domingo, 18 de março de 2012

Para Haddad, PSDB é bola de ferro que prende país pelos pés

Em entrevista exclusiva à Carta Maior, Fernando Haddad, pré-candidato petista à prefeitura de São Paulo não subestima o trabalho que terá para tentar romper a hegemonia do PSDB na capital paulista. “São Paulo tem um pensamento conservador muito consolidado (…). Se optar pela renovação, no entanto, irradiará rapidamente essa tendência para o país. O Brasil poderia mais, não fosse a âncora conservadora do PSDB de São Paulo. Tem uma bola de ferro no nosso pé que ainda segura muito o país”.

 
Fernando Haddad 
São Paulo - Estreante nas lides eleitorais, o pré-candidato à prefeitura de São Paulo pelo PT, Fernando Haddad, entra na disputa com as vantagens e desvantagens de ser um nome novo. A vantagem óbvia é não apenas o apoio, mas o comprometimento do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva com sua candidatura – Lula articulou intensamente para que o PT paulistano o assumisse como candidato e será fundamental no processo eleitoral. Isso, o ex-ministro reconhece, é o mais importante. “Lula é (…) uma personalidade que tem a força e a frequência de um cometa, aparece a cada 70 anos”.

Haddad tem também o apoio da presidenta Dilma Rousseff, e muito menos a perder do que o possível candidato do PSDB à prefeitura, José Serra. “A perda dessa eleição, no caso do nosso adversário, seria uma derrota dura”, afirmou Haddad, em entrevista exclusiva à Carta Maior. 

As desvantagens de sua candidatura são óbvias: um nome desconhecido, para ser apresentado ao eleitorado da maior metrópole da América Latina, precisa contar com os meios de comunicação de massa – e o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) subtraiu essa oportunidade do PT, ao punir o partido com a proibição de veicular o horário de propaganda partidária. O PT foi condenado por usar o programa partidário para propaganda eleitoral no ano passado. Os demais partidos terão horário no primeiro semestre; Haddad ficará de fora até o início oficial do horário de propaganda eleitoral gratuita, que começa apenas em agosto.

A outra dificuldade também é a amarração de apoios à sua candidatura. Haddad garante que o único interesse do ex-presidente Lula no apoio à coligação com o PSD foi a filiação de Henrique Meirelles. “Se o Meirelles tivesse ido para o PMDB, o Lula iria atrás”, afirmou. “A hipótese de uma chapa com dois ministros de seu governo o agradava”. Na avaliação do candidato, mais importante do que o apoio do PSD é manter o PT unido em torno de sua candidatura e fechar com os tradicionais aliados petistas – o PSB, o PDT e o PCdoB. A pesquisa eleitoral feita pelo Datafolha, divulgada no início do mês, que o colocou como lanterninha das pesquisas, dificultou as coisas. “As pesquisas foram mais importantes no jogo de barganhas do que propriamente no ânimo das pessoas envolvidas com a minha candidatura”, afirmou. “Aumentou o preço?”, pergunta a repórter. “Não é isso”, responde Haddad, rapidamente. Apenas os partidos postergaram as conversas, deixaram o acordo para depois, diz ele. “Mas nem sempre os apoios levam à vitória”, relativiza.

O pré-candidato petista não subestima o trabalho que terá para tentar romper a hegemonia do PSDB na capital paulista. “São Paulo tem um pensamento conservador muito consolidado (…) que sempre dá peso muito forte para qualquer plataforma do establishment”, analisa. Se optar pela renovação, no entanto, irradiará rapidamente essa tendência para o país. O Brasil poderia mais, não fosse a âncora conservadora do PSDB de São Paulo. “Tem uma bola de ferro no nosso pé que ainda segura muito o país”, concluiu.

Abaixo, a íntegra da entrevista do ex-ministro Fernando Haddad à Carta Maior:

CARTA MAIORO PT assimilou sua candidatura?

FERNANDO HADDAD: Acredito que sim. O processo foi muito bem conduzido e elogiado internamente. É curioso o argumento de que as prévias no PT não ocorreram por pressão. No PT, sempre teve pressão e sempre teve prévias. O Lula já perdeu prévias dentro do PT apoiando um candidato, já ganhou, ele próprio já enfrentou prévias. Isso é da cultura do partido. Óbvio que todo mundo sabe que isso tem consequências, mas ninguém abdica de disputar prévias quando entende ser o caso. A verdade é que, no final do processo, nós contávamos com o apoio da maioria dos militantes. Colhemos mais de 20 mil assinaturas para inscrição, quando eram necessária apenas 3 mil. Nós tínhamos o apoio de 7 dos 11 vereadores. O processo estava muito avançado. 

CARTA MAIORO maior desconforto foi o namoro com o prefeito Gilberto Kassab?

HADDAD: Não chegou a ser namoro porque sequer houve uma aproximação formal. O que houve foram duas ou três conversas com dirigentes do PSD sobre uma remota possibilidade de o partido me apoiar – o que ocorreria se, e somente se, o [José] Serra [PSDB] não saísse e o PSDB se recusasse a apoiar o Afif, que era um cenário pouco provável. Eu sempre disse, desde que o assunto ganhou os jornais, que nós éramos a terceira prioridade do prefeito, que antes vinham o Serra e o Afif, e que a nossa prioridade é outra, são os partidos da base aliada do governo Dilma. Sempre ficou claro que ele [Kassab] iria caminhar para um lado e nós iríamos caminhar por outro. 

CARTA MAIOR: O PT valorizava essa possibilidade, numa estratégia de romper a hegemonia do PSDB junto à classe média conservadora paulistana? 

