sábado, 26 de novembro de 2011

A batalha da Rua Santo Antônio

Edberto Ticianeli
Gilberto Soares Pinto e a casa na Rua Santo Antônio

Gilberto Soares Pinto era comunista e ateu. Condição que jamais deveria ser contestada por alguém que não estivesse disposto a entrar numa boa briga. Meu pai fazia questão de declarar as suas convicções políticas e religiosas para todo o populoso bairro da Ponta Grossa, onde fomos morar em 1966. Os vizinhos evangélicos bem que tentaram convertê-lo. Sem resultados. Aliás, o efeito foi contrário: alguns quase que se filiaram ao Partido Comunista Brasileiro, o Partidão.

Após o golpe militar de 1964, quando esteve preso e perdeu todos os livros do pequeno sebo da Rua 2 de Dezembro, o velho comunista montou uma lanchonete popular na esquina do quarteirão onde ficava o Cine Lux. Era um prédio antigo com sete portas estreitas e altas, que também abrigava precariamente a família. Além dos negócios, essa esquina também funcionava como um ponto de confluência de aposentados e militantes de esquerda. Era ali que Gilberto pregava os seus ideais libertários, mesmo sendo vigiado pelos agentes da polícia política.

Nesse período inicial da ditadura, ainda aconteciam manifestações da sociedade civil em apoio aos militares e contra os comunistas. Eram comuns manifestações como as Marchas da Família com Deus pela Liberdade, organizada pelos setores mais conservadores da classe média. Uma das mais lembradas organizações desse segmento foi a Tradição, Família e Propriedade (TFP), uma organização de base católica, extremamente conservadora. Fundada em 1960 por Plínio Correia de Oliveira, era motivada por um discurso contra a desordem e por um estranho fanatismo religioso, que envolvia até a mãe do seu fundador.

As atividades da TFP só eram conhecidas em Alagoas graças aos meios de comunicação. Por isso que a presença deles em Maceió, mas precisamente na Ponta Grossa, chamou a atenção de todos.

Não passava das 10 horas da manhã, quando as pancadas lentas e ritmadas em um bombo foram ouvidas na Rua Santo Antônio. Era um cortejo que tinha à frente altos estandartes, em cor de vinho, empunhados por indivíduos com a cabeça raspada e vestindo uma espécie de batina. Iam de porta em porta estendendo uma sacola e pedindo dinheiro.

Alguns vizinhos, mais provocadores, vieram correndo avisar ao meu pai que os esquisitos carecas estavam pedindo dinheiro para combater o comunismo. Um gozador chegou a desafiar:

–– Eita, “seu” Gilberto! Quero ver se o senhor é comunista agora!

O velho foi até a porta. Olhou na direção da passeata de carecas e tratou de montar a recepção. Separou entre os pedaços de madeira que serviam de tramelas para as portas, um que ele dizia ser especial.

–– Esse é de coração-de-negro, não quebra nunca!

Mandou que nos afastássemos um pouco, postou-se na porta com os braços para trás segurando o improvisado tacape, e ficou à espera. A torcida em volta da porta já era grande e os desafios provocativos mais agudos.

–– Esse velho não vai ter coragem de dizer que é comunista. Ele está com medo.

O jovem militante da TFP se aproximou, estranhando o grupo que se formava em torno daquele homem sem camisa.

–– Bom dia, senhor! Estamos pedindo a sua ajuda para acabar com os comunistas no Brasil. Qualquer contribuição será bem vinda.

–– Quer dizer, meu filho, que vocês vão acabar com os comunistas? –– perguntou Gilberto, mesmo tendo ouvido tudo.

–– Isso mesmo. Vamos acabar com essa praga vermelha –– reafirmou o desavisado jovem.

–– Então, como eu sou comunista e devo me defender, tenho o direito de acabar com quem quer acabar comigo!

A primeira cacetada por muito pouco não acertou cabeça: atingiu o ombro, provocando um grito de dor na vítima. Como resultado da pancada, a sacola com dinheiro caiu no chão e foi rapidamente apropriada pela turba. O fanático militante da TFP, percebendo que seria atingido de novo, correu para se proteger entre os seus correligionários. Mas a perseguição continuou, agora estendida para todos. Houve correria e alguma tentativa de reação dos que portavam os estandartes. Sem sucesso.  Não eram páreo para o poderoso pedaço de coração-de-negro.

Quando o tumulto já estava fora de controle, com os militantes de cabeça raspada espalhados e machucados, apareceu a turma do deixa-disso e conseguiu acalmar o intrépido e vitorioso combatente. A TFP se recompôs mais adiante, na porta do Cine Lux, e seguiu derrotada no único enfrentamento concreto com o comunismo em Alagoas.

Ninguém mais, no velho bairro da Ponta Grossa, voltou a duvidar que Gilberto Soares Pinto era comunista mesmo, e dos brabos.

3 comentários:

soalagoas disse...

Gostaria de ter a autorização para publicar suas postagem no www.soalagoas.info

Carlos Holanda disse...

Hehehehe! O velho seu Giberto, uma figuraça. Eu lembro desta turma da TFP passando uma manhã pela Rua 24 de Fevereiro. Deve ter sido neste mesmo dia.

Edberto, esta foto e a lembrança da lanchonete popular me fez lembrar do finado "nêgo" Mano e os pastéis de vento. Lembra dessa história?

blade das trevas disse...

O Partidão era o velho Gilberto. Não participei dessa guerra, mas frequentei o Quartel dos Pintos e conheci o General.