terça-feira, 8 de novembro de 2011

Violeiros e cirandas: poesia improvisada

Resultado de um mapeamento cultural do Brasil realizado por Aluízio Falcão e Marcus Pereira no início dos anos de 1970, foram lançados, já em 1975, quatro coleções de discos com as gravações das principais manifestações de cada região do país. Segundo Aluízio Falcão, “todo o projeto, com sofisticados recursos técnicos, dava sequência ao que Mário de Andrade, munido apenas de lápis e papel, iniciara 40 anos antes”.

Após a gravação da coleção Música Popular do Nordeste, Falcão pediu a cinco destacados intelectuais da região que escrevessem sobre os principais gêneros documentados. O texto abaixo, de Ariano Suassuna, sobre cantorias de viola e literatura de cordel, é o primeiro aqui reproduzido. Pela importância dos temas e como forma de lembrar a boa ideia que tiveram Aluízio Falcão e Marcus Pereira, vamos reproduzir todos eles, em outras postagens.  

Os próximos serão os de Paulo Cavalcanti sobre o frevo, Renato Carneiro Campos sobre cocos e bandas de pífanos, Euricledes Formiga sobre as emboladas, Jaime Diniz com as danças populares, especialmente as cirandas, e Hermilo Borba Filho sobre o bumba-meu-boi.


Violeiros e cirandas: poesia improvisada

ARIANO SUASSUNA

A POESIA POPULAR DO NORDESTE pode se classificar em dois grupos bem caracterizados: a literatura de cordel e a poesia improvisada dos cantadores. O nosso romanceiro é, sem dúvida, originário do ibérico, mas tem hoje fisionomia própria, inclusive pela riqueza e variedade das formas de estrofes usadas. Dessas estrofes, as mais utilizadas são a sextilha, a décima de sete sílabas e o martelo agalopado, décima de dez sílabas cuja estrutura é a mesma usada no século de ouro na Península Ibérica.

Tais estrofes são as mais importantes tanto nos romances quanto nos desafios da poesia improvisada, existindo ainda, porém, o mourão, o galope à beira-mar, o martelo gabinete (sextilha de dez sílabas) entre outras formas menos importantes. Entretanto, apesar de se tornarem cada vez mais raros, ainda encontramos no sertão alguns romances ibéricos ou iberizantes compostos na forma monorrímica.

A cantoria, ou desafio, é a forma usada para a poesia improvisada. Dois cantadores, de viola em punho, às vezes durante toda uma noite, improvisam à maneira dos tensons provençais. O que existe de melhor nesses desafios é o tom jocoso, satírico.

– Vá me buscar um carneiro
que seja mocho e pelado,
com uma estrela na testa,
com os quatro pés manchados,
de rabo branco e comprido
e com o couro malhado.

– Meu colega, me desculpe,
você errou o terreiro.
Vá bater em outra porta,
procurar noutro roteiro:
encomenda como essa
só feita ao pai-de-chiqueiro

Esse tom satírico e jocoso, aliás, reaparece também na literatura de cordel, nos romances compostos, impressos em folhetos e vendidos nas feiras. Os ciclos desse romanceiro podem ser assim agrupados: ciclos heróico; maravilhoso; religioso e de moralidades; cômico, satírico e picaresco; histórico e circunstancial; de amor e fidelidade. No ciclo cômico, satírico e picaresco reaparece o mesmo tom jocoso, às vezes beirando a obscenidade, como sempre acontece nas formas de literatura popular. Disso é exemplo a seguinte sextilha, do cantador paraibano Firmino de Paula e citada por Zita de Andrade Lima:

Atirou-lhe à queima-roupa
porém naquele momento
o menino desviou-se
e veloz igual ao vento
deu-lhe um grande pontapé
no valor do casamento.

No ciclo heróico, constituído pelos romances épicos e trágicos e, principalmente, pelas gestas do cangaço, encontramos estrofes como esta:

O Alferes pegou do rifle,
ficou o mundo tinindo,
era o dedo amolegando
o fumaceiro cobrindo
batendo as balas em Vilela,
voltando prá trás, zunindo.