HADDAD: O interesse no PSD, ao meu ver, tem muito mais a ver com a filiação do [Henrique] Meirelles [ex-presidente do Banco Central], que foi ministro do governo Lula por oito anos. O presidente [ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva] considerou que essa seria uma chapa interessante, complementar. Desde a vitória de 2002, quando compôs a chapa com José de Alencar [empresário e então filiado ao PL], isso sempre contou nas reflexões de Lula sobre a composição de chapa. Ele entendia que o Meirelles tinha um perfil muito interessante. Se Meirelles tivesse se filiado ao PMDB, Lula também iria atrás de uma composição. Nas conversas que tive com o presidente, a hipótese de ter uma chapa com dois ministros de seu governo o agradava. 

CARTA MAIORO Lula, então, não forçou a barra para uma aliança com o PSD?

HADDAD: Não, de forma alguma. Ele até recomendou cautela, com medo de que isso não fosse compreendido. 

CARTA MAIOR: E o apoio dos pré-candidatos do PT que desistiram da prévia?

HADDAD: Acho que é muito importante o partido estar coeso em torno da campanha e nós todos em campo – o presidente Lula, Marta e todos do partido. Mas eu não reduziria a questão a isso. Há um conjunto de problemas a serem enfrentados. Nós fomos muito prejudicados pela questão da TV e praticamente não teremos inserção no primeiro semestre. Todos os outros partidos terão. Isso traz um prejuízo enorme para um estreante, que nunca disputou uma eleição, nunca teve programa de televisão. Nós temos que lidar com isso. 

CARTA MAIORComo?

HADDAD: Nós estamos formulando programa de governo e circulando os bairros para colher subsídios. São dois dias de estudo fora do escritório, nos bairros, e três dias de estudo interno, em que eu recebo técnicos e acadêmicos para colher dados para a elaboração do programa – que, para a minha surpresa está indo bem demais. Acho que nós vamos chegar num diagnóstico e numa formulação para apresentar à cidade que seguramente até maio. 

CARTA MAIORVocê tem um diagnóstico preliminar da cidade?

HADDAD: Acho que os erros cometidos já estão diagnosticados. Por exemplo, no caso dos transportes, é evidente que não houve uma aceleração das obras do Metrô, apesar do aumento de investimento. Houve aumento de custos: o dinheiro adicional só serviu para pagar mais a mesma coisa, os mesmos dois quilômetros todo ano. Todo o sistema de transporte foi relegado a segundo plano: o Metrô está muito aquém do que o de qualquer outra metrópole, houve o abandono do sistema de ônibus e não se tem a compreensão de que São Paulo precisa de um sistema multimodal. E falta parceria com o governo federal. A adesão ao PAC Mobilidade traria muitos recursos para São Paulo, mas se dinheiro não chegou, foi por falta de interesse local. 

CARTA MAIOR: A moradia de baixa renda hoje é um problema?

HADDAD: É um grande problema. São Paulo teve o pior momento nesse quesito. Nunca se produziu tão poucas moradias populares na cidade de São Paulo. Qualquer gestão, de direita ou de esquerda, não importa, produziu mais moradias do que as construídas nos últimos sete anos. Hoje a estimativa é de que 20 mil famílias estejam recebendo Bolsa Aluguel, mas sem perspectiva de casa própria, e logo deixarão de receber esses recursos porque existe um limite a partir do qual, por lei, a cidade não pode continuar pagando. Não há ofertas de moradias populares em São Paulo e a remoção de famílias de moradias precárias, em áreas de manancial e áreas de risco, deveriam ter sido combinadaa com um programa de construção de moradias, como o Minha Casa, Minha Vida. Isso não aconteceu.

CARTA MAIOR: Quais são suas vantagens em relação ao Serra?

HADDAD: Serra não fez uma reflexão sequer sobre a cidade quando disputou a prefeitura de São Paulo. Até porque estava de passagem, ele não se debruçou sobre as questões urbanas. Aliás, ele não tem reflexão sobre as questões urbanas. Como candidato que disputou cinco das últimas seis eleições, acho muito provável que ele tenha pretensões, se eleito, de disputar 2014. Estará de novo de passagem. E a cidade fica sempre como um degrau, um apoio para outras pretensões. São Paulo não suporta mais isso. 

CARTA MAIORA questão é estar de passagem ou capacidade de pensar a longo prazo?

HADDAD: Na verdade, mesmo quando nós levamos em consideração a experiência do Serra no Ministério do Planejamento, nota-se que não se trata de uma pessoa que lida com facilidade com o planejamento. Ele não soube elaborar um plano plurianual. Isso era tarefa dele e quatro anos depois nós tivemos uma restrição de energia elétrica que foi a maior da história do país. Não houve planejamento de longo prazo lá e não haverá cá. Sem planejamento não se muda nada que é estrutural; muda-se a conjuntura, mas não a estrutura das coisas. É só comparar o que foi feito no setor elétrico por ele e pela Dilma [como ministra de Lula]. 

No caso do Plano de Desenvolvimento da Educação, que está até hoje em vigor, fizemos planejamento até 2021. Quando assumi o MEC, no segundo mandato do presidente Lula, lançamos um plano com metas delineadas até 2021 e dificilmente alguém vai revê-lo. Na cidade, não se sabe o que vai acontecer, não sabe sequer o que está acontecendo hoje [dia 5, segunda, início da greve de caminhões que terminou dia 8, quinta]. Durante a gestão de Marta Suplicy, eu trabalhava com [João] Sayad [na secretaria de Finanças]. Começamos a desenhar o que seria São Paulo dali algumas décadas: o sistema de transportes, a questão dos resíduos sólidos, iluminação pública, educação com os CEUS, tudo isso foi pensado estruturalmente, mas muitas dessas coisas foram abortadas a partir de 2004. 

