quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Sobre Cesare Battisti

A cada dia somos instados a embarcar na surrada cantiga das corporações multinacionais que, na prática, exercem dissimulada ingerência sobre os veículos de comunicação brasileiros, uma contrapartida compulsória aos ‘produtos’ que oferecem ‘gratuitamente’ às nossas principais redes midiáticas, do tipo ‘BBC Brasil’ e congêneres. No duro, um processo de ‘neocolonização’ da informação, como sutil controle do pensamento. Sou do tempo em que a ‘Voz da América’ oferecia rolos de fita e discos LP, magnificamente produzidos nos ‘States’, na voz de locutores de cá, regiamente contratados em ‘verdinhas’, entre eles, Correia de Araújo, Luís Jatobá, Guilherme de Souza e outras vozes mercantes de nosso rádio. Em português, brasileiros narravam as delícias do paraíso ‘americano’. E, de certa forma, fizeram a cabeça de muita gente boa que, anos depois, abençoaria o golpe de 1964, para proteger o Brasil dos que pretendiam (que horror!) instaurar no país uma ‘república comuno-sindicalista’. Agora, o pepino do ‘paraíso’ terá que ser heroicamente descascado por um ‘afrodescendente’, Barack Obama.
Na Itália, governos reconhecidamente corruptos, de inspiração neofacista, revezaram-se no poder com a chamada ‘democracia cristã’, braço político controlado pelos tradicionalistas do Vaticano. O bilionário Berlusconi, cruzamento de ‘cappo’ da ‘cosanostra’ com genética do ‘ducce’ Mussolini, amealhou fortuna brotada no submundo da bota itálica. Como ele, prosperaram ‘similares’ na Rússia ‘pós-glasnost’ e outros países europeus e asiáticos, todos, coincidentemente, ‘investidores’ em grandes clubes de futebol(Milan, Chelsea e outros), além de controladores de poderosos grupos de comunicação, bancos e toda a parafernália destinada a produzir dinheiro fácil e abundante, com a leniência subvencionada de governantes de plantão.
Ocorre que a Itália, além das perigosas ‘famiglias’, sempre teve seus condestáveis na luta contra opressores de variada linhagem. Garibaldi, que lutou por aqui, no Rio Grande, foi um deles. No curso dos tempos, correntes indignadas do pensamento humano têm-se negado a coexistir com as relações promíscuas entre o Estado e setores excludentes, não raras vezes ambos aspergidos com a água benta clerical. Reprimidos, foram à forra e, consequentemente, criminalizados.
Mundo afora, as manifestações de rebeldia contra exploradores de toda ordem assumiram diversificadas nuances, desde a mobilização nos ‘limites’ do sistema, recurso geralmente sufocado por conhecidos recursos da fraude eleitoral, até a extrema insurgência armada. Os ‘rebeldes’ foram ‘batizados’, invariavelmente, como ‘terroristas’ pela contra-propaganda dos ‘donos’ do poder’ contestado. Daí para desenfreada radicalização foi um passo, certamente, em algumas circunstâncias, um grave equívoco estratégico, sagazmente explorado pelo ‘marketing’ avassalador dos chamados ‘legalistas’.
Até meados dos anos 80, os italianos viveram crises institucionais por conta da inconsistência de seus arranjos político-partidários. O poder central era uma colcha de retalhos, numa progressão autofágica alimentada pela multifacetada identificação nacional. Afinal, o processo de unificação, de base republicana, havia surgido há pouco menos de 70 anos. Interesses díspares regionalizados, agora, em pleno século XXI, mesmo subjacentes, ainda persistem por lá.
CESARE BATTISTI foi um desses tantos personagens de ‘vendetas’ políticas italianas, que teve a má-sorte de perder a parada e acabou dando com os costados no Brasil, depois de uma desilusão francesa. Berlusconi, dono do Milan de Kaká, exigiu sua extradição, para, obviamente, exibi-lo como troféu de suposta ‘luta sem tréguas contra o terrorismo’. Nos bastidores, comenta-se que o governo italiano teria feito ‘corpo mole’ em defesa do compatriota ‘banqueiro’ Cacciola, fraudador de nossa economia, apanhado em Mônaco, para ‘facilitar’ a desejada troca por Battisti, já preso entre nós. Condenado em Roma à revelia, pela ‘delação premiada’ de ex-chefe de seu grupo ‘Proletários Armados para o Comunismo’(que tirou o ‘fiofó’ da reta, acusando o antigo subordinado), Battisti requereu asilo em nosso país, por razões de precedentes políticos historicamente (re)conhecidos. Competia, dessa forma, ao governo brasileiro, a quem Cesare recorreu, o arbítrio de decidir soberanamente sobre eventual exequibilidade do apelo.
Aceito o pedido, segundo a Lei, sob alçada decisiva do Ministério da Justiça, não é lícito que se promova insultuosa chicana contra o país, tendo em vista a martelada legal de seu governo em favor de Battisti. O pior: promove-se uma cruzada, com propósitos desqualificadamente dissuasórios junto à opinião pública. Aqui entra o condimento político interno: a ‘oposição’ ao governo Lula acha que finalmente descobriu o ‘caminho das Índias’. Ficará, certamente, na rota da ficção, a exemplo da novela homônima da Globo.
Em tempo: aos preocupados com o açodamento das ‘pressões apaixonadas’, vale a pena revirar o farto material nos ‘sites’ de busca e portais noticiosos. Digite ‘Cesare Battisti’ , pesquise e conclua, livremente. Acesse a opinião de eminentes juristas,tais como Dalmo Dallari, Eduardo Tessi Filho, Durval de Noronha e outros especialistas. Entretanto, por favor: não repasse sofismas emocionados, a título de ‘verdade estabelecida’. Estamos combinados???
Em tempo 2 – Apesar de recentes ‘peripécias’ de seu presidente, o STF não dispõe de prerrogativa para ‘desfazer’ decisão estritamente constitucional do Poder Executivo. Salvo se o doutor Gilmar arquiteta encampar o Planalto, com auxílio da tropa-de-choque do DEM/PSDB e ‘subsidiários’ do baixo clero, ‘disponíveis’ conforme o ágio.

Um abraço.
Antônio Manoel Góes – Rio de Janeiro.

Um comentário:

Sergio Campos disse...

Parabéns Ticianeli pelo artigo, bastante esclarecedor. Ainda bem que hoje temos essa arma chamada Internet e por isso, ainda bem, a grande mídia perde espaço.