Às vezes, porém, no ciclo heróico, no meio de um romance épico – ou em que se misturam o épico e o maravilhoso – como em A chegada de Lampeão no inferno, aparece o cangaceiro heróico, como se fosse um sansão sertanejo, armado com uma caveira de boi; o cantador aproveita para misturar ao tom heróico um acento cômico, como na seguinte estrofe de sete pés:

Lampeão pode pegar
uma caveira de boi
Sacudiu na testa dum,
ele só fez dizer: Oi!
Ainda correu dez braças
e caiu, enchendo as calças,
mas eu não sei do que foi!

No ciclo cômico, satírico e picaresco, encontramos, às vezes, títulos de sabor clássico como: A desventura de um corno ganancioso, que parece nome de um conto de Boccaccio. O que, aliás, não é de admirar, por encontrarmos, no romanceiro nordestino, devidamente versadas, a História de dona Genevra, tirada do Decameron, e a História de Romeu e Julieta. No ciclo do maravilhoso, encontramos histórias do tipo A moça que virou cobra e A mãe de calor de figo, como também todas "as pelejas em que o Diabo aparece". O Romance do pescador que tinha fé em Deus é do ciclo religioso e de moralidades. No ciclo histórico e circunstancial agrupam-se os comentários dos poetas populares aos acontecimentos do dia: é o caso do folheto A renúncia do presidente Jânio Quadros.

A importância do romanceiro popular do Nordeste é imensa e cresce a cada dia. Quando não sua forma, seu espírito está presente em toda a melhor literatura nordestina, bastando citar, no romance, os nomes de José Lins do Rego e Guimarães Rosa, ou de Joaquim Cardozo e João Cabral de Melo Neto, na poesia, entre os que criaram sua obra na linhagem do romanceiro para mostrar como essa literatura popular é importante para que se entenda a Arte brasileira e o próprio Brasil. É que, com a História de Carlos Magno e os doze pares de França e outros vestígios do romanceiro carolíngio, assim como com histórias européias, árabes etc., o romanceiro nordestino é uma espécie de ligação entre a tradição mediterrânea e o povo brasileiro de hoje.

Em sua poesia encontramos décimas quase surrealistas, como esta:

No tempo em que os ventos suis
faziam estragos gerais
fiz barrocas nos quintais
semeei cravos azuis.
Nasceram esses tafuis
amarelos como cidro
Prometi a Santo Izidro
levá-los, quando lá for
com muito jeito e amor
em uma taça de vidro.

Ou, então, martelos como este.

Quando as tripas da terra mal se agitam
e os metais derretidos se confundem
e os escuros diamantes que se fundem
das crateras ao ar se precipitam
as vulcânicas ondas que vomitam
grossas bagas de ferro incendiado
em redor deixam tudo sepultado
só com o som da viola que me ajuda,
treme o sol, treme a terra, o tempo muda
eu cantando o martelo agalopado.

E um romanceiro que tem versos como este não precisa de mais nada para demonstrar importância.

Fonte: Estudos Avançados, vol.11 n° 29 São Paulo Jan./Apr. 1997

domingo, 6 de novembro de 2011

Como identificar e tratar trolls e seus “parentes”