CARTA MAIOR: Como você interpretou a pesquisa Datafolha do início do mês?

HADDAD: Apesar de cientista político e acompanhar até com interesse as pesquisas, não consigo me sensibilizar com elas tanto tempo antes da eleição, sobretudo porque é a minha primeira eleição. Nessas alturas, elas têm muito mais impacto no jogo de barganha (o aliado pergunta, “o que garante que você vai estar bem daqui a seis meses?”) do que propriamente no ânimo das pessoas que estão envolvidas na minha candidatura.

CARTA MAIOR: As pressões aumentaram?

HADDAD: Não há pressão. Apenas as pesquisas postergaram alguns acordos.

CARTA MAIORO preço aumentou?

HADDAD: Não, não é isso. Na verdade, as pesquisas interditam as negociações por mais tempo. É um jogo de adiar, deixar as conversas para depois. Mas, enfim, o PT já concorreu sozinho, já concorreu coligado, já concorreu com chapa pura, já concorreu com um amplo espectro de apoio. E nem sempre o apoio leva à vitória. Em 2002, o presidente Lula não tinha tantos aliados e ganhou as eleições. Compôs depois com outros partidos, porque a democracia tem três turnos: o primeiro, o segundo e o governo. Em algum momento, ou nas eleições ou depois da posse, vai ser preciso fazer um acordo.

CARTA MAIORÉ uma tarefa possível quebrar a hegemonia do PSDB em São Paulo?

HADDAD: Aqui em São Paulo, essa é uma tarefa difícil em qualquer hipótese. Há aqui um pensamento conservador muito consolidado, historicamente saturado, que dá sempre um peso muito forte para qualquer plataforma do establishment. O candidato do establishment sempre vai ter muito apoio. É difícil romper o conjunto de forças midiáticas e econômicas que se une em torno do status quo.

CARTA MAIOR: Qualquer estratégia passaria pela sensibilização de parcela desse eleitorado?

HADDAD: Sim, e se isso acontecer abre-se caminho para a renovação. A conservação e a inovação sempre estão em jogo no Brasil. O governo do presidente Lula foi caracterizado pela inovação – teve erros e acertos, mas sempre inovou, em todas as situações: da política externa à política educacional, da moradia popular à reforma agrária, da política de crédito ao acúmulo de reservas cambiais, enfim, sempre fez coisas diferentes dos seus antecessores. Em São Paulo, o ritmo é sempre o da conservação. A metáfora dos dois quilômetros de metrô por ano dá a medida do que estou dizendo: serão necessários 65 anos para chegar ao que é hoje o metrô do México – mais de seis décadas para que cheguemos ao caos do México – no ritmo atual do governo do Estado. E não há uma indignação em relação a isso. As pessoas vão parando, demoram duas a três horas por dia se deslocando e as coisas vão sendo empurradas, sem que se discuta alternativas. 

CARTA MAIOR: A quebra da hegemonia do PSDB em São Paulo mudaria muito o perfil político do Brasil?

HADDAD: Acho que mudaria. Primeiro, porque a alternância no poder é sempre boa – e nós não temos tido alternância. No Estado, o governo está com o PSDB há 20 anos. Isso não oxigena a máquina. Não é possível se reinventar o tempo todo. Outra coisa é que houve um sopro de renovação no Brasil que varreu boa parte do Nordeste, pensando em Jaques Wagner, Marcelo Déda, Eduardo Campos, Cid Gomes, para citar alguns; chegou ao Rio também: na minha opinião, Sérgio Cabral é uma boa novidade. É uma geração com ideias novas, com vontade de colocar o Brasil numa outra rota, de pensar o país grande. Aqui, o peso de uma renovação seria ainda maior. Se São Paulo irradiasse o novo, isso teria um efeito muito grande sobre o país. Hoje, São Paulo está estagnado. Se você pegar qualquer livro ou artigo sobre desenvolvimento nacional, o Brasil vai ser referência, mas se o livro for sobre metrópoles, São Paulo não é citado, a não ser pelos problemas que enfrenta. 

Na gestão da Marta, as pessoas vinham conhecer o bilhete único, os CEUs, os corredores de ônibus. Estava começando um processo de rejuvenescimento da cidade, como Nova York, Santiago e Bogotá viveram, como Curitiba ao seu tempo, e como cidades na Ásia, sobretudo na Índia e na China, estão vivendo. Hoje, São Paulo tem pouco a ensinar, porque foram oito anos de muita calmaria, muito dinheiro arrecadado e pouco impacto na qualidade de vida da população. Da porta para dentro de casa o paulistano reconhece que sua vida melhorou, em função do que o governo Lula propiciou, mas da porta de casa para fora, onde o cara depende do poder local a vida ficou mais dura. 

CARTA MAIOR: Qual a mensagem que você teria para todos os paulistanos? O que sensibilizaria a cidade como um todo? A questão da mobilidade?

HADDAD: A questão da mobilidade sem dúvida, que é onde o poder público está devendo demais. Há estagnação de investimentos. O ritmo de obra não vai dar conta. E a tendência, se o Brasil continuar crescendo, é piorar, porque as pessoas vão cada vez mais migrar para o transporte individual. Se o transporte público não responder, o cidadão vai dar a resposta, comprando um carro, uma moto, e resolvendo individualmente um problema que teria de ser resolvido de forma coordenada. É uma questão de vaso comunicante: melhorou a renda, comprou um carro. E vai tudo parando. O que está acontecendo do ponto de vista econômico é isso: as pessoas estão ganhando mais e saindo do transporte público por falta de anternativa. Isso vai continuar acontecendo se nada for feito e pouco está sendo feito na direção correta.

