) me presenteou com uma coleção de desenhos dele. As charges eram meticulosamente recortadas Gazeta e coladas com goma arábica numa revista da AABB. Depois o mesmo trabalho continuou a ser feito por minha mãe (Eunizze). De forma que sempre tive a disposição uma considerável coleção dos trabalhos do mestre.

No começo da carreira, nos anos 80, “tirava” as férias do Nunes na Gazeta de Alagoas. Pós-aposentadoria dele fiquei fazendo as charges, nem sempre todo dia. Mas sempre acalentava a ideia de repescá-lo da posição de aposentado, projeto enormemente reforçado depois de um comentário do Plínio Lins onde ele me trouxe a opinião do jornalista Jurandir Queiroz de que o Nunes jamais deveria ter o direito de se aposentar. Em 2005, finalmente, graças a uma decisão do sócio-proprietário da OAM, Fernando Collor de Mello, que reassumia naquele momento o comando das Gazetas, a operação resgate foi executada. E o Nunes regressou, aceitando fazer uma charge por semana, pois argumentava que a saúde não lhe permitia os traços cotidianos de outrora.

Há cerca de dois anos, a saúde dele se deteriorou e seu desenho não pode mais ser feito, efetivamente, como antes. De comum acordo, decidiu-se republicar charges, com ele mesmo contribuindo na prospecção do passado. E assim fomos remando, até domingo.

Nunes Lima é um dos chargistas mais importantes do Brasil. Em todo País ele foi um dos raros profissionais cujos trabalhos foram, ao longo de muitos anos, espontaneamente colados em balcões de bares e restaurantes, paredes e portas de borracharias e oficinas, em espelhos de barbearias. Poucos foram tão populares quanto ele.

Nunes seguia uma escola quase extinta. Talvez ele tenha sido o derradeiro seguidor do grande mestre Carlos Estêvão, mineiro imortalizado pela segunda fase do Amigo da Onça. Esta lista também contempla o criador e desenhista da primeira fase do Amigo da Onça, o pernambucano Péricles. Ambos ambientados no Rio de Janeiro, o mineiro foi além do personagem amoral de bigodinho e gravata borboleta e suas charges sobre o cotidiano das classes médias menos favorecidas (problemas com ônibus, mercado, emprego…) são um testemunho do estilo de vida de amplas camadas de sofredores sociais. Nunes seguiu esse caminho, contraditando a tendência majoritária do foco político.

Nunes, como Carlos Estêvão era, em primeiro lugar, a crítica social, de costumes. Também batia na política, mas essa não era o alvo principal.
Nos trabalhos de Nunes, publicados durante 52 anos na Gazeta de Alagoas está um depoimento forte, profundo, denso da vida do povão. Como ele bem definiu no título de sua coluna de crônicas, ele retratava a vida sem retoques.

A vida sem retoque, seja no traço, seja no texto. Nua e crua, expondo não as dificuldades e os méritos dos menos favorecidos, mas também seus preconceitos, suas cismas, suas falhas.

O mestre se foi. Mas nos lega uma obra memorável, indelével.

Mestre Nunes: Parabéns por tudo que você fez; obrigado por tudo que nos ensinou.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

"Israel se converteu numa sociedade de força e violência"

Gideon Levy - Haertz


Estaremos escutando a nós mesmos? Estaremos ainda conscientes do barulho horrível vindo daqui? Teremos nos dado conta de como o discurso está se tornando mais e mais violento e de como a linguagem da força se tornou quase que a única linguagem oficial de Israel?

Um grupo de ativistas internacionais está disposto a navegar numa flotilha rumo às praias da Faixa de Gaza. Muitos deles são ativistas sociais e lutadores pela paz e pela justiça, veteranos da luta contra o apartheid, contra o colonialismo, contra o imperialismo, contra inúmeras guerras sem sentido e injustiças. Pode-se dizer que a coisa vai ser difícil por aqui, posto que eles já foram catalogados como bandidos.

Há intelectuais, sobreviventes do Holocausto e gente de consciência entre eles. Quando eles lutaram contra o apartheid na África do Sul ou contra a guerra do Vietnam, eles conquistaram admiração por suas ações até mesmo aqui (em Israel). Mas o simples fato de expressar agora uma palavra de admiração sobre essa gente (alguns deles já bastante idosos) que está arriscando suas vidas e investindo seu dinheiro e tempo em uma causa que eles consideram justa é considerado como traição. É possível que algumas pessoas violentas tenham se infiltrado entre eles, mas a vasta maioria é composta de gente de paz, não de odiadores de Israel, e sim de gente que odeia suas injustiças. Eles decidiram não permanecer em silêncio – a desafiar a ordem atual, que é inaceitável para eles, que não pode ser aceitável para nenhuma pessoa de moral.

