quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

O futebol brasileiro da Globo


Essa polêmica, sobre a mudança do nome do maior estádio de futebol de Alagoas de Rei Pelé para Rainha Marta, tem ocultado questões mais relevantes sobre o futebol brasileiro

O próprio futebol feminino, que levou a jogadora Marta ser premiada como a melhor do mundo, vive o paradoxo de não ter campeonato brasileiro e nem alagoano da sua categoria. 

Se os poderes públicos, legislativo e executivo querem mesmo interferir no futebol, que o façam por atacado discutindo as questões fundamentais. 

Como não é essa a prática mais adotada, sei que estamos muito longe de abordarmos os problemas nas suas raízes, contudo, acho que vale a pena dar uma opinião.


Como torcedor do CSA e palpiteiro, identifico que os problemas do futebol brasileiro têm origem, principalmente, no modelo de gestão adotado pelos cartolas da CBF e pelo Clube dos 13: para eles futebol não é esporte; futebol é um negócio a ser explorado, quase sempre sem pagar impostos. 

Como negociantes, seus lucros se realizam quando abrem as bilheterias, vendem o direito de arena – transmissão e retransmissão por rádio e TV – e negociam os passes dos atletas. Com a exceção da bilheteria, que tem como comprador o torcedor, o mercado do direito de arena e dos passes de atletas envolve interesses de grandes investidores, principalmente das empresas de comunicação.

A Rede Globo, por exemplo, só tem interesse de comprar o direito de arena de campeonato que coloque em disputa clubes de grandes torcidas, o que garante altos índices de audiência e, conseqüentemente, o lucro oriundo dos anunciantes, das retransmissões e dos assinantes dos canais fechados, já que a Globo também explora a Sky. 

Em alguns clubes, na hora das contratações do jogadores estrelas, as opiniões dessas emissoras são levadas em conta. Os grandes campeonatos do país são, assim, definidos pelas empresas de comunicação. 

A fórmula do sucesso é manter competições com poucos clubes de grandes torcidas. E como ficam os campeonatos estaduais? Já ouvi de um desiludido ex-dirigente do CRB a avaliação de que deveriam acabar. Esses campeonatos não interessam à lógica dos lucros das empresas de comunicação que compram o direito de arena. 

Os campeonatos estaduais do eixo Rio-São Paulo ainda conseguem negociar os direitos de transmissão de suas partidas, mas não acredito que esse acordo envolva grandes quantias. Pelo menos é o que indica um acerto entre uma emissora de TV e os clubes alagoanos, que pagou R$ 20 mil para transmitir o campeonato local e ainda saiu no prejuízo. 

O pior dessa situação é que os pequenos clubes, excluídos do banquete, em vez de esboçarem alguma reação, vivem às cotoveladas na disputa pelas migalhas. No fundo, concordam com esse sistema e querem participar dele.

O futebol como esporte, envolvendo os clubes e suas torcidas, não pode esperar deitado que a Rede Globo, a CBF e o Clube dos 13 resolvam abandonar esse modelo para serem agentes da promoção dos campeonatos estaduais. 

É preciso que o Governo Federal proponha uma política para garantir que os campeonatos de futebol, principalmente os regionais, voltem a ter importância no calendário esportivo brasileiro. 

A própria Globo sabe como resolver isso. Quando ela quer comprar um bom filme da indústria norte-americana de cinema, é obrigada a adquirir um pacote de filmes. Lá ela não escolhe só os mais lucrativos.

E o nome do estádio vazio e precisando de reformas? É Pelé ou Marta? É melhor deixar Trapichão mesmo, pelo menos teremos um aumentativo "ÃO" no futebol alagoano.

2 comentários:

Antônio Manoel disse...

É isso, Ticianeli! Concordo em gênero, número e grau. Aliás, sempre estivemos mal nesse história do Trapichão. Naqueles tempos(quase-imemoriais),criaram a FAPE, pretensa redentora do futebvol alagoano que, além do futuro 'Rei Pelé', edificaria raças esportivas pelo interior. Lembro-me dos bingos, nos anos sessenta, com prêmios de jipes, 'rurais' e outros veículos,para viabilizar a construção do estádio. Depois, correria a boca pequena que cada coqueiro, ali, no terreno do Trapiche, ao lado do famoso 'Galeto', foi arrancado pela bagatela de 200 mil cruzeiros. Vários, espertalhões, enriqueceram à custa da esperança do torcedor de boa-fé, sempre vítima da crônica empulhação nativa. E mais: o projeto do estádio, gestado na prancheta de arquitetos cariocas, fora apresentado ao Flamengo e liminarmente rejeitado por ser 'bonitinho, mas ordinário': pelo estranho traçado de ferradura, comportaria mais público na 'geral'(hoje abolida pela FIFA), como gado,em pé, do que na arquibancada. E veja que o lado onde fica a galera do CSA não existia na maqueta original. Pois bem: trataram de empurrar o tal projeto, goela abaixo, em Alagoas. A propaganda, na época de 'febre de estádios'(pós-Copa do México), falava em 100 mil lugares, evidente exagero para uma cidade que beirava os 400 mil habitantes. Tudo falácia. Quanto ao interior, tudo ficou à base do dito pelo não-dito. Hoje, como ocorre pelo Brasil a fora, somos mais um desses laboratórios de 'promessas', 'cevadas' por atravessadores do tipo 'Corinthians Alagoano' e companhia (i)limitada, que negociam nossos garotos, ainda de fraldas, com quem interessar possa. Por oportuno: nossa Marta só é 'rainha' porque espalhou engenho e arte na Suécia e periferia européia. Se por aqui continuassse, sejamos francos, seria conhecida(e abominada) como "aquela garota, 'sapatão', que joga futebol em Dois Riachos". Um dia(quem sabe?), toda essa mixórdia mudará. Quem viver(espero), verá. Antônio Manoel Góes-Rio de Janeiro.

Fabrício disse...

Sinceramente, vejo a coisa de modo bem diferente.
Os clubes não são instituições públicas que devem ser salvas pelo governo ou ser ajudadas por instituições privadas como a Rede Globo. O intuito dela, como de qualquer negociador é atingir, na transação, o melhor custo-benefício. E é claro que para conseguir o melhor rendimento do seu investimento ela vai transmitir os jogos das equipes com maior número de torcedores, e esses vão exigir, naturalmente uma maior fatia do bolo.
Nenhum clube do Brasil de médio ou grande porte tem, hoje, rentabilidade com os campeonatos estaduais. Eles apenas matam a sede de rivalidade do torcedor, e mesmo assim, nos jogos finais, ou clássicos.
A saída para os "grandes" clubes de Alagoas é o Campeonato do Nordeste, rentável, de melhor nível técnico e com maiores receitas de televisão.
Melhor os 20 mil de uma rede de TV que teve a coragem de arriscar transmitir o famigerado campeonato alagoano do que não ter nada. Infelizmente o mercado alagoano não tem condições de pagar mais que isso.
Já o Corinthians Alagoano, esse é um exemplo a ser seguido. Bom estádio próprio, sem dívidas. Se fosse um pouco mais ousado já teria dominado amplamente o futebol alagoano, tendo em vista que seus concorrentes estão falidos, ou dependem de apoio de prefeituras (o que num estado lascado como Alagoas, é uma vergonha).