CARTA MAIOR: Este é o centro de seu programa?

HADDAD: Não. Considero que uma visão estratégica é fundamental. São Paulo não tem uma visão de longo prazo sobre si mesma. Nós temos um problema gravíssimo de centralização de serviços e oportunidades econômicas que não foi enfrentado até hoje. A cidade é uma megalópole com 31 subprefeituras esvaziadas do ponto de vista de poder resolutivo. A oferta de serviços públicos não é uniforme. Existe um problema de logística na cidade que não envolve só transporte, mas o investimento que está sendo feito. Não há uma política de descentralização e isso agrava o problema.

CARTA MAIOR: Que papel que o Lula vai ter nessa eleição? Você seria uma candidatura viável sem o Lula?

HADDAD: Essa pergunta é difícil de responder quando dirigida ao PT, imagina dirigida a mim. O Lula é um político único. Desde os meus 15 anos de idade, tudo o que vejo acontecer na política nacional está relacionado a ele: se vai ter eleição direta ou não, se vai ter constituinte exclusiva ou não, se vai ter reeleição ou não. A política toda gira em torno dele desde final dos anos 70 vai continuar girando. É a liderança em torno da qual orbitam os demais interesses. Falar do Lula é falar de uma personalidade que tem a força e a frequência de um cometa, é uma vez a cada 70 anos. Quem me convidou foi ele. Ele me sondou numa conversa em que eu disse que pretendia deixar o governo federal e voltar para São Paulo. “Olha, se você precisa renovar, vamos enfrentar São Paulo.” Lula me perguntou se eu queria – e respondi seria uma experiência extraordinária. Eu me encantei com a ideia de fazer uma gestão em São Paulo com a visão de longo prazo que São Paulo não tem, apesar de sua dimensão.

CARTA MAIOR: Você acha que os dois governos Lula serviram para quebrar aqui em São Paulo essa resistência ao prório Lula?

HADDAD: Nós temos que admitir: depois de oito anos de Lula a presidenta Dilma perdeu a eleição na cidade, mas ampliou em relação à eleição de 2008, em que a Marta teve 36%. Antes já havia ocorrido um refluxo. Nós ganhamos a eleição de 2000 na capital, ganhamos em 2002 e perdemos em 2004. Fizemos 39,5% em 2008, e em 2010, 46,5%. Se não fossem alguns episódios, a Dilma teria feito mais de 50%.

CARTA MAIOR: Você acha que existe uma medida preventiva contra uma onda conservadora? O episódio do kit gay foi um ensaio, não foi?

HADDAD: Esse é o típico não assunto: a liberação de uma emenda ao orçamento e a entrega de um material que foi considerado inadequado e não foi distribuído. Resume-se a isso o episódio. Escreveu-se mais do que isso do que o aumento da qualidade da educação no Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Alunos), ou a expansão da educação profissional, ou a expansão da educação superior. Está tudo melhorando na educação, mas se passa meses discutindo um não evento. É incrível a capacidade da mídia de pautar não problemas, não assuntos, não eventos. A população não é informada do que é estrutural e realmente relevante.

CARTA MAIOR: É factível para o PSDB assumir um discurso agressivo, udenista, nessas eleições? O livro “Privataria Tucana” não pode inibir esse tipo de discurso?

HADDAD: O quanto a pessoa está disposta a perder o verniz é proporcional ao desespero de perder a eleição. E digamos que perder essa eleição, no caso do nosso adversário, representaria uma derrota dura. Eu não me surpreenderia se forças obscurantistas fossem mobilizadas, se o quadro lhe retirar o favoritismo que todos dizem que ele (Serra) tem. Daí o desespero bate. Nem todo mundo tem elegância ao participar do jogo eleitoral.

CARTA MAIOR: E você vai ser elegante?

HADDAD: Vamos pegar o caso do presidente Lula. Ele foi atacado várias vezes, teve material para pagar na mesma moeda e sempre abdicou disso. São conhecidas as histórias em que o presidente Lula foi sondado sobre se usaria determinada informação, e ele disse que não. Algumas são públicas. Por exemplo, quando se imaginava que o PT pudesse usar o suposto caso do filho do ex-presidente Fernando Henrique e o presidente Lula respondeu para o seu interlocutor que se dependesse disso ele preferia não ser presidente da República. E sofreu esse tipo de ataque em 1989, de envolvimento de assuntos de sua família na campanha, e nunca revidou. Existem perfis de candidatos. A presidenta Dilma também preferiu ir para o debate político.

CARTA MAIORVocê acha que ganhar essa eleição é importante para a quebra da hegemonia do PSDB no Estado?

HADDAD: Eu entendo que o Brasil não vai voltar a ser o que era nunca mais depois dos oito anos do presidente Lula com a continuidade. A cada eleição se consolida um patamar de exigência diferenciado. Hoje o Brasil é um país mais crítico, mais democrático, mais reflexivo, mais exigente. O Nordeste nunca mais vai ser o mesmo, com a superação de uma realidade de poder daquelas oligarquias atrasadíssimas. Eu não tenho dúvida de que o Brasil poderia mais, se não fosse essa âncora conservadora [em São Paulo]. Tem uma bola de ferro no nosso pé que ainda segura muito o país. E nós já deveríamos ter perdido o medo de avançar, porque depois que você avança e vê que é bom, deveria querer mais, mas ainda tem gente indisposta com o progresso, com o desenvolvimento humano. 