Como parar de se importar com os trolls e seguir a vida
por Whitson Gordon, em Gizmodo Brasil
Você os vê em todo lugar que vai na internet: usuários anônimos que nunca têm nada a dizer além de comentários grosseiros, mal-educados e fora do assunto, cujo único propósito é te deixar com raiva. A única cura é parar de se importar, mas isso nem sempre é fácil na prática. Vejamos algumas dicas.
A palavra “troll” enquanto verbo da língua inglesa, deriva de uma técnica de pesca que consiste em jogar uma isca na esperança de fisgar um peixe – que é exatamente o que os trolls de internet fazem. Eles usam frases grosseiras e outras técnicas para tentar “fisgar” alguém, o que acontece quando a pessoa fica irritada e responde. O único objetivo deles é te irritar, assim como o seu irmão fazia quando te cutucava sem parar ou repetia tudo o que você dizia. Eles frequentemente se associam a pessoas poderosas para sentirem-se também mais poderosos.
A atividade de trollar na internet começou nos newsgroups da Usenet há muito tempo, mas hoje eles estão por todos os lugares. Fóruns, YouTube,  blogs, Twitter, Facebook. O problema é que atualmente todos nós estamos sujeitos aos trolls. Isso significa que ignorá-los se torna cada vez mais difícil, já que você tende a estar mais emocionalmente investido nas coisas que diz, e também que eles têm muito mais mídias por onde atacar. Estas são algumas das coisas que podem te ajudar a criar uma resistência aos trolls e parar de se preocupar com o que os malditinhos estão dizendo na internet.
A regra de ouro: não alimente os trolls
Você provavelmente já ouviu essa frase diversas vezes. Ela é a regra fundamental de participação em qualquer comunidade on-line, e não sem razão. Ignorar é e sempre foi, definitivamente, a melhor estratégia. A maioria dos trolls se alimenta do confronto – afinal, seu objetivo único é chamar atenção –, por isso, quanto menos atenção você der a eles, melhor. Se você estiver em um ambiente que tenha estas funções, dê uma avaliação negativa ao comentário, denuncie e/ou bloqueie, depois siga com a sua vida.
É extremamente tentador, mas resista à vontade de responder. Não responda nem mesmo para desmascará-lo como um troll. Mesmo um comentário simples como “favor, pare” ou “vá embora, troll”, chama mais atenção para os comentários dele, engordando a “conversação”, ou mesmo, no caso dos fóruns, mover o tópico para o topo. Se um troll olha para o seu computador um pouco depois e não vê nenhuma resposta, ele vai procurar chamar atenção em outra freguesias. Demonstrar para ele que você pode ser fisgado, mesmo de leve, é pedir para sofrer mais.
Eles não estão atacando você, mas sim o tédio
Uma das maneiras mais fáceis de identificar um troll é pela sua completa falta de razão. Eles são ofensivos de propósito e sem motivo, apenas para causar uma reação em você, em vez de defenderem um ponto de vista genuíno com argumentos relevantes. Nas suas frases, você perceberá uma atitude forte de “eu estou certo e todo o resto do mundo está errado”. Chris Shiflett, do Swiss Miss, explica melhor do que eu:
“A lição que eu aprendi é estar atento com aqueles que se orgulham de não gostar de algo. Os que pensam que criticar é igual a ter bom gosto. Estas pessoas raramente têm bom gosto, então as opiniões delas não importam.
Então, lembre-se: mesmo que o que você tenha feito não seja a melhor coisa do mundo, quem não conseguir falar isso sem um mínimo de simpatia, quem parecer se orgulhar de criticar você, essas pessoas têm opiniões que não importam. Pode muito bem ser o caso de você ter criado uma obra de arte, e eles serem apenas moleques”.
Ele diz que não é necessária nenhuma sofisticação para ser um crítico escroto, e está completamente certo – se não há nada de valor em uma frase, você não deveria dar a esta frase valor nenhum. Não deixe os “haters” te afetar; eles estão raivosos porque estão entediados e sem o que fazer, não porque você tenha feito algo mal feito.
Eles não valem a energia gasta brigando contra eles
No fim das contas, você realmente precisa gastar a sua energia se preocupando com o que meia dúzia de desocupados estão falando sobre você? Não. O blogueiro Scott Stratten explica o conceito de “moeda emocional” e como ele se relaciona com o trato com os trolls:
“Em resumo, você tem uma quantidade limitada de emoção. Ela deve ser gasta com pessoas que a valorizam, que valorizam você, não com um moleque qualquer que está revoltado por qualquer outro motivo e desconta em estranhos na internet. Há muitas pessoas que valorizam muito mais o investimento do seu tempo”.
Só porque a internet está cheia dessas pestes, não significa que ela não esteja cheia de pessoas incríveis também. O tempo que você passa alimentando trolls com as suas respostas é um tempo que você poderia estar gastando tendo discussões importantes com pessoas melhores, ou mesmo fora da internet. Você quer mesmo gastar a sua energia em algo que não traz absolutamente nada de bom?
Aprenda a rir da situação
Uma atitude positiva pode te fazer suportar quase tudo. Apesar de ser possível aprender a se segurar para não responder aos trolls, é quase impossível ignorá-los completamente — mesmo que você tome atitudes para destrollizar a sua internet. A melhor estratégia para manter a sua sanidade intacta é aprender a ter um senso de humor a respeito disso. Pode ser um pouco insensível te aconselhar a simplesmente ficar mais casca grossa, mas o fato é que funciona. Susannah Breslin, uma colaboradora da Forbes, disse uma vez: “se te baterem com frequência na cabeça, você para de sentir”. É bem verdade. Lembre-se que se você é trollado com uma frequência maior, isso significa que as pessoas estão te percebendo em uma posição de poder maior também. Alguma coisa certo você está fazendo.
Como responder, quando você responder
Eu recomendo que você não responda trolls nunca, em hipótese alguma, mas se você acabar fazendo isso, pode tentar evitar a discussão em si. Se você usar a bondade contra eles, vai confundi-los com maior facilidade. O desenvolvedor de software Shlomi Fish explica como, usando o exemplo de um troll que critica uma linguagem de programação em um fórum:
É bem simples:
1. Pergunte a ele o que ele quer dizer:
2. Concorde com ele (usando linguagem mais suave):
Isso fará o troll perder um pouco do gás e quem sabe até se identificar com você.
Alguns podem discordar deste método – eu pessoalmente acho que é melhor ignorar e pronto –, mas se você já estiver preso em um argumento com um deles, pode tentar essa estratégia de ser legal com ele, tal qual um Ursinho Carinhoso, para escapar.
Aprenda a diferenciar críticas construtivas de trollagens
Por último, é importante mencionar que, como eu disse antes, há alguns casos em que alguém pode ser grosseiro e te criticar fortemente, mas fazer isso não por maldade, apenas por falta de tato. Se você conseguir extrair algo de construtivo, ou argumentos válidos, daquele comentário pode valer a pena responder. Ser desagradável não é exatamente a mesma coisa que ser um troll (apesar de todo troll ser desagradável), então às vezes pode ser o caso de dar um voto de confiança para alguém antes de decidir ignorá-lo completamente. Ele pode estar apenas escolhendo as palavras erradas para te criticar construtivamente.
Isso exige um tanto de prática e condicionamento, mas o objetivo principal é simplesmente parar de se importar tanto com o que os outros pensam, especialmente aqueles que não têm nada de útil para oferecer. Se você tiver mais dicas para lidar com trolls, seja na internet ou na vida real, compartilhe com a gente nos comentários.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

