quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Edécio Lopes: uma vida que se conta

Estou chegando do Cemitério Parque das Flores onde fui me despedir do Edécio. Pensei em escrever algumas linhas em sua homenagem, mas lembrei-me do texto que o Dinho publicou na Gazeta de Alagoas há pouco tempo. Sinto-me contemplado em reproduzi-lo como homenagem a quem fez tanto pelo rádio e carnaval alagoano. Com a palavra o Ednaldo Vasconcelos, seu filho.

O gosto e o aprendizado pelo rádio começaram muito cedo. Sendo um dos filhos do radialista Edécio Lopes, vivi o rádio de perto, dentro da minha casa. Convivi com a maioria dos grandes radialistas deste Estado, como Reinaldo Cavalcante, Jalon Cabral, Floracy Cavalcante, Arivaldo Maia, Antonio Torres, Sabino Romariz, Luiz Tojal, Arnaldo Costa, Ailton Vilanova, Romildo Freitas, dentre outros nomes significativos da comunicação alagoana. Acompanhei meu pai em vários dos seus programas, e ficava depois assistindo, admirando e me divertindo com os seus colegas de trabalho.
Esse legado me trouxe muitos benefícios. Conheci músicas de boa qualidade e presenciei entrevistas realizadas com seriedade sobre diferentes temas, principalmente, àqueles do âmbito político e cultural. Durante os programas, conheci artistas com destaque local, regional, nacional e internacional, bem como intelectuais e políticos desde os candidatos a cargos eletivos e depois os eleitos vereadores, prefeitos, deputados estaduais, federais, governadores, senadores e até presidentes da República.
Sem sombra de dúvida, o comunicador de rádio é o verdadeiro formador de opinião, principalmente os que interagem nas ondas da rádio AM. Com a prestação de serviços, a veiculação de notícias de última hora, os comentários e os debates, os radialistas informam e alimentam toda a sociedade sobre os rumos de seu bairro, cidade, estado, região e do país como um todo.
Quem não se lembra dos debates riquíssimos travados no Programa Manhãs Brasileiras em meio às campanhas para governo do Estado, quando o então candidato Divaldo Suruagy e José Costa eram sabatinados por Edécio Lopes? Aquela discussão tão acirrada entre dois adversários políticos fez com que o programa extrapolasse o horário, alterando toda a programação da emissora. Tamanha audiência teve como causa o interesse da população em conhecer as propostas dos pretendentes a esse alto cargo no Palácio dos Martírios. A mesma empolgação do público voltaria a acontecer em outro episódio, quando o advogado José Moura Rocha expôs, durante uma entrevista, suas idéias no campo político.
Muitos foram os fatos relevantes vividos, narrados e transmitidos pelo rádio e por mim presenciados. Fiz algumas participações, inclusive na prisão do então cabo Henrique. Quando a polícia Militar fazia o cerco das ruas no centro da cidade e a imprensa (seja de rádio e jornal, pois naquela época não dispúnhamos de jornalismo local) cobria o episódio, eu, defronte a "nossa agência", escritório de publicidade de meu pai, avistei em cima do telhado um homem que se escondia enquanto policiais estavam em seu encalço. Não sabia ainda que ele já havia concordado em se entregar, porém só o fazia mediante a presença de um militar de patente superior. Mesmo assim, liguei para a rádio Gazeta e fui informado de que não poderia falar com meu pai, já que as linhas estavam todas reservadas para receber informações sobre a verdadeira caçada ao cabo Henrique. Sem perder tempo, falei: "passe então a ligação que eu estou na frente do homem". A partir daí dei um furo de reportagem, com o anúncio de que o cabo Henrique acabara de se entregar. Ao chegar depois na rádio Gazeta, levei o apelido de Waldomiro Pena, um jornalista policial intrigante que fazia parte de um seriado da Rede Globo. Rádio AM é isso: notícia, informação, prestação de serviço e entrevistas que engrandecem e enriquecem o conhecimento de todos.
Mas também vivi de perto a rádio FM. Meu pai fundou a rádio Gazeta FM, onde trabalhou também, como discotecário, meu irmão mais velho. As emissoras FM têm uma qualidade de transmissão superior, e difere das AM, principalmente na programação musical, que chega a abrangência de quase 90% de sua transmissão. Daí uma inigualável arte do Edécio Lopes: o conhecimento musical. O homem que era capaz de, diante de qualquer pedido musical, informar o nome da música, dos compositores, do disco ou CD e até a faixa. Some-se a isso o extravagante bom gosto pela música nacional.
No seu programa Edécio Lopes em FM, líder de audiência todas as tardes na Educativa FM, era impossível ouvir música de baixa qualidade. Os destaques eram dados aos compositores e cantores renomados, bem como mais antigos, trazidos da sua discoteca e arquivo pessoal composta por mais de 10 mil LP´S e 8 mil CD´S. Detalhe: todos catalogados. Não tinha como falar da importância do rádio, sem incluir exemplos da vida e do trabalho de Edécio Lopes, justamente porque são assuntos que se confundem e se compõem de forma natural.
Um dos episódios que não esqueço foi a raiva que tive do rádio quando morávamos em Recife, nos idos de 1974, em um único intervalo na trajetória profissional de meu pai. Ele, sem comentar com ninguém, principalmente com sua esposa, D. Dina, veio a Maceió e acertou com a rádio Gazeta o seu retorno para Alagoas. Viciado como era em rádio, da varanda do seu apartamento em Boa Viagem, sintonizava mesmo com dificuldade a programação de Maceió. E justamente em uma dessas noites, a família reunida ouviu a inesquecível introdução do seu programa Manhãs Brasileiras e o anúncio da sua volta programada para o próximo mês. Foi uma decepção geral, afinal não gostaríamos de ir embora. Mas com o tempo, entenderíamos a importância do rádio de Alagoas para Edécio Lopes bem como sua importância para a história do rádio alagoano.
Os grandes eventos do rádio alagoano foram criados ou passaram pelo crivo de Edécio Lopes. A caravana da felicidade, que presenteava as mães alagoanas no seu dia, e a Caravana Junina que escolhia as quadrilhas de maior animação e premiava os bairros da capital nas festas juninas, viraram tradição e ainda hoje repercutem em todo o Estado. Porém, o maior espetáculo musical produzido por ele foi o festival de frevos Alafrevo - 78 que lançou diversos compositores e divulgou para o Brasil o seu frevo Cidade Sorriso que canta as belezas da nossa terra e encanta os turistas de todo o país.
Para que esses momentos inusitados sejam sempre lembrados, surge agora o filme "Estrelas Radiosas", dirigido pelo Pedro da Rocha, como um dos esforços para manter viva a história de Edécio e de outros ícones do rádio em Alagoas. Além da homenagem recebida na área do audiovisual, é pensamento da família preservar todo o seu acervo de lps e CD´s catalogados, bem como todos os seus livros, em uma fundação, com o objetivo de proporcionar o acesso às novas gerações que não tiveram o privilégio de conviver com a riqueza cultural que só o rádio proporcionou.
A gora pelo mesmo rádio que sempre propaga informações e notícias que podem vir a beneficiar ou prejudicar indivíduos ou até mesmo uma coletividade, fico ansiosamente no aguardo de poder transmitir notícias boas sobre a melhora no estado de saúde de meu pai; ou, caso isso não seja possível, de pelo menos ouvir que o seu sofrimento acabou. De qualquer forma, dele sempre se manterá vivo o legado de honradez, dignidade, inteligência, honestidade e trabalho, muito trabalho, pois o rádio sério prescinde de pessoas como ele. E toda a nossa família sempre se orgulhou e sempre se orgulhará de sua história, a mesma família que é imensamente grata pelo bem-querer transmitido por todos os ouvintes e pessoas amigas que conhecem o valor e a honra deste que é um dos maiores comunicadores de Alagoas: Edécio Lopes.