Está mais do que provado que quando há combate de desigualdade todo mundo ganha. A visão de que está tudo ruim porque agora todo mundo anda de avião, e os aeroportos estão lotados, é errada. O mesmo empresário que reclama dobra o seu lucro no seu negócio, porque as pessoas compram mais. E tem um despertar para várias coisas. As pessoas vão ter de se habituar com isso. O Brasil ultrapassou a China em taxas de escolaridade. A escolaridade média é similar aqui e na China, mas na velocidade de aumento foi diferente. Nos últimos 10 anos, o Brasil passou de 3,5 milhões de universitários para 6,5 milhões. E pessoas educadas são diferenciadas, não apenas porque ganham mais, mas porque se colocam de forma diferente em relação à sociedade. 

Temos que nos habituar a isso. Hoje muitas pessoas até fazem trabalho doméstico, mas esse tipo de atividade é usado como uma escala para os que estão estudando, estão fazendo um curso técnico, uma faculdade, e dali a pouco já estarão em outra atividade. A transformação social é muito visível. Mudou o perfil do trabalhador. O problema não é lavar pratos, mas passar a vida inteira lavando pratos. Não pode um indivíduo pagar por toda a espécie.

quarta-feira, 14 de março de 2012

Facebook debate Teotônio Vilela, o pai

Edberto Ticianeli

Postei uma foto no Facebook desafiando para ver quem descobriria um político alagoano na foto, que seria o mais alto (ver foto). Como é comum nas redes sociais, logo surgiu um debate em torno do papel que o tal político cumpriu em Alagoas e no Brasil.

Pela importância dos argumentos, reproduzo o debate. Para quem não descobriu quem era o político, revelo que a foto é de Teotônio Vilela (o pai), então com 17 anos e morando no Rio de Janeiro.

Eis o debate:

Jose Ronaldo
Na época Udenista de carteirinha e nada democrático. Votou favorável ao impeachment contra Muniz Falcão no fatídico ano de 1957. Era correligionário de Arnon de Mello e do resto da gang udenista da época. Inclusive apoiou o golpe de 1964. Quando era vice-governador de Alagoas.

Golbery Lessa
Sim, José Ronaldo, mas no pré-1964 há relatos de atitudes progressista do Teotônio também, que talvez explique a existência dos germes democráticos amadurecidos à época do combate à ditadura. Rubens Colaço, por exemplo, relata que quando foi preso em 1964, pelo Quintela, este queria uma confissão dele de que tinha ligações políticas com Teotônio, Moura Rocha e Maurício Gondin (professor, intelectual e usineiro, com ficha de subversivo no DOPS). Em Fernão Velho, ouvi e gravei relatos de operários aposentados contando intervenções fortes de Teotônio Vilela em defesa do direito de greve, quando ele era vice-governador do Luiz Cavalcante, um dos articuladores do golpe em Alagoas. Ou seja, havia nele contradições ideológicas que, num contexto em que liberais conservadores passaram a querer acabar com a ditadura militar, pois estavam fora do poder, talvez expliquem porque foi o Teotônio um dos mais decididos e porque sua pregação ganhou uma dimensão humanista.
José Ronaldo, Golbery Lessa, Geraldo de Majella e Raul Cleto

Geraldo de Majella
Concordo, Golbery. O golpismo era a plataforma política da UDN. A análise de qualquer período histórico deve ser feito com menos paixão - apesar da paixão ser uma condição humana - mas deve ser no mínimo ponderada. A mesma UDN alagoana abrigava figuras como Lourival de Mello Mota, um democrata. A leitura e o conceito que temos hoje de democracia não é a mesma leitura que havia na década de cinquenta , sessenta, por exemplo.

Golbery Lessa
Mello Mota e Rui Palmeira, por exemplo. Um cara que criou filhos como Wladimir Palmeira e Moacyr Palmeira, duas figuras decisivas na esquerda brasileira, não pode ser igualado aos do baixo escalão moral da UDN. Esses dois camaradas podem ser figuras éticas e políticas exemplares por motivos aleatórios, isso é possível, mas eu acho que eles sofreram uma influência positiva clara do pai. Por outro lado, não conheço cada momento da trajetória do Rui Palmeira para saber se ele se manteve moralmente íntegro em todas as conjunturas que atuou.

Geraldo de Majella
Ronaldo, muita gente apoiou o golpe militar de 1964 em Alagoas e no Brasil. Mas devemos levar em consideração que muitos deles logo romperam com os militares. É a dinâmica da vida e da política. Teotônio foi um dos políticos e empresários de Alagoas que esteve do lado dos golpistas. Mas é necessário dizer que foi um dos primeiros a romper politicamente com os golpistas e cumpriu um papel importantíssimo no processo de denúncias da ditadura, no processo de acumulação de forças para se chegar a um certo consenso em plenários com o oposicionistas para votar a Lei da Anistia. A Anistia aprovada não era a anistia que ele, Teotônio, queria, nem a que muitos de nós queríamos, mas foi a possível. Será que os homens não podem mudar de posição?

Geraldo de Majella
José Ronaldo, você é um antigo militante comunista, pelo menos foi. O Golbery é um dirigente comunista, não posso qualificá-lo como sendo da nova geração, por já passar dos quarenta anos de idade. Eu fui um militante comunista, posso afirmar categoricamente de uma geração intermediária, entre a sua, Ronaldo, e a do Golbery. O que há de comum entre nós? O fato dos três serem historiadores e termos preocupações com Alagoas, cada um a seu modo, é claro, mas o que efetivamente queremos é viver numa Alagoas melhor, mais justa, desenvolvida, alegre e democrática. Para mim é o suficiente, no momento. Palavras da salvação.