A conversa do Coronel Joaquim Rezende com o Capitão Virgulino Ferreira, o Lampião

Joaquim Rezende (à esquerda) conversa com Melchiades
da Rocha. Foto: Maurício Moura - A Noite
Os mais novos não sabem, mas a morte de Lampião, em 28 de julho de 1938, chegou ao conhecimento dos jornais da então capital do país, Rio de Janeiro, pelas mãos de um alagoano. Melchiades da Rocha era repórter do jornal carioca A Noite, quando recebeu um telegrama o seu irmão Durval da Rocha, despachado de Santana do Ipanema, em Alagoas, comunicando que “onze bandidos, inclusive Lampião, foram mortos pela polícia alagoano na fazenda Angicos, em Sergipe”. Foi um dos maiores furos de reportagem daquela época.

A título de curiosidade, a participação da família da Rocha no episódio não para por aí. Quando as cabeças dos cangaceiros chegaram à Santa Casa de Misericórdia de Maceió, foram autopsiadas pela equipe chefiada pelo Dr. Ezechias da Rocha, outro irmão de Melchiades.

Como prêmio pelo furo de reportagem, e também porque era alagoano, Melchiades recebeu a incumbência de viajar, no dia seguinte às mortes, para a sua terra e acompanhar os acontecimentos. Do aeroporto, o repórter se dirigiu para Santana do Ipanema, onde as cabeças iriam ser expostas. Foi assim que, no dia 30 de julho de 1938, Melchiades descobre que naquela cidade do sertão alagoano, se encontrava o prefeito recém eleito de Pão de Açúcar, Joaquim Rezende, a quem se referiam como tendo sido um dos amigos de Lampião.