Um comentário:

Antônio Manoel Góes-Rio de Janeiro disse...

A ida sem volta de Edécio Lopes, nesta quarta, 21, suscita-me a impressão de que as circuntâncias, decisivas para minar sua resistência física, meses atrás, são prova inequívoca da pouca atenção aí dispensada aos nossos ícones. Edécio era um deles. 'Especialista' em relações humanas,cordato,dono de uma comunicação sóbria e elegante,jamais vulgarizou opiniões diversas de seus pontos de vista. Assim, sobreviveu às contradições do sinuoso cotidiano político de Alagoas. Daí a longevidade de seu 'Manhãs Brasileiras'.Ironicamente, devemos a ele o batismo do primeiro grande bloco carnavalesco de Maceió, com trio elétrico e estrutura de apoio aos foliões. Apraz-me ter integrado o 'Meninos da Albânia', designação rotulada nos embates eleitorais de l985, uma referência de Edécio aos então aguerridos militantes do PCdoB, cuja boca-de-urna garantiu a vitória de Djalma Falcão, na legenda de centro-esquerda, para prefeito de Maceió. Na sequência, novos blocos surgiram e revigoraram o carnaval de rua da capital alagoana. Possivelmente sem se dar conta da repercussão de sua crítica irreverente e bem-humorada, Edécio, poeta de nossas tradições carnavalescas, instigou a modernização de nossos folguedos, idéia que ensejou, anos afora, uma sucessão de blocos altamente profissionalizados. Infelizmente, já cansado de guerra, não sejamos hipócritas, foi sutilmente descartado por, provavelmente, contrariar os manjados cânones paroquiais de sempre. Aos familiares de Edécio, o estímulo para que preservem, no interesse dos pósteros, o magnífico acervo desse artista que tanto nos honrou.