Golbery Lessa
Tudo isso demonstra que as pesquisas sobre a vida do Teotônio Vilela precisam avançar muito. Não se sabe o básico sobre ele.

Raul Cleto
Em 64 eu tinha 9 anos...acho que meu pai era major do exército...servia no rio de janeiro...foi responsável pelo inquérito no Instituto Manguinhos...local de muitos cientistas...e comunistas...diziam lá ter uma célula...anos mais tarde - eu já na faculdade - meu pai explicou que nada demais havia constatado dentro daquele famoso instituto...que tinha conhecido sim,pessoas de esquerda - diferentes ao seu pensamento -,mas todas imbuídas das melhores intenções...terminou o inquérito com muitos amigos...e foi até presenteado com um jantar de despedida pelos mesmos...alguns desses cientistas - segundo meu pai -,após isso,resolveram se exilar no exterior...talvez com medo de algo futuro...mas como meu pai muitos militares não se envolveram em violência...defenderam seus pontos de vista...mas não compactuaram com a tortura...uma minoria posso dizer...pois vivi em vilas militares e ouvia desde menino historias de muitos deles...como na esquerda também tinham pessoas que defendiam a luta armada...o sequestro...etc..meu pai foi um homem justo e muitíssimo correto...e defendia seus princípios...e chegou a votar em Lula na sua 1ª eleição...um coisa inconcebível anos atrás...quando na faculdade comecei a ser simpatizante do PC do B,lá em casa foi uma tragédia...brigamos muito por um bom tempo..depois tanto eu cedi por um lado como ele também cedeu por outro...e votou junto comigo em Eduardo Bonfim para deputado constituinte...melhoramos os dois.

Geraldo de Majella
Belo depoimento, Raul. O fato de ter sido militar na ativa no período compreendido entre 1964 e 1985 não significa esta envolvido com tortura, assassinatos. Mas, infelizmente, uma minoria de militares das três armas se envolveram com a tortura e assassinaram muitos patriotas. Por isso a Comissão da Verdade faz todo o sentido não como forma de retaliação. Mas como compromisso de restabelecer a verdade histórica e ajudar o País a entender melhor o período ditatorial.

Geraldo de Majella
Golbery, o Teotônio Vilela é um personagem importante da história de Alagoas e do Brasil. Concordo com você, falta muito para se compreender o papel dele na história, seja como deputado estadual, vice-governador, senador e como intelectual.

A carta de renúncia de Ricardo Teixeira

Eu vos convido a voltar aos bancos de escola para que façamos a interpretação de texto de alguns trechos da dramática carta de Ricardo Teixeira. Tirando um errinho ou outro, trata-se de uma carta de renúncia bem feita. Pena que tenha demorado tanto para ser escrita.

Há dois tipos de cartas de renúncia: as telegráficas e as dramáticas.
As telegráficas são cartas meramente técnicas, que apenas comunicam a saída do poderoso. Foi como fizeram D.Pedro I (29 palavras), Collor (37 palavras) e Nixon (apenas 11). 

Já as dramáticas são longas e contam histórias. Elas tentam apontar vilões, eximir os autores de culpa e colocá-los como vitoriosos injustiçados. 

Dito isto, estudioso leitor e estudada leitora, eu vos convido a voltar aos bancos de escola para que façamos a interpretação de texto de alguns trechos da dramática carta de Ricardo Teixeira. 

Ele começa dizendo: 

“Ser presidente da CBF durante todos esses anos representou na minha vida uma experiência mágica. O futebol, no Brasil, é mais que esporte, mais que competição. É a paixão que envolve, é o sofrimento que alegra, é a fidelidade que unifica.” 

Notem que o texto começa dizendo que ficar na CBF foi algo mágico. Não, não sejam maldosos. Ele não está falando de truques de desaparecimento de reais ou multiplicação de dólares. Sua intenção é começar com um tom emotivo, usando palavras como “paixão”, “alegria”, “fidelidade”. 

Quanto à forma, vale ressaltar que a frase final se utiliza de uma afirmação tripla, um ritmo largamente utilizado para provocar emoção. Ponto para Teixeira.

Depois continua:

“Por essas razões, pensei muito na decisão que ora comunico e pensei muito no que dizer sobre minha decisão.” 

Aqui temos uma das poucas falhas estilísticas do texto. A repetição da palavra “decisão” poderia ser evitada. Na verdade, a frase poderia acabar em “comunico”. Mas o mais importante de se notar é que o autor insiste em dizer que foi uma decisão tomada exclusivamente por ele. Não foram as pressões ou as acusações que o fizeram sair, mas o “pensar muito”.

“Fiz, nestes anos, o que estava ao meu alcance, sacrificando a saúde, renunciando ao insubstituível convívio familiar”. 

Aqui Teixeira começa a se colocar como vítima. A ideia é mostrar-se como um herói capaz de sacrifícios, como alguém que dá sua vida por uma causa, alguém que deixa de lado os parentes para pensar no futebol e no país. 
Mas é bom lembrar que ele não estava assim tão longe da família. Afinal, na CBF estava seu tio Marco Antônio, secretário-geral, e ainda está seu irmão Guilherme, diretor de patrimônio. E no COL (Comitê Organizador Local) trabalham sua filha Joana Havelange, diretora-executiva, e seu cunhado Leonardo Rodrigues, gerente de compras.

“Não há sequência de ataques injustos que se rivalizem à felicidade de ver, no rosto dos brasileiros, a alegria da conquista de mais de 100 títulos, entre os quais duas Copas do Mundo, cinco Copas América e três Copas das Confederações. Nada maculará o que foi construído com sacrifício, renúncia e dor.” 

