quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

O poder da Hidra

Quando o revolucionário russo Lenin escreveu que a política é economia concentrada, é óbvio que não se referia à política no seu sentido menor, das disputas partidárias. Mesmo tendo a compreensão da verdade conceitual da expressão, vamos lançar mão da essência do ensinamento para nos ajudar a discutir alguns processos políticos em Alagoas.
Depois de largo período de domínio absoluto, a cana-de-açúcar vai deixando de ser o carro chefe da economia alagoana. Essa situação ficou mais exposta durante o governo Lula com o aumento das injeções de recursos federais na economia do estado. Para se ter uma idéia desse montante basta comparar os R$ 100 milhões pagos aos trabalhadores da cana com os R$ 136 milhões distribuídos com o seguro-desemprego. O Bolsa Família deixa anualmente em Alagoas a expressiva ajuda de R$ 370 milhões. Mas a crise do setor é mais antiga: ela começa quando os famosos subsídios e empréstimos caridosos (que faliram o Produban) deixaram de chegar. Acrescente a este quadro a defasagem tecnológica e relevo impróprio para colheitas mecanizadas, o que vem tirando competitividade da cana-de-açúcar plantada em Alagoas. Essa perda de poder econômico vem encontrando correspondência na influência política do setor. Mas é com o afastamento do governador Divaldo Suruagy, em 1997, que há uma evidente pulverização do poder emanado das usinas.
É exatamente nesse período que os segmentos políticos do “médio clero”, que intermediavam os interesses políticos – e às vezes até os econômicos - do açúcar em cada região do estado, começam a colocar a cabeça para fora. A sede do poder em ascensão é a Assembléia Legislativa. E é de lá que partem os acordos que garantem um orçamento para o legislativo do tamanho da fome de sua Mesa Diretora e deputados associados. O poder eleitoral desse segmento é tal, que os seus componentes se reúnem para decidirem quem vai ser o governador do estado. O pressuposto é que o escolhido tem que garantir os gordos repasses no duodécimo do legislativo. É, portanto, no espaço político vazio que as usinas vão deixando, que florescem esses segmentos que querem o poder para continuarem no poder: não defendem nenhum projeto elaborado a partir de uma visão sobre a economia de Alagoas.
O velho poder do açúcar não governa como antes e não há um novo projeto de poder em construção. É no meio tempo das indefinições políticas maiores que “triunfam as nulidades”, mesmo com o fustigamento das diversas operações da Polícia Federal enfraquecendo algumas das suas “cabeças”. O desafio não é somente prender ou punir taturanas: é preciso construir um novo projeto de poder em Alagoas que ocupe os vazios políticos. Sem isso a Hidra de Lerna perderá cabeças, mas continuará Hidra, com, pelo menos, uma cabeça imortal.

Um comentário:

Antônio Manoel Góes disse...

Olá, Ticianeli: escarafunchando nossos anais na internet, leio que, desde lá dos remotos tempos do Império e começo da República, nossos próceres políticos, tão rememorados no altar da História, já ostentavam a má-fama da prevaricação. No popular, sempre meteram a mão no erário desavergonhadamente. Usuários de benesses do poder público, nossos 'lordes', com as raríssimas exceções de sempre, consolidaram seus domínios como bem entenderam. Apropriando-se das tetas estatais, sugaram até a última gota do melaço. Já no fim do século passado, a maioria decidiu 'falir', mudou de ramo,deu um 'créu' no Produban e passou o bastão para que 'taturanas' e outros desajustados, de nova geração peçonhenta, sequenciassem o desmonte de nossas esperanças. A pavorosa Hidra 'alagoense', fingiu-se de morta, mas continua 'aprontando'. Os bravos 'Hércules' locais, diferentemente do helênico homônimo, não conseguem decepar a cabeça imortal dessa horrenda criatura que subjuga a política alagoana. Aliás, nos idos de Melo e Póvoas, Tavares Bastos, Gabino Besouro, Manoel Gomes Ribeiro e outras 'sacrossantas figuras', mais ou menos votadas, já era assim...