O Coronel Joaquim Rezende foi prefeito de Pão de Açúcar entre 1938 e 1941. Segundo Etevaldo Amorim, em seu livro Terra do Sol, Espelho da Lua, a sua administração foi marcada por investimentos importantes para cidade, principalmente na melhoria das condições de moradias das populações mais pobres. Morreu assassinado em 1954, quando ocupava o cargo de delegado de Polícia. Os assassinos formam os irmãos Elisio e Luiz Maia. Elisio era o prefeito do município.

Melchiades da Rocha, no seu livro Bandoleiros das Catingas, lançado em 1942, recorda do encontro que teve com Joaquim Rezende em Santana do Ipanema. Ele se refere ao prefeito de Pão de Açúcar como sendo “um abastado proprietário em seu município” e que ele estava em Santana também “à espera da cabeça de Lampião, pois desejava certificar-se se de fato ele havia morrido”.

A situação de amigo de Lampião de Joaquim Rezende aguçou os instintos do repórter, que começou a se perguntar o que teria levado um rico cidadão ase tornar um afeiçoado do Rei do Cangaço”, quando era prefeito de uma cidade que era alvo das ações do bandido. A narrativa a seguir é um valioso documento de como se davam as relações de Lampião com o poder político e econômico das regiões sertanejas vítimas do cangaço.


Sem quaisquer etiquetas, pois nós sertanejos não somos, apenas, iguais perante a lei, apresentei-me ao Cel. Rezende e lhe disse à moda da terra:

— "Seu" Rezende, eu queria uma palavrinha do senhor!

— Pois não! — respondeu-me, amavelmente, o prefeito de Pão de Açúcar.

Momentos depois o Sr. Rezende e eu nos achávamos na sede da Prefeitura de Santana. Em poucas palavras relatei os meus propósitos ao cavalheiro que me fora apontado como sendo grande amigo de Lampião.

Após ter-me oferecido uma cadeira, o Sr. Rezende sentou-se e narrou, pormenorizadamente, como e por que se tornara amigo do Rei do Cangaço, amigo ocasional, bem entendido, pois não poderia ter sido de outro modo.

Fala o Coronel Rezende

Conheci Lampião em 1935, época em que me escreveu ele, pedindo mandasse-lhe a importância de quatro contos de réis, prometendo-me, ao mesmo tempo, tornar-se meu amigo se fosse atendido. Em resposta à carta do terrível bandoleiro, mandei dizer-lhe pelo mesmo portador que lhe daria de muito bom grado o dinheiro, mas que só o faria pessoalmente.

Três dias depois Lampião mandou-me outro bilhete do seu próprio punho, dizendo-me que me esperava às 10 horas da noite na fazenda Floresta, município de Porto da Folha, em Sergipe, recomendando-me que fosse até ali, mas não deixasse de levar o dinheiro. Não obstante os naturais receios que tive, à hora aprazada cheguei ao local do encontro, onde permaneci até uma hora da manhã, quando surgiu um cangaceiro que, ao ver-me, perguntou-me se eu era o moço que desejava falar ao capitão. Respondi que sim.
Frente do Salvo-conduto entregue por Lampião ao
Coronel Joaquim Rezende

Dentro de poucos minutos, então, o Rei do Cangaço ali se apresentava acompanhado de quatro homens, “Juriti”, “Zabelê”, “Passarinho” e "Nevoeiro". Ao ver o grupo aproximar-se, identifiquei logo Virgulino e a ele me dirigi, cumprimentando-o. O famoso bandoleiro, ao contrário do que eu esperava, recebeu-me amavelmente e foi logo perguntando sobre o que lhe havia levado. Sabendo que o Rei do Cangaço gostava de beber, eu, que levava comigo três litros de conhaque, lhos ofereci.

A fim de que desaparecesse logo qualquer suspeita do bandoleiro, prontifiquei-me a ser o primeiro a provar a bebida. Encarando-me com olhar firme, Lampião me disse em tom natural: “Concordo em que o senhor beba primeiro, mas não é por suspeita e sim porque o senhor é um moço decente e eu sou apenas um cangaceiro”. Tomamos, então, o conhaque e, em seguida, abordei o Rei do Cangaço sobre o dinheiro que ele me havia pedido. Como resposta, disse-me ele: “O senhor dá o que quiser, pois eu dou mais por um amigo do que pelo dinheiro”.