É lançada aqui a ideia dos ataques injustos, algo sempre presentes nas cartas de despedida, pois, na verdade, segundo os escritores destas cartas, estas infâmias é que são as culpadas pela renúncia. Por exemplo, em 2001, ACM escreveu: “Fui submetido a um tratamento injusto, mas sobretudo covarde”.

O renunciante dramático sempre se coloca como vítima de um conluio. Mas Teixeira vai além e diz que não importam estes ataques frente à alegria nos rostos brasileiros. É como se ele, tal qual um mártir, não se importasse por sofrer desde que isto trouxesse felicidade ao povo. 

Vale assinalar que Teixeira foi habilidoso na enumeração. Começa com 100 títulos e depois coloca os mais importantes, desse jeito valorizando os cem citados anteriormente, no qual devem estar dezenas de taças sem a menor importância. 

“A mesma paixão que empolga, consome. A injustiça generalizada, machuca. O espírito é forte, mas o corpo paga a conta. Me exige agora cuidar da saúde.” 

Estamos nos aproximando do final e a carta fica mais emocionada. 

Infelizmente na segunda frase temos um erro feio, com uma vírgula separando sujeito e predicado. Mas o que vale é que o autor se coloca como vítima da paixão. Foi seu amor ao futebol que provocou a injustiça generalizada. E foi o excesso de zelo pelo esporte e as injustiças que causaram seu problema físico.

É curioso perceber o uso da próclise em “Me exige...”. Isso é errado segundo os padrões da norma culta, mas aproxima o autor do leitor comum.

Quanto ao sentido, este é um dos trechos mais importantes da carta, pois é o que revela a causa, ou desculpa, para a saída do cargo: a saúde. Não são as acusações de corrupção, não são o caso ISL ou da Ailanto, mas apenas a saúde. É um ótimo pretexto. Há que ver se alguém acredita. 

“Deixo a CBF, mas não deixo a paixão pelo futebol. Até por isso, a partir de hoje e sempre que necessário, coloco-me à disposição da entidade.” 

Este final também é clássico nas cartas de renúncia. Num gesto de grandeza, aquele que sai se coloca à disposição. Jânio Quadros disse: “Retorno agora ao meu trabalho de advogado e professor. Há muitas formas de servir nossa pátria". Paulo Otávio, ao deixar o governo do DF, seguiu o mesmo tom: “Quanto a mim, saio da cena política e me incorporo às fileiras da cidadania”.

Finalmente, eis o parágrafo derradeiro:

“À torcida brasileira, meu muito obrigado. Nunca me esquecerei das taças sendo erguidas. Elas estão no coração de cada um de nós. Elas são um pedaço do Brasil." 

Este final é especialmente interessante. Ele sintetiza duas intenções da carta de Teixeira. Coloca o povo brasileiro como seu interlocutor e põe-se mais uma vez como vitorioso, como já havia feito nos “mais de 100 títulos”. 

Do ponto de vista estilístico, o texto recupera a emoção do primeiro parágrafo, utilizando termos como “meu muito obrigado”, “nunca me esquecerei”, “coração de cada um de nós” e “pedaço do Brasil”. Um bom fecho.

Em resumo, tirando um errinho ou outro, trata-se de uma carta de renúncia bem feita. Pena que tenha demorado tanto para ser escrita.

José Roberto Torero é formado em Letras e Jornalismo pela USP, publicou 24 livros, entre eles O Chalaça (Prêmio Jabuti e Livro do ano em 1995), Pequenos Amores (Prêmio Jabuti 2004) e, mais recentemente, O Evangelho de Barrabás. É colunista de futebol na Folha de S.Paulo desde 1998. Escreveu também para o Jornal da Tarde e para a revista Placar. Dirigiu alguns curtas-metragens e o longa Como fazer um filme de amor. É roteirista de cinema e tevê, onde por oito anos escreveu o Retrato Falado.

segunda-feira, 12 de março de 2012

Cotas na TV por assinatura: a mentira não pode prosperar

Nota Oficial da Fenaj

A Federação Nacional dos Jornalistas manifesta publicamente seu repúdio às campanhas promovidas pela SKY e pela Jovem Pan, respectivamente contra aspectos da Lei 12.485/11 e da veiculação do programa "A Voz do Brasil". Igualmente, a FENAJ considera a perspectiva de relaxar ou minimizar a obrigatoriedade de cumprimento de cotas um desserviço à cultura nacional e à almejada democratização da comunicação no país.

A propaganda veiculada pela SKY, com a lamentável participação de atletas de expressão nacional, sustenta-se numa mentira, a de que a nova lei não considera o esporte e o jornalismo como conteúdo nacional. Não há nada, absolutamente nada, no conteúdo da nova lei que dê margem a esta interpretação. Tal propaganda está ludibriando os assinantes da SKY e a sociedade brasileira, usados como mera massa de manobra na chantagem da formação de preços e na mentira quanto à produção e fornecimento de conteúdos audiovisuais.

A Lei 12.485/11 dispõe sobre o Serviço de Acesso Condicionado (SeAC), ou lei da TV por assinatura, como se tornou conhecida, trouxe uma série da alterações na legislação sobre TV paga no Brasil, beneficiando os interesses das empresas de telefonia com a possibilidade de também ingressarem indiscriminadamente neste segmento do mercado de comunicação e entretenimento do país. Mas o que vem gerando a insatisfação de algumas operadoras, entre elas a SKY, é centralmente a definição de cotas obrigatórias para produção de conteúdo regional, nacional e independente na TV paga, tanto no espaço qualificado quanto nos pacotes oferecidos aos assinantes, bem como a necessária fiscalização à qual não querem se submeter.