Sim, eles querem criar uma provocação – a única maneira de chamar a atenção do mundo para a situação de Gaza, sobre a qual ninguém parece se importar a menos que haja foguetes Qassam ou flotilhas. Sim, a situação de Gaza melhorou nos meses recentes, em parte por causa de flotilha anterior. No entanto, Gaza ainda não é livre – longe disso. Ela não tem saída pelo mar ou pelo ar, não há exportações, e seus habitantes vivem ainda parcialmente prisioneiros. Os israelenses que costumam ir à loucura quando o aeroporto internacional Bem Gurion fica fechado por umas duas horas deveriam entender bem o que significa a vida sem um porto. Gaza tem direito a sua liberdade, e aqueles que vão a bordo da flotilha têm o direito de tomar medidas para que isso se torne real. Israel deveria permitir-lhes que se manifestem.

Mas observem como Israel está reagindo. A flotilha foi imediatamente descrita, por todo mundo, como uma ameaça à segurança; seus ativistas foram classificados como inimigos, e não se pôs para nada em dúvida as suposições ridículas lançadas pelos oficiais de segurança e avidamente propaladas pela imprensa. Nem bem se apagaram os ecos da campanha de demonização da flotilha anterior, na qual cidadãos turcos foram injustificadamente assassinados, e a nova campanha já se iniciou. Ela inclui todos os chavões da moda: perigo, substâncias químicas, combates corpo-a-corpo, muçulmanos, turcos, árabes, terroristas e, quem sabe, homens bombas. Sangue, fogo e colunas de fumaça!

A conclusão inevitável é a de que há nada mais que uma maneira de agir contra os passageiros da flotilha: por meio da força, e tão somente pela força, assim como deve ser em cada ameaça à segurança. Este é um padrão repetitivo: primeiro a demonização, a seguir a legitimação do uso da violência. Lembram-se das marteladas invenções sobre o sofisticado armamento iraniano que estava sendo introduzido em Gaza através dos túneis de contrabando de armas; ou aquelas sobre como toda a faixa estava minada? Aí, então, a Operação Chumbo Derretido foi lançada e os soldados de Israel não encontraram nada daquilo.

A atitude em relação à atual flotilha é a continuação do mesmo comportamento. A campanha de táticas de amedrontamento e demonização é o que contribui para a violenta retórica que vem dominando todo o discurso público. E em que mais pensarão os israelenses que vêm sendo constantemente injetados com histórias horripilantes sobre a flotilha, a não ser no uso da força? Aqueles ativistas querem matar os soldados do IDF (exército israelense)? Vamos nos levantar e matá-los primeiro.

Agora os políticos, os generais e os comentaristas estão concorrendo para ver quem fornece a descrição mais tenebrosa da flotilha; para ver quem pode inflamar mais o público; para ver quem louva mais os soldados que irão nos salvar; e para ver quem usará a retórica mais pomposa que se espera antes de uma guerra. Um comentarista importante, Dan Margalit, já se fez poético em sua coluna jornalística: “Abençoadas sejam essa mãos”, ele escreveu em relação com as mãos que sabotaram um dos barcos que iria compor a flotilha. Essa foi outra ação ilegal e bandidesca, mas que conseguiu aprovação imediata por aqui, sem que ninguém perguntasse: Com que direito? 

Esta flotilha também não passará. O primeiro ministro e o ministro da Defesa já nos prometeram isso. Uma vez mais Israel vai mostrar a eles, a esses ativistas, quem é mais homem – quem é mais forte e quem manda no ar, na terra e no mar. As “lições” da flotilha anterior foram bem aprendidas – não as lições sobre matanças inúteis ou sobre a desnecessária tomada do barco com violência, mas as da humilhação da força militar de Israel.

Mas a verdade é que a humilhação real radica no fato de que em primeiro lugar foram empregados comandos navais para interceptar os barcos, e isto é algo que reflete sobre todos nós: de como nos tornamos uma sociedade cuja linguagem é a violência, um país que trata de resolver quase tudo através da força, e somente pela força.

Tradução: Jair de Souza