— Esse fato — disse o conceituado comerciante de Pão de Açúcar — teve lugar no mês de agosto de 1935, e a minha palestra com Lampião durou três horas, tendo ele me falado de vários assuntos, entre os quais o relativo à perseguição de que era alvo, acrescentando que, de todas as forças que andavam em seu encalço, a que mais o procurava era a do então Major Lucena, dada a velha inimizade que o separava desse oficial da policia alagoana, a quem reconhecia como homem de fato e dos mais corajosos.
Verso do Salvo-conduto, com os seguintes dizeres:
"Au Amo Joaquim Rezendis, como prova di amizadi e garantia perante os Cangaceiro.
Offereci C. Lampião." 

Quanto às forças dos outros Estados, disse-me Lampião que se arranjava “a seu gosto...”, fazendo nessa ocasião graves acusações a vários oficiais dos que andavam em sua perseguição.

— Aí está como foi o meu primeiro encontro com o Rei do Cangaço. — Depois — acrescentou o prefeito de Pão de Açúcar — Lampião mandou pedir-me bebidas, charutos e também objetos de uso doméstico. Mais tarde, porém, fui informado de que ele estava empregando esforços no sentido de matar o Sr. José Alves Feitosa, ex-prefeito de minha terra que, como eu, o esperara muitas vezes ali, a fim de fazer-lhe frente, pois foi das mais terríveis a ação de Virgulino em nosso município.

Tratando-se de um amigo meu o homem que estava destinado a morrer às mãos de Lampião, procurei um pretexto para me avistar com este e não me foi difícil encontrá-lo. Todavia, após uma série de considerações, em que fui até exigente demais, Lampião, dizendo ao mesmo tempo que só fazia tal “sacrifício” para me satisfazer, prometeu-me sustar a realização de sua sanguinária intenção, declarando-me naquele momento que já tinha em campo dois homens para fazer o “serviço” lá mesmo na cidade de Pão de Açúcar, já que o visado andava resguardado, não saindo para parte alguma.

Tal conhecimento com Lampião, deixou-me, aliás, em situação crítica, pois inimigos meus denunciaram ao Coronel Lucena que eu era um dos coiteiros do celerado cangaceiro. Ao ter ciência de tal acusação, dirigi-me ao referido oficial e lhe expus as razões que me levaram a ter contato com o Rei do Cangaço, após ter andado prevenido contra ele, longo tempo. Jamais faria isso se não fosse a situação em que, como muitos outros sertanejos, me encontrei durante longo tempo.

Intercedi, depois disso, em favor de várias firmas comerciais de Maceió e Penedo, cujos representantes teriam caído às garras do bando sinistro se não fora a minha intervenção junto a Lampião. Há dois meses passados, fui forçado, do que não guardei reserva ao Coronel Lucena, a intervir novamente em defesa de algumas vidas preciosas, no que fui feliz, conseguindo que Virgulino desistisse dos seus sinistros propósitos. 

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Grampo azougado pra mulher que tem piolho

Ernane Santana

Francisco Santana e Silva, meu avô, era um dos grandes comerciantes de Colônia Leopoldina, terra que me serviu de berço. Em suas várias propriedades cultivava o café, o cacau, a banana, a mandioca e ainda criava umas cem cabeças de gado bovino. Em Caruaru, também possuía uma propriedade chamada Fazenda Salgado, ali criava gado leiteiro de raça holandesa, vendia o leite, fazia o queijo e também alugava o pasto aos boiadeiros viajantes que vinham para a famosa feira da cidade.

Fez parte do velho PSD (Partido Social Democrata) no final dos anos 30. Seu Chiquito, como era conhecido, vivia sempre cercado de amigos e familiares. Era um cidadão exemplar. Católico convicto e pertencente à Liga Católica Apostólica Romana. Enviuvou quando suas cinco filhas ainda eram crianças, mas tempos depois conheceu Celeste de Lima, a diretora do Grupo Escolar Aristheu de Andrade, com quem casou para dar uma segunda mãe às filhas.
Ernande Santana

Seu Chiquito mantinha, em Colônia Leopoldina, uma loja na antiga Rua do Comércio, hoje 15 de Novembro. Seu estabelecimento comercial negociava quase tudo: tecidos de chita, brim paulista, organdí, madapolão, algodão e seda; chapéus Panamá, Cury luxo, Ramezzoni, pratos de ágate, xícaras, garfos, colheres, gillete para barbear, pentes flamengo, pentes finos, carretéis de linha urso 40, brilhantina, perfumes, tabuada de Teobaldo Miranda, a “Cartilha do Povo”, cadernos “Avante Brasil”, fitas de cetim, grampos para cabelos de mulher, marrafas e outras bijuterias do adorno feminino.

Nessa época, também vivia em Colônia um cidadão chamado Pedro José de Souza. Era oficial de justiça e orgulhoso coveiro da cidade. Ele se gabava de saber em qual cova cada pessoa do lugar estava enterrada. Os gozadores da cidade diziam que os presos pelo juiz podiam ser soltos com um bom advogado, mas aquele que fosse preso na sepultura pelo Pedro, não havia nenhum habeas corpus que o soltasse. Casou com d. Maria, com quem teve dois filhos: Antônia e Luiz. Convivi com o Luiz quando criança e perambulávamos pelas ruas de nossa querida Colônia Leopoldina, fazendo estripulias, organizando brincadeiras e peraltices de meninos do interior.  

Mas Pedro, além de oficial de justiça e coveiro, era também vendedor ambulante. Aos domingos, trabalhava na feira local negociando mangaio em uma pequena barraca de madeira, coberta por um pedaço de lona de caminhão e montada sobre rodas de pau. Durante a semana, ele percorria a cidade vendendo guloseimas. Produzia alfenins, uma deliciosa massa branca de clara de ovo e açúcar cristal que tomava a forma de patinhas, cavalos, revólveres e bonecos. Na hora do recreio do Grupo Escolar Aristheu de Andrade, lá estava ele à porta oferecendo os seus bonecos de açúcar.

- Olha o alfenim do Pedro. É doce, alimenta e serve para o lanche da garotada.

Foi por causa desse pregão que ele ficou mais conhecido pelo apelido de Pedro Alfenim.

Nas festas de Natal, Ano Novo e do mártir São Sebastião, o santo mais festejado da cidade, o polivalente Pedro Alfenim se revelava também como o empresário dono do carrossel. Estrutura simples no qual estavam fixados alguns pares de cavalinhos de madeira com tiras de couro simulando rédeas. As cadeiras ficavam para os casais se inebriarem dando voltas no inocente brinquedo. Com tantas profissões, Pedro aprendeu a ser esperto sem deixar de ser brincalhão. Sempre estava disposto a dizer chistes e contar piadas engraçadas.

Certo dia, o velho Chiquito e Pedro Alfenim conversavam animadamente quando meu avô contou que possuia cinco ou seis grosas de grampos para prender cabelos de mulher, que de tanto tempo encalhados já estavam enferrujados. Pedro Alfenim, sentindo a possibilidade de ganhar alguns trocados com os grampos, se propôs a tentar vendê-los na feira. Chiquito, que já estava mesmo decidido a jogar os grampos no lixo, concordou e lhe disse:

- Olha Pedro, fique com os grampos e deles faça o uso que melhor lhe aprouver, sem compromisso algum.

Com sua visão “empreendedora’, capaz até de vender algodão por veludo, Pedro Alfenim imediatamente pôs-se a imaginar uma estratégia para negociar os grampos.

Nos anos 40, o piolho grassava epidemicamente em nossa região. A falta de água e o desconhecimento das noções básicas de higiene facilitavam a multiplicação da praga. Na época, para tratar dos piolhos eram utilizados pentes finos - que só arrastavam os “bichos” maiores - ou se empregava a catação à unha. Mulheres e crianças interioranas perdiam horas nesse processo de arrepiar cabelos para matar piolho um a um. Foi esse enorme ‘mercado consumidor’ que Pedro Alfenim escolheu para vender seu produto, mesmo com validade vencida. Para compensar, atribuiria uma nova função aos grampos, já que estariam supostamente imantados. 

No domingo seguinte, lá estava Pedro na feira anunciando em voz alta:

- Meus senhores e minhas senhoras, estamos vendendo grampo azougado pra mulher que tem piolho e, eu garanto: com sete dias - e repetia com mais ênfase - com sete dias, a mulher que usar os grampos ficará completamente curada desse mal, dessa peste do piolho.

Os matutos ouviam desconfiados. Mas Pedro falava com tanta convicção sobre o poder de cura dos seus grampos, que as pessoas foram se aproximando devagarinho e logo surgiram as primeiras perguntas:

- Mulher de resguardo pode usar os grampos azougados?

O esperto camelô respondia seguro:

- Bota-se sete grampos nos cabelos da mulher no primeiro dia. Tranca-se a mulher num quarto escuro por sete dias. No terceiro dia bota-se mais sete grampos e no sexto dia também. A mulher não pode ver a luz do sol e a comida entra por debaixo da porta. Pronto, com exatos sete dias os piolhos vão caindo e morrendo, todos feito piaba na rede.

Entre um toque de gaita de boca e um palavreado convincente, os grampos azougados foram sendo vendidos, domingo após domingo. Pedro estava alegre com o ganho, mas preocupado com os possíveis desdobramentos daquela sua propaganda enganosa. Ele fez as contas e concluiu que passadas quatro semanas, logo alguém apareceria para reclamar da ineficácia dos seus produtos antipiolho.

Num belo domingo, Pedro Alfenim estava sentado no meio fio da rua, por trás de sua barraca, quando avistou de longe um sujeito acafuzado, zarolho, com o paletó entreaberto, mostrando uma pistola garrucha presa na cinta.  Ele arrastava pelo braço uma mulher banguela, que não parava de coçar a desalinhada e arrepiada cabeleira negra. Pedro Alfenim pensou: “É agora. Dessa eu não escapo” e agachou-se pensando na humilhação e no vexame que decerto passaria. O sujeito foi chegando e falando bem alto:

- Quem é Pedro Alfenim, o homem que vende grampo azougado pra mulher que tem piolho?

Repetiu a pergunta mais umas três vezes e todos permaneciam em silêncio. Pedro continuava acocorado e calado. Passando pelo local, um molecote tentou ajudar e indicou:

-Seu moço, o Pedro é aquele homem ali agachado.

Não tendo mais como se esconder, o camelô levantou-se de pernas trêmulas e olhos arregalados.  O homem perguntou outra vez:

- É você que vende grampo azougado pra mulher que tem piolho?

A resposta veio baixinha, quase inaudível:

- Sim senhor, sou eu mesmo.

Para sua surpresa e da plateia que já se formara para assistir aquela cena, o caboclo perguntou-lhe:
- Quantos grampos azougados ainda lhe restam pra vender?
Pedro criou alma nova e, percebendo que poderia se desfazer da “ponta de estoque”, respondeu:

- Restam ainda 140 grampos.

O matuto abusado ordenou:

- Ajunte tudo num pacote, diga quanto custa os danados dos grampos, que eu quero ver se agora essa condenada num acaba com essa praga de piolhos que está empestando todo mundo lá de casa.

Pedro fez o pacote, recebeu o pagamento, deixou o sujeito se afastar um pouco e deu dois pulos de alegria. Ato contínuo, ele desarmou a barraca e partiu rapidamente carregando todas as miudezas.

Por segurança e com medo de que o episódio se repetisse sem um final feliz para ele, o multiempreendedor resolveu passar uns 30 dias sem armar a barraca na feira. Afinal, seguro morreu de velho.

Pedro Alfenim continuou negociando ainda por muito tempo, alegrando a garotada com seus doces e entretendo a todos com seu famoso carrossel de cavalinhos. Faleceu com mais de 92 anos de idade, deixando marcada sua presença na história da pequenina Colônia Leopoldina.

Extraído do livro "Incruzando Espadas", de Ernane Santana.