O oferecimento de 3 horas e meia de conteúdo nacional por semana (equivalente a 30 minutos por dia) em horário nobre, sendo 50% deste conteúdo produzido por empresas independentes, em nada impede qualquer operadora de veicular duas, quatro, seis ou mais horas de conteúdo esportivo e jornalístico nacional POR DIA. Tais empresas têm inteira liberdade para isso, basta terem vontade de investir em tal programação e exibi-la, ao contrário de prosseguirem exibindo programações de pacotes internacionais de qualidade questionável e incontáveis reprises, mas que geram às operadoras e empacotadoras lucros estratosféricos, às custas dos assinantes.

Outro aspecto positivo da Lei 12.485/11 é a obrigatoriedade estabelecida às operadoras de reservarem ao menos 1/3 dos canais de conteúdo qualificado a canais brasileiros de conteúdo. A resistência das empresas de TV paga é uma demonstração de suas verdadeiras intenções, de seu desapego à valorização da produção cultural e audiovisual brasileiros e de sua indisposição de estimular o surgimento de canais de conteúdo nacional. Por esses e outros motivos, tal lei tem sua constitucionalidade questionada na justiça pela ABTA e pelo DEM.

A regulamentação da Lei 12.485/11 está posta em consultas públicas pela ANCINE - Agência Nacional de Cinema - e pela ANATEL - Agência Nacional de Telecomunicações. Os critérios gerais propostos pela ANCINE para analisar a dispensa do cumprimento da obrigatoriedade das cotas tanto por parte das programadoras quanto das empacotadoras, bem como a redução de seu poder de fiscalização sobre as empresas, ameaçam o próprio espírito da lei, abrindo espaço para que a exceção vire regra e o cidadão brasileiro vire mero consumidor.

Infelizmente, o governo respaldou a aprovação de uma lei para atender aos interesses dos grupos estrangeiros e dos grandes conglomerados de comunicação, criando pequenos avanços, como cotas de conteúdo nacional (uma pequena concessão que nem de longe atende à necessidade de valorização da nossa língua e da nossa cultura). Ao fazer isso, revogou na prática a lei do cabo, elaborada em bases democráticas, e ignorou, mais uma vez, a perspectiva de um marco regulatório. Agora, mesmo esses pequenos avanços estão sob a ameaça de um forte lobby patronal e de uma postura inconsistente da ANCINE.

Voz do Brasil é a voz do Brasil
Igualmente reprovável é a campanha  lançada pela Jovem Pan, de São Paulo, bem como a campanha patrocinada pela Associação das Emissoras de Rádio e Televisão do Estado de São Paulo (AESP) contra a transmissão do programa “A Voz do Brasil” em cadeia nacional.

A flexibilização do horário do programa “A Voz do Brasil”, produzido sob a responsabilidade da Empresa Brasil de Comunicação (EBC) é uma exigência antiga do baronato da mídia, capitaneado pela Associação Brasileira das Empresas de Rádio e Televisão (Abert). Veiculado desde a década de 1930, o programa é considerado pelas emissoras privadas como um empecilho aos seus interesses comerciais.

Uma das signatárias da carta aberta aos membros da Câmara dos Deputados, a FENAJ reafirma sua posição de apoio à continuidade da transmissão da Voz do Brasil às 19 horas por seu caráter integrador e de disseminação de informações públicas em rede nacional e, consequentemente, contra o PL 595/03, que flexibiliza o horário de exibição do programa nas rádios, prevendo sua veiculação entre 19h e 22h.

Para milhões de brasileiros “A Voz do Brasil” é a única forma de obter informações. Tamanha relevância não pode ser subjugada aos interesses privado-comerciais dos empresários da comunicação.

Brasília, 06 de março de 2012.

Diretoria da FENAJ

sexta-feira, 9 de março de 2012

Ecad quer cobrar por vídeos no seu blog


Era só o que me faltava.... uso esta expressão para não utilizar outra, mais chula que começa com P. O Ecad agora começou a cobrar direito autoral de vídeos musicais publicados nos blogs???????!!!!!!!!!

Que o Ecad é um Escritório Central de Amor ao Dinheiro isso todo mundo já sabe. Eu que já fui casada com um músico sei muito bem o que isso significa.

Mas esta ação extrapolou todos os limites. O argumento do órgão que justifica a iniciativa é que é preciso pagar o direito autoral pela reprodução pública de obra musical.

De acordo com o Ecad, “não existe nenhum trabalho de cobrança de direito autoral focado em blogs e sites, porém, todo usuário que executa música publicamente em site/blog ao ser captado pelo setor responsável do Ecad, pode receber um contato”, justifica a assessoria do escritório. “O blog foi captado em um trabalho rotineiro e recebeu o contato. Como dito anteriormente, caso haja execução pública musical, há obrigatoriedade do pagamento da retribuição autoral”. (fonte Link – Estadão).

A cobrança é mais de meio salário mínimo... R$ 352,00 para cada “retransmissão musical”. E alguém acha que o Chico vai receber um mísero centavo deste dinheiro porque o seu vídeo foi veiculado no blog pessoal de alguém??? Não estamos nem falando de sites ou portais de notícias, estamos falando de um blog!!!!

Estou perplexa!!!!

Para piorar o Ecad já recebe o direito autoral pela “retransmissão musical” depois de firmar acordo com o Google. Ou seja, a cobrança é dupla para a mesma “retransmissão”.

O Ecad está tentando engrossar o caldo da SOPA